sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Letters for him.

No dia que a gente conversou sobre o Tarantino eu sabia que ia acabar me apaixonando por você...bateu a intuição, sabe?! Foi uma das primeiras conversas mas eu sentia um entusiasmo que me fez querer conversar sobre tudo que eu gostava e te contar sobre o meu dia e as coisas que eu pensava sobre o mundo...e me perguntei porque você trocou a diversão dos bares, cinemas e teatros por meia hora de papo furado comigo; foi aí que eu percebi que você se sentia tão só quanto eu, embora fosse feliz com isso de certa forma...

Eu costumava adorar aglomerações de pessoas...não multidões de estranhos - essas me assustam - mas aglomerações em festas pequenas e médias, encontros de amigos, shows em bares com aquelas bandas que tocam tudo que a gente gosta, sabe?! Costumava andar e encontrar quinhentas pessoas conhecidas, conversar com elas, me divertir, fazer algo fora do planejado. Ontem eu tentei, mas tentei me isolar das pessoas não sei porque...conversei com todas elas mas não tive vontade de ficar perto de nenhuma...e me vi andando sozinha com minha cerveja na mão sem pressa de chegar em casa porque ninguém ia querer saber das coisas engraçadas que eu vi, ou das músicas que tocaram ou daquela velha amiga que eu não via há tempos e que foi tão legal matar as saudades dela...eu consegui com maestria me sentir só na multidão...e a dor vai passando - a gente sabe - os dias vão passando batidos, as taquicardias se tornando triviais e o choro no meio da noite vai dando lugar ao sono, mas isso não quer dizer que eu não sinta sua falta todos os dias...que eu não sofra por ter perdido o meu melhor amigo...porque apesar de tudo o que aconteceu era isso que você representava...o resto todo era incerteza, e eu morria de ciúmes de tudo, e queria amarrar você na grade da janela e não te deixar sair do quarto nunca...porque você era o meu amor e o meu melhor amigo...e isso era uma maravilha que nem eu poderia acreditar.

Não vou tentar ficar bem, nem vou me abraçar com o sofrimento...vou deixar que os dias passem e as cartas diminuam, e que a vontade de te contar quantos sinais verdes eu peguei no caminho pra faculdade passem, e que eu volte a compor canções e não queira te ligar no meio da noite...eu costumava falar sozinha imaginando você sentado na cadeira ao lado...agora eu faço orações pra não perder o equilíbrio depois de tantas crises nervosas...e espero um dia confiar em alguém que possa ouvir o que eu tenho a dizer e que me conte algum segredo importante que eu não possa contar pra mais ninguém...enquanto isso eu espero o dia em que eu vou parar de esperar.

Acho que eu perdi a minha habilidade de fazer boas analogias, acredita? Mas consegui completar o meu top3 de melhores series de drama, concluí que o Ipê amarelo é de fato a minha árvore preferida e descobri que as melhores pessoas são aquelas que não ficam constrangidas em momentos de silêncio com outras pessoas...tente passar cinco minutos em silêncio com alguém...se ela não se incomodar e nem tentar puxar assunto desesperadamente, bem...tenha certeza de que essa pessoa tem opiniões muito boas sobre as coisas e uma visão bacana sobre o mundo!

Sinta saudade de mim quando alguém lhe apresentar uma música nova ou falar de um jeito quase que esquizofrênico sobre alguma coisa que gosta muito...ou quando precisar de um cafuné antes de dormir. Eu vou ficar bem daqui.

O carnaval começou e eu já tirei o meu bloco da rua.



Kamilatavares.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Ambiguidade.

Sonhei com você outra vez...mas que merda...que maravilha! É isso mesmo! Me amaldiçoo e me bendigo por cada pensamento que lhe direciono durante o dia ou até mesmo em sonho, e me sinto partida ao meio quando te quero por perto e ao mesmo tempo bem longe de mim, quando concluo que você é a pessoa que mais me fez mal e mais me fez bem, que eu mais amei e amo, que eu mais odiei e odeio...que eu confio cegamente sem acreditar em uma palavra do que você diz!

E me dividindo vou procurando me completar...em silêncio vou gritando.

Tipo aqueles pacientes que não sabem o que fazer quando encontram a cura e não precisam mais voltar ao hospital...tipo aqueles vilões que conseguem matar o herói e depois ficam sem ter o que fazer...tipo quem guardou dinheiro a vida toda pra viajar e uma semana antes de ir acabou infartando de tão feliz e morreu...tipo estudante que ralou a vida inteira pra tirar notas boas e depois que acaba a faculdade ficou sem emprego...tipo nadar e morrer na praia.

Um

Vazio

Sem

Fim.

E que de tão grande me preencheu.





Kamilatavares.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Dear...


Para Ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=da-ELYFRFpc


Hoje quando me deitei aconteceu algo mágico, como se duas dimensões se misturassem em uma só criando um espaço paralelo entre dois lugares que só é possível existir quando duas pessoas pensam uma na outra ao mesmo tempo, no mesmo milésimo de segundo. Eu vi o teto se dissolver e ondas azuis e amarelas flutuarem pelo ar, como se eu estivesse presa em uma fotografia antiga, em um filme queimado que dançava no ar...e o piano me acalmava.

Olhei pro lado vazio da cama e você entrou cansado...me fez cócegas e me abraçou antes de se deitar e arrumou o travesseiro pra descansar olhando pra mim...passou a ponta dos dedos no meu rosto e depois de um longo suspiro me contou sobre o seu dia.

Sabe, eu gosto de ver o mundo através dos seus olhos...essa bola gigante de poluição e trânsito ao som do Radiohead e cheio de fumaça de cigarro e coisas suas jogadas por todos os cantos me faz entender porque você gosta de ver o meu mundo de filmes e tardes na praia tocando violão, rede e café quente...então você se lembra do frio e da cachoeira, do vinho e das paredes azuis e se acalma...e para pra ver o céu e sentir o vento no seu rosto...e foge de madrugada pra escutar o barulho das ondas, e se desliga do mundo como eu costumo fazer. Sabe, eu gosto de ver o que você aprendeu com os dias e escutar sua voz enquanto lê...e aprecio os seus silêncios.

Então você dormiu, e de tão leve se dissipou na minha frente...e aquela poeira amarela me emocionou de forma que eu chorei e sorri ao mesmo tempo. Desde então eu lhe conto tudo em silêncio enquanto ando pelas ruas...e tiro fotografias mentais pra te mandar, canto baixinho aquela música enquanto espero o ônibus e sorrio pra criança na rua que eu sei que você acharia bonita...desde então eu te levo para todos os lugares comigo nesse samba da solidão acompanhada - e não me importo com olhares porque tudo é nostalgia, tudo de belo vive nessa dimensão paralela, nesse espectro de vida que se criou ao meu redor, e o que o mundo vê são versões menores do que sinto, porque a plenitude é difícil de se entender.

E então eu durmo...

Kamilatavares.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

House of cards.


Ele pôs a mão na minha coxa. Não apertou, não moveu os dedos...só pousou a mão na minha coxa enquanto a outra segurava o volante e seus olhos atentos apontavam em todas as direções da avenida movimentada...só pousou a mão na minha coxa esquerda dizendo em silêncio que estava ali...e eu senti.

Não entendo nada de partículas, moléculas, átomos e essas coisas todas, mas senti a minha pele formigar sob a sua mão que - ali mesmo, imóvel - dividia faíscas e uma energia que eu nunca senti na vida, mas era algo magnético porque me fez querer ficar sentada naquele carro pra sempre.

Enquanto isso o meu rosto sem expressão olhava pela janela...fechei os olhos e senti o vento entrar em todos os meus poros...poluindo minhas bochechas rosadas do sol com a fumaça dos caminhões e confundindo meus ouvidos que não distinguiam mais o som do vento, do rádio ou do motor do carro...e minha mão voava feito uma pipa na janela...dançava como uma de suas bailarinas, leve...leve...leve... E naquele momento eu senti cada célula do meu corpo se agitar e palpitar por um minuto a mais das mãos dele em mim quando ele precisou trocar a marcha pra parar no posto de gasolina e pedir uma informação; então meu corpo momentaneamente se desligou daquele coma agradável e eu voltei pra realidade.

- Vá até o fim da avenida e faça o retorno, tem um posto bem na esquina, pergunte lá e eles vão saber lhe informar.
- Muito obrigada!
- Nada, senhor! - Disse o frentista.

A voz dele mudava de acordo com a situação...pelo menos era isso que ele achava, mas eu sempre escutava uma nota infantil em suas palavras...não aquela infantilidade imatura, irresponsável - mas uma infantilidade leve, divertida, descontraída...sem querer eu sorria sempre que ele falava com os outros com um ar de adulto que não me convencia...ele alisou meu joelho, as faíscas voltaram a iluminar tudo em mim e eu beijei seu ombro direito e dei uma mordidinha antes de voltar a contemplar o dia indo embora pela janela. Meu celular tocou, não atendi.

- O que foi, bebê? - Perguntou.
- Nada
- Tem certeza? - Insistiu.
- Tenho sim...o dia foi cansativo, só isso! Preciso de um banho.
- É verdade! Agora você sabe o que eu enfrento todo dia...desculpa ter que te levar pra trabalhar comigo, eu de fato não podia faltar...queria levar você pra passear mas foi meio que de última hora.
- Não tem problema - disse com honestidade - eu adorei os seus amigos, foi muito divertido! Só não estou acostumada ao clima.
- Tamo já chegando em casa, cê toma um banho gostoso e eu cuido de você, tá bom? Faço cafuné, dou beijo, abraço...cê vai se sentir melhor...
- Claro - disse sorrindo - é exatamente o que eu preciso!
- Entãããão tá bom! Agora escuta essa música!

Escutei a música e escutei ele cantando junto, feliz, satisfeito enquanto brincava com o meu joelhos e as pontas dos meus dedos...e eu olhava satisfeita as expressões que ele fazia enquanto dirigia...gosto de olhar ele dirigindo, no controle da situação...e a voz dele que acabara de perguntar se eu estava bem ainda ecoava...ele tem outra voz pra me perguntar as coisas, mais doce...quase cantada, quase derretendo pra fora dele...e eu gosto de ouvir. Ele também tem a voz de explicar as coisas...mais rápida, invasiva, alta o bastante pra ele defender suas teorias e suas preferências...e eu gosto de ouvir essa voz também, porque evidencia o problema de dicção que ele tem e eu acho tão bonito.

Durante os silêncios eu lhe dizia mil coisas, e acho que ele escutou todas elas de alguma forma...e me confessou algumas outras mil coisas também. Mas eu não me importava com a sua falta de amor em certas horas, porque a gente soltava faíscas e por maior que fosse o meu sofrimento ele me mantinha segura, ele me salvou de mim mesma e eu o salvei dele mesmo, porque sempre fomos os nossos piores inimigos...sempre fomos vilões de nós mesmos, mas com ele por perto eu soltava faíscas de felicidade, sorrisos de boas vindas, lágrimas de amor e suspiros de tranquilidade.

Eu disse em silêncio que o amava, e que por isso iria machucá-lo - ele entendeu.
Eu disse em silêncio que não o amava mais, e que por isso iria deixá-lo - ele entendeu.
Eu disse em silêncio que o amaria pra sempre, e que por isso iria esperar - ele entendeu.
Eu disse em silêncio que o amava mais não acreditava mais nele, e que por isso iria odiá-lo - ele entendeu.
Eu disse em silêncio que sempre iria acreditar nele, e que a gente ia ser feliz - ele entendeu.
Eu disse em silêncio que tudo daria errado, mas que no fim daria certo - ele entendeu.

Ele sempre me entendeu, não por entender tudo que eu dizia, mas por entender que eu sempre dizia alguma coisa...que essa alguma coisa sempre era diferente e que mais cedo ou mais tarde mudaria, mas eu continuaria lá porque eu nunca pretendi partir...ele sempre me entendeu e eu sempre o conheci. E meu mal é conhecer cada centímetro dele...ver a beleza que ele não via em sí...meu mal foi sempre contar tudo...meu mal foi deixar ele me entender...foi por ele ser entendida.

E o mal dele foi entrar sem saber se queria ficar ou sair, foi vender indecisão com o rótulo da certeza e mentir pra si, sabendo que eu o conhecia...não de hoje, não de ontem...de outras vidas.

Ele falava sobre filmes - pelo que me lembro - e gesticulava bastante...olhei bem o rosto dele e permaneci calada e sorrindo em concordância com tudo que ele dizia...observei suas linhas de expressão, seu cabelo milimetricamente bagunçado, seus olhos castanhos e seus ombros bem desenhados, até que ele parou de falar julgando ser aquele um assunto muito chato - discordei de imediato e pedi pra ele continuar. Naquelas horas eu brincava com o tempo enquanto alguma música suave tocava e eu via tudo se movendo devagar...e seu raciocínio se alongava por horas enquanto eu assistia ele todo articulado...e os seus olhos castanhos.

Eu não me lembro mais o cheiro que tinha, mas me lembro da fumaça do cigarro no escuro e todas as cores do dia, e todas as vozes, todos os toques e todas as brigas. Me lembro de todas as músicas e da chuva no meu rosto...do abraço desesperado, do sono...dos olhos castanhos e dos erros meus...me lembro da mão invisível puxando meu coração pra fora todos os dias e me arrancando lágrimas e pensamentos de vingança que nunca consegui concluir...me lembro das faíscas e da mão dele pousando em minha coxa...e não importa quanto tempo passe, eu me lembro.


Kamilatavares.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Ode ao amor

Hoje eu descobri que dói muito mais não amar ninguém do que amar e não ser amado de volta. Hoje eu descobri que se eu tivesse tatuado o seu nome na minha testa, por pior que as coisas tenham se tornado eu não me arrependeria, como não me arrependo das outras coisas menos drásticas porém tão loucas quanto.

Quando a gente se decepciona com alguém, fica desejando o coração vazio e gelado feito um iceberg...fica desejando a amargura de um mundo cinza...fica desejando uma vida inteira sem confiar em ninguém...uma vida de solidão! Pra substituir o que? O vazio de saber que o que você tinha de bom acabou? Será que é mesmo vantagem negar ao coração o direito de sofrer? Ora veja bem, o mundo nunca foi justo...e cada pessoa é um mundo...faça as contas! Encontrar o amor da vida é tarefa difícil, requer sacrifícios, paciência e algumas cicatrizes acabam por aparecer normalmente. Pois eu prefiro os acidentes do caminho a ter que viver sem amor.

Terminar com alguém no final não é o único objetivo, não é o único prêmio! A gente acaba se esquecendo do que acontece no meio do caminho. Pois se não fosse por você eu não teria tantas músicas, não escreveria tantos textos e nem encontraria sentido naquele filme que me fez chorar tanto.

Lembre-se de dar uma volta na rua e você vai ver alguma coisa que lembra alguém que você gostou muito...ou ainda gosta! Um cheiro, um lugar, uma música, alguém com o mesmo problema de dicção, a cor do cabelo, dos olhos, o jeito de andar...lembre e tente não pensar nisso com amargura, tente lembrar com um sorriso e você vai ver que muito do que você é hoje é fruto de coisas que você aprendeu com as pessoas que amou; que elas foram importantíssimas no seu crescimento.

Sem amor - seja ele correspondido ou não - a vida ia passar como um rio...e você ficaria lá como uma pedra...então de que lhe serve a amargura?

Eu menti pra lhe afastar e sofri...e aconteceu muita coisa. Mas eu nunca vou escutar uma música do mesmo jeito...eu nunca vou deixar de prestar atenção na risada das pessoas nem no jeito com que elas pegam no cabelo; eu nunca vou esquecer como é se sentir um imã naquele abraço inesperado ou do meu cabelo bagunçado...eu nunca vou esquecer do borboletário no estômago e o coração acelerado...nunca vou esquecer como é imaginar os nossos filhos e como é me deitar toda noite sabendo que eu vou ter o mesmo sonho com cheiro de almoço feito por mim pra tirar o avental e te dar um abraço na hora que você chegasse do trabalho...porque eu nunca quero viver de amargura...porque é melhor sofrer do que viver sem amor.


Kamilatavares

sábado, 18 de janeiro de 2014

A little walk

Da janela do meu quarto
as paredes coloridas e o som da geração do energético exibindo suas linhas fluorescentes, e as fotos, e a praia, e o sol, e os pés, e os biquinis, e a falta de protetor solar e de juízo. 

Nas calçadas as garrafas de cervejas de noites passadas, os mendigos e as moças com seus saltos na mão e suas cabeças baixas escondendo a maquiagem borrada, e a sujeira da ressaca.

Nos ouvidos os fones e alguma música tranquila que ative o slow motion da minha caminhada e me permita observar tudo ao redor, e chinelos confortáveis, cabelos soltos e um sorriso leve.

Na sombra da árvore um cachorro descansa...e me sorri de volta.


Kamilatavares.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Plataforma 17

Eu estava no carro e chovia...chegamos em casa e eu sentia que ele iria iniciar mais uma conversa pra justificar a distância - e assim o fez. Naquele dia ele me confessou que estava namorando...há meses! Naquele dia eu tive a primeira grande crise de choro na frente de alguém que eu havia acabado de perder...ele me consolou - jurei nunca mais escrever sobre ele, jurei nunca mais chorar na frente dele, jurei nunca mais chorar pelas minhas tragédias reais na frente de ninguém - e assim o fiz...ou quase.
Eu estava sentada na minha cama segurando o computador e processando a conversa que eu havia tido. Naquele dia ele me disse muitas coisas, inclusive que me amava...inclusive que queria ficar só...e eu que havia passado quase um ano chorando apenas com os meus filmes, ou ali meio que escondidinho antes de dormir, sem ninguém escutar - caí em prantos e tive a fraqueza de ligar pra minha melhor amiga, que ouviu os meus soluços e dividiu parte do desespero comigo.
Eu estava longe de casa, sozinha fazendo coisas banais...achei uma carta que não deveria ler - mas li. E essa foi a maior crise de choro da minha vida...e liguei pra um amigo que me fez jurar que eu nunca mais olharia na cara dele que tanto me fez sofrer e buscaria a minha paz...dois dias depois eu o vi - e estava na varanda quando começamos a conversar...não me lembro de muita coisa por causa do álcool...mas me senti naquele dia do carro, chorando por um amor que já morreu ou nem mesmo existiu e sendo consolada por quem causou o furacão.
Eu estava na varanda e ouvi ele dizer que tudo ia dar certo...eu estava na varanda e senti sua mão enxugar minhas lágrimas...eu estava na varanda e fiquei só, e na varanda eu prometi não chorar mais por ele.
Voltei pra casa escutando o silêncio do adeus que não foi dito e agradecendo pelos amigos que fiz no meio do caminho...esqueci de tirar todas as fotos...esqueci de (quase) todos os abraços de despedida, esqueci de escrever no diário de bordo, esqueci meu shampoo, minhas sandálias roxas, um prendedor de cabelo e outros tantos pedaços de mim.
Quando uma guerra acaba os rastros dela ficam pra trás...nunca é o fim de fato porque leva tempo pra reconstruir as cidades, refazer tudo, procurar as famílias que se perderam, enterrar os entes queridos e enxugar as lágrimas e as manchas de sangue que ficam nos que sobreviveram...e vivemos guerras internas contra nós mesmos...morremos e sobrevivemos, prometemos e descumprimos, choramos e nos reconstruímos ao longo dos dias...nos escondemos em trincheiras e depois saímos em desfile cantando vitória, mas na vida não se vence, só se vive...porque vencer significa a derrota de alguém, mas na vida sozinho ninguém comemora...e naquele dia eu assinei o meu tratado de paz!


Kamilatavares.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Carta ao seu novo amor.

Ouvi dizer que você está apaixonado e concluí que talvez (com certeza) seja por isso que você sumiu de vez dos meus dias. Chorei por não ser a pessoa certa mais uma vez, chorei por ter que deixar você ir de vez, chorei por todas as brigas que eu poderia ter evitado, por todas as loucuras que não fiz, por todos os sacrifícios que evitei e pelo futuro que se escureceu diante dos meus olhos...quis morrer, mas preferi me sentir feliz por você, preferi ser aquela pessoa nobre que deseja a felicidade de quem ama mais que a sua própria felicidade...decidi torcer pra que dê certo, pra que dessa vez você faça diferente...e farei diferente dessa vez também, e eis a minha última declaração de amor...pra que ela entenda o presente que a vida lhe deu, hoje escrevo uma carta direcionada ao seu novo amor.

Campina Grande, 23 de Dezembro de 2013.

Há exatamente um ano, era Dezembro que ele começava a se fazer presente diariamente na minha vida agitada...fiquei tão confusa, tão assustada e tão feliz de encontrar alguém tão parecido comigo independente das circunstâncias, ter alguém que entendia todos os meus medos, minhas manias e minhas preferências e gostos específicos pra tudo era um alívio...uma mensagem do mundo me dizendo que sozinha nesse mundo eu não ficaria mais, porque mesmo longe, alguém me entendia...falava a minha língua. Imagino que você deve ter se sentido da mesma forma...embora eu te imagine como alguém bem diferente de mim...talvez tenha longos cabelos castanhos, rosto delicado e voz sempre baixa...talvez goste das melhores que tocam na rádio e uma dose de MPB aos sábados de tarde...talvez compartilhe o gosto pelos Arctic Monkeys ou quem sabe até pelo Pink Floyd, e se lembre dele dos tempos em que eu ainda não existia...e tenha um cheiro que faça ele se sentir bem. Ouvi dizer que ele se apaixonou por você, e vim te pedir pra não dormir de costas pra ele...ele não gosta! Vai querer adormecer olhando nos seus olhos ou sentir você descansando no peito dele enquanto ele enrola os seus cabelos, que ele vai sempre elogiar e querer vê-los soltos.
Vim te pedir que - por favor - tenha paciência quando ele falar das coisas que ele gosta, por mais que você não goste...escute! Ele acha que poucas pessoas no mundo o compreendem tal qual ele é, e vai querer que você o compreenda mais que qualquer outra pessoa...e pra isso irá passar horas citando as cenas de seus filmes preferidos, as músicas que ele escuta quando está feliz, quando está triste, quando quer dirigir sem rumo e fugir do mundo...suas bandas preferidas e a mania que ele tem de colocar molho shoyu em quase tudo que come. Ele vai querer que você entenda o passado dele, porque ele de vez em quando fica triste sem motivo nenhum...e você vai ter que guardar os segredos dele...vai precisar ser o porto seguro, a rocha...porque ele vai cair no meio do caminho...mas você precisa estar lá!
Quando ele sumir - e ele vai - por favor tenha a paciência que eu não tive...ele precisa de espaço de vez em quando, e eu demorei um bom tempo pra entender isso, mas ele se reserva pra não maltratar ninguém...ele se reserva pra pensar na vida...embora os pensamentos em sua maioria não sejam muito felizes...mas ele precisa desse tempo, desse espaço, mas não se preocupe, ele sempre volta com um humor melhor.
Você pode contar com ele sempre que precisar...ele não vai se aproveitar de suas fraquezas e por mais que você erre ele não vai descontar em você, e por mais que um dia ele se chateie com você ele não vai explodir...não vai descontar nada em você e vai pedir pra você relaxar...quando ele pedir pra você relaxar, saiba que ele não gostou...saiba que ele está triste...tente compensar, tente fazer o certo, tente ser um pouquinho melhor.
Se ele te fizer chorar, sempre explique a ele o motivo, ele vai te pedir desculpas e tentar se redimir...se você não falar ele nunca vai notar...a distração dele é maior que muita coisa, acredite.
Se ele disser que te ama, só ame ele de volta se for verdade...seja o melhor pra ele mas antes de tudo seja o melhor pra você...não minta pra você nunca.
Não deixe ele esperando no shopping, ele não gosta. Não coloque ervilha na macarronada, ele não gosta. Se brigarem, não insista em dizer que não foi nada, ele não gosta. Nunca pause uma música do Radiohead ou do Pink Floyd na frente dele ou muito menos fale mal de uma das duas bandas na frente dele, ele não gosta.
Faça massagens nele, alugue um filme do Tarantino, compre sempre Heineken, sorria, não esconda suas manias estranhas de infância, use Justin Timberlake pra quebrar o gelo, incentive a criatividade dele...ele vai te dizer que não tem talento pra nada - discorde, ele é talentoso em vários aspéctos e você vai descobrir isso com o tempo.
Quando ele escrever algo errado - corrija. Ele não gosta mas é pro bem dele. Diga sempre o que ele precisa ouvir, e não o que ele quer ouvir...pode doer na hora, mas ele vai sempre entender.
Compartilhe suas preferências, conte besteiras como a sua cor preferida, sempre argumente de forma inteligente.
E por fim, compartilho os dois melhores segredos que guardo sobre ele, na tentativa de que você faça o que eu não consegui fazer - Acorde um pouquinho mais cedo se puder pra ver o Sol das 6 da manhã incomodando o sono dele, e preste atenção em como ele dorme sorrindo e como o Sol do começo do dia deixa a pele dele mais bonita...e por fim, dê uma mordidinha no ombro dele enquanto ele estiver dirigindo meio desatento...o ombro direito dele tem gosto de Marshmallow - não diga a ninguém que eu lhe contei isso, são tesouros que compatilho só com você.
Sua nuca vai arrepiar quando ele segurar na sua perna enquanto dirige ao som da Gal Costa, seu coração vai esquentar quando você contar algo engraçado e ele colocar a mão na boca pra rir, suas costas vão relaxar com a dormência da massagem dele, seus olhos vão se encher d'água quando ele chorar, seus cabelos vão se emaranhar nos dedos dele e sua boca vai ficar seca...mas ele vai buscar água sempre que você pedir.
Sobre as coisas ruins eu não vou falar, todo mundo deve ter o privilégio de começar do zero deixando pra trás o que fez de errado...só lhe peço que cuide dele...porque eu não posso mais cuidar. E se ele te fizer sofrer, escreva suas notas de rodapé e encaminhe a carta para a próxima que vier, até que um dia ele encontre a felicidade que merece e a paz que tanto procura.

Desejo-lhe boa sorte, um abraço!

Aquela que não é mais.

sábado, 21 de dezembro de 2013

If I die Young.

De vez em quando, sem nenhuma razão aparente o mundo parece girar em slow motion e tudo fica assustadoramente lento ao seu redor...seus passos diminuem, a respiração se torna preguiçosa e tudo parece melancolicamente poético. Nessas horas nada de bom se passa pela sua cabeça...você pensa no fim, na morte, em suicídio, nas coisas inacabadas, em tudo que você acha que fez de errado e nos seus arrependimentos. A oficina do diabo começa a funcionar.
Você pensa no que poderia acontecer se você simplesmente sumisse de forma repentina, e se senta em algum lugar calmo perto de uma árvore, esperando ser atingido por um raio, um meteoro, uma abdução alienígena, um ônibus que perdeu o controle, um infarto fulminante ou uma bala perdida enquanto se pergunta se os seus amigos chorariam por você, sentiriam sua falta ou quanto tempo levaria para todo mundo esquecer e seguir em frente.
O que você deixaria pra trás? O que levaria com você? Qual ato memorável seria relembrado? Qual seria o seu legado? Quem seriam seus herdeiros? O que resta como prova de que você honrou o privilégio da vida que teve? Quais os desperdícios e arrependimentos? O que seria motivo de orgulho? Quem descobriria aquele segredo que você guardou tão bem guardado?
E o mundo pausa, seus olhos se fecham e você sente o universo entrar pelos seus poros nos raios de sol, gotas de chuva, no vento, na fumaça dos carros e barulho das sirenes...no choro da criança e no latido do cachorro...e de repente tudo se separa e se torna um só...e de repente tudo é paz e agonia.

Kamilatavares.

sábado, 14 de dezembro de 2013

O fim!

Campina Grande, 8 de novembro de 2012

Hoje eu me cansei.
Na verdade o cansaço bateu não foi de hoje...mas eu tentava esconder, disfarçar, maquiar com sorrisos e aquelas velhas histórias tão divertidas pra quem não me conhece.
Eu vinha tentando manter você vivo aqui dentro, aquela parte de você tão boa que me fez ficar...mas a missão foi ficando difícil a cada dia, a cada raiva, cada mentira, cada desculpa esfarrapada, cada vez que eu me senti uma otária e tive que escutar e ver todo mundo apontando o meu papel de boba enquanto eu tentava dizer que valia a pena...mas não vale não!
Até quando você vai fazer isso? Quem é a próxima a te dar atenção e cuidados 24h por dia? Porque eu não fui a primeira...
Mas hoje eu decidi, depois de tantas tentativas, de fato acabar com isso. E juro que se eu pudesse deletaria tudo que nos ligasse e viveria no brilho eterno da minha mente sem lembranças, pedindo aos deuses pra não topar com você na rua e te conhecer mais uma vez, pro meu cérebro não entrar em pane!
Mas já que eu não posso...então vou me lembrar! Lembrar de cada mentira, cada palavra grosseira, cada olhar falso, cada atuação...vou me lembrar de todas as vezes que eu me senti indigna, que eu achei que não estava à altura, de cada hora que eu me senti deslocada, de cada  sapo que eu tive que engolir, de cada oportunidade que eu perdi...cada noite em claro...cada briga com os meus amigos que me viam cada vez menos.
Eu vou te visitar no domingo, pela última vez...vou escutar você dizer que me ama...e dizer 'eu também' pela última vez...e mais uma vez você vai me perguntar o que aconteceu, e porque eu ando tão calada; e de uma vez por todas eu vou dizer tudo o que eu tenho pra dizer, mais uma vez...mas desta vez você não vai me emprestar o seu casaco e me consolar como se a causa do meu choro não fosse você. Desta vez você não vai me deixar em casa e me tratar bem por uma semana até eu me acalmar e voltar a confiar em você outra vez esperando a próxima facada. Desta vez eu não vou aceitar aquela cerveja gelada como pedido de desculpas...
Você foi esperto, me fez achar que tudo o que eu fazia por você era, na verdade, bom pra mim! Olha só o menino perfeito esperando o seu café com torradas, e a honra de levar é minha. Você me fez achar que ser só sua era uma honra pra mim, enquanto me fazia de besta...dá pra sentir o cheiro de pena sabia?
Te dei tudo sem esperar que você me desse tudo em troca...é bonito não é?! E o que você fez com isso? Pois é...
Eu espero que o nervosismo não me consuma, muito menos as lágrimas, e que eu consiga pontuar todas as razões pelas quais eu vou te deixar...eu espero que você lembre de todas...eu te conheço o suficiente pra não ser burra de ir embora sem mais nem menos...eu sei todos os argumentos que você usa pra culpar os outros dos seus defeitos. Não quero ouvir você dizer que eu sou louca...quero que você se dê conta do que fez.
Esta carta serve em caso de apagão, de fraqueza...eu sei que vou chorar e abraçar você...te perdoar e dizer que eu passo ai na terça pra te levar aquela receita nova que eu aprendi...mas eu não posso! Não posso mais voltar atrás!


Kamilatavares.


Quando você vai revirar os documentos e encontra aqueeela velharia dramática.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Igor (Fragmento).

 Uma vez eu vi em um filme que a gente sabe que está dentro de um sonho quando não consegue lembrar como foi parar ali...quando não tem lembrança alguma de quando tudo começou. Pois bem, eu não me lembro!
 Não consigo lhe dizer o que foi sonho e o que foi realidade, não consigo me lembrar como fui parar ali, não consigo contar quantas vezes eu a conheci e nem quantas vezes eu a vi partir...simplesmente tudo se misturou em uma confusão de sentimentos, sonhos, delírios, ilusões e outras tantas coisas que eu também não conseguiria descrever. Contudo, minha história será contada e vocês saberão como eu acabei me enterrando dentro de mim e passeando pelas minhas entranhas até me consumir por completo nessa doença que se tornou parte do que eu sou. Me perdi no emaranhado de situações e na teia de estórias que lhes serão contadas...e ainda não consegui encontrar a saída.
 Era manhã...era tarde...era noite...era madrugada. Eu estava lá, ela estava linda. Nos conhecemos - outra vez.
 Perguntei o seu nome, e disse o meu mais uma vez.
 - Muito prazer, me chamo Igor.

Kamilatavares.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Delirium.

Eu não sei todas as respostas do mundo. Eu não tenho justificativas. Minhas atitudes extremas não precisam de uma gota d'água. Meu desequilíbrio não precisou de um trauma. Meu amor não requer sujeito. Minha dor não precisa ser afogada.
Ele criou o mundo que precisava pra manter nossa união aquecida com o Sol que descansava todas as tardes na nossa janela...ele regou os sonhos que alimentavam os domingos preguiçosos na varanda...ele construiu anos de música, prosa e verso sobre os meus vestidos. Os incensos e balões de Hélio brincavam na sala cheia de DVD's e os sapatos se misturavam debaixo da cama, junto do lençól que derrubamos e do enfeite do meu cabelo. As escovas de dente se abraçavam olhando a toalha dividida entre as roupas sujas no chão e o sabonete. Os copos sujos de vinho conversavam sobre a noite passada com o cinzeiro cheio de histórias e cigarros mortos com e sem marcas de batom. E a sobremesa esperava...e a tristeza ficava pro outro dia...e a realidade era remarcada pra semana que vem...e o perigo das ruas era mantido em segredo dentro da TV desligada.
Quis sair pra ver o mundo, me assustei.
Lá fora a coisa é outra...lá eu preciso sobreviver...lá eu tenho pesadelos e acordo sem abraços...mas é lá que eu vivo agora...e as buzinas e os semáforos e as ambulâncias e os documentos e o despertador e o prazo final...e a realidade.
Vou passar lá pra pegar algumas roupas...e o cheiro de lavanda que deixou o meu pescoço. Vou passar lá pela nostalgia...pelo piso de madeira que range quando eu ando na ponta do pé de madrugada...pela maçaneta que emperra...pela torneira com vazamento...pelo meu filme preferido que ficou empoeirado na estante...pela minha luminária verde...pela dose do mundo dele que eu quero na minha realidade mesmo depois de ter ido embora.
Pra dizer Adeus...


Deb.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Efêmero.

Ele tinha mania de puxar os cabelos atrás da orelha quando assistia filmes, ou quando ficava nervoso com alguma coisa, de modo que o seu cabelo liso sempre tinha um pedacinho mais bagunçado. Eu dava tapinhas em suas mãos pra ele parar de puxar os cabelos, e ele se encostava em mim pedindo cafuné. Eu levava ele ao cabeleireiro pra cortar a parte bagunçada do cabelo, que toda vez crescia e voltava a ficar bagunçado outra vez.

Eu tinha mania de dobrar os guardanapos em formas triangulares quando a gente saia pra jantar fora e eu não sabia o que dizer, sobre o que conversar ou quando eu ficava nervosa...na verdade ainda tenho essa mania mesmo não saindo mais pra jantar com ele. Ele dava tapinhas nas minhas mãos pra eu parar, amassava o guardanapo e jogava de volta pra mim enquanto ria e arranjava alguma distração pra me fazer parar.

Um dia fomos tomar café, meu dia havia sido péssimo e eu enrolei uma mecha do meu cabelo até ele ficar todo bagunçado. Ele pegou um guardanapo...dobrou em formas triangulares e me deu.

- Pra te acalmar.

Sorri pra ele.

Hoje eu não sei como estão os seus cabelos e ele não sabe quantos guardanapos eu dobrei...e me lembrei de todos os tapinhas nas mãos enquanto arrumava a minha bolsa e encontrei o guardanapo triangular manchado de café.

Hoje quase tudo evaporou...
Hoje os castelos caíram...
Hoje eu não sei mais.


Kamilatavares.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Time and pain.

Fechei os olhos...minha cabeça explode de meia em meia hora, entro em pequenos colapsos passageiros...e minhas costas doem. Pessoas perguntam se eu acabei de acordar, ou se eu tive um dia exaustivo...não fiz nada durante aquele dia inteiro e mesmo assim o cansaço me pesava.
Ele escapou da morte, mas ela está sendo encurralada...já não tem mais a mesma voz, já não acorda mais com a mesma disposição, já não dorme mais tão tranquilamente. Eu vi as suas rugas, o seu suspiro no fim da tarde de quem espera a hora de partir.
Somos tão velhos, somos tão jovens...
Eles fogem da morte...se escondem debaixo da cama, atrás da porta, trancados no quarto! E nós saímos todas as noites buscando o suicídio.
Um dia a hora chega, enquanto isso o ponteiro vai nos arrastando e eu acabei descobrindo que é por causa do barulho do relógio que a minha cabeça dói.


Kamilatavares.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O dia em que eu senti paz.



Para ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=aAXRKPGKXWs e http://www.youtube.com/watch?v=cdiY6kijYHE

No dia em que eu senti paz eu chorei, porque não sabia o que era aquilo bom dentro de mim, me fazendo lembrar que eu também tinha coisas boas depois daquilo tudo...
No dia em que eu senti paz os meus ouvidos doeram ao som de The Tourist, que nunca tinha feito sentido pra mim ate então, e naquela hora eu soube que ali se acalmavam todos os ruídos fortes do meu coração...
No dia em que eu senti paz fazia calor, mas o vento soprou nos meus cabelos curtos e eu sabia que algo de novo ia chegar, e no meio do choro eu sorri esperançosa...
No dia em que eu senti paz a grama estava verde, o céu estava azul e os tijolos do castelo estavam vermelhos e cheios de histórias que até hoje, por mais que eu tenha voltado lá quinhentas vezes, não consegui contar...
No dia em que eu senti paz eu estava sozinha, inerte, esperando Deus sabe o que...e hoje eu continuo assim...
No dia em que eu senti paz eu mudei, e foi a única mudança que eu quis guardar só pra mim, e senti o gosto do egoísmo de não querer dividir aquela paz com mais ninguém...
No dia em que eu senti paz eu repousei minhas mãos e silenciei, pois o meu exagero já não era mais conveniente naquele lugar...
No dia em que eu senti paz eu fechei os olhos e senti o universo inteiro transitando pelos meus poros junto com as gotículas de água que o vento trazia do lago e da pequena represa...
No dia em que eu senti paz soprei aos ventos o último trago da minha guerra interna, e o Sol se pôs atrás de mim...
No dia em que eu senti paz eu parei o tempo e andei por entre as estátuas dos meus amigos que se misturavam com as armaduras, espadas e esculturas. Demorei cerca de um mês naquela música e pude olhar nos olhos de cada um sem precisar me envergonhar disso...porque sim, eu tenho medo dos olhos das outras pessoas entrando nos meus...mas no dia em que eu senti paz, eu não senti medo...de nada.
No dia em que eu senti paz, a paz me sentiu também...e foi embora.


Kamilatavares.


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Weird Fishes - IGOR

Era a primeira semana de verão e os casacos deram lugar aos vestidos, saias e tardes na piscina, e ela que nunca foi muito litorânea, resolveu dar uma volta pela orla e aproveitar o fim da tarde, sua hora preferida do dia. Era dia de semana e a calçada da orla estava quase vazia, do jeito que ela gostava...porque dá pra andar rápido e ao mesmo tempo parar pra observar de uma perspectiva mais livre.
Os carros passavam na avenida cheios de pessoas voltando para casa, buzinas nos semáforos, engarrafamentos...ela odiava aquele trânsito, e por isso resolveu esperar até o anoitecer pra poder dirigir de volta pra casa; estranho ter que dirigir, não se lembrava quando tinha começado, mas sabia que não era a melhor das motoristas, só não lembrava quem havia ensinado ela a andar pela cidade...e por falar em cidade, ela começava a gostar cada vez mais dali, não sabia porque...na verdade ela não sabia de muitas coisas...era como se alguma parte da sua memória estivesse apagada, e ela fosse tentando se lembrar aos poucos enquanto andava pela orla sem rumo, procurando algo que não sabia o que era, e enquanto ocupava as duas mãos segurando o copo de suco, o seu chapéu voou.

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Era a primeira semana de verão e ele odiava a ideia de que o calor ia começar a invadir as noites e aquele último cigarro do dia não teria mais o abraço do vento frio que vinha lhe visitar todas as noites na sua varanda. Estava cansado, porém tranquilo. Depois de uns meses de adaptação ele resolveu que pacientemente esperaria por ela, mas não a procuraria mais...não iria forçar a barra e tentar adiantar o tempo e estragar tudo mais uma vez, enquanto isso buscava se reconstituir e recuperar o controle de si. A gagueira havia diminuído bastante depois que ele foi deixando o nervosismo de lado, a quantidade de cigarros fora reduzida pela metade e - acredite - as camisas no armário dele estavam todas guardadas em cores aleatórias, e os vinis estavam bagunçados e alguns até fora dos encartes.
Ele gostava de dirigir sozinho escutando aquele CD quase todos os dias no horário em que deveria buscar ela na faculdade...ele gostava de manter certos hábitos, mas naquela primeira semana de verão resolveu mudar a rota e andar pela orla, ver as pessoas passeando com seus cachorros, as crianças correndo, as bicicletas...
Desceu do carro e colocou os fones de ouvido, Gal.
Colocou os fones de ouvido e foi pra orla...andar.

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Chapéu, óculos escuros vestido solto, pés descalços, chinela e copo de suco nas mãos...andava e sorria, procurava mas não sabia o que.
Cabelo ao vento, óculos escuros, camiseta jogada no obro, bermuda xadrez, pés descalços, chinela nas mãos, fone no ouvido...andava e sorria, esperava a hora, mas não sabia quando chegaria.

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Existem momentos no universo em que alguns planetas se alinham, algumas estrelas brilham mais e algumas explosões acontecem, deixando tudo mais bonito; as luas saem pra dançar e os astrólogos sentem arrepios e escrevem coisas sobre os nossos signos. Eclipses acontecem, crianças nascem, pessoas se conhecem, o dia vira noite, e a vida dá certo e segue como um barco que foi presenteado com um sopro de sorte pra seguir viagem...e em um desses sopros o chapéu dela voou.

- Moça...moça...MOÇA!
- Oi? Desculpe eu não estava ouvindo
- O seu chapéu caiu.

Era ela...era ele. Os olhos dele saltaram de susto por não ter percebido ela passando ao seu lado...quase gaguejou, mas agora está mais controlado...os olhos dela brilharam e ela sorriu aliviada, quase perdera o seu chapéu preferido, olhou pra ele e sentiu aquela familiaridade forte feito abraço de mãe, não entendeu o porquê, mas não contestou tal felicidade tomando conta de si.

- Ai meu Deus...MUITO OBRIGADA, eu sou meio estabanada e quase perdi o meu chapéu preferido, obrigada mesmo.
- É um belo chapéu, não deixe ele voar por aí.
- Obrigada, de verdade! São os ventos novos que andam meio rebeldes
- É verdade - concordou com um sorriso - me desculpe...qual é o seu nome?
- Ah, Bianca, muito prazer! - disse estendendo a mão ao estranho - E o seu?
- Igor!






terça-feira, 17 de setembro de 2013

IGOR. (Fragmento aleatório)

Ele chegou exatamente um minuto antes da hora em que a consulta estava marcada; 3:14 da tarde naquele minuto que durou meia hora, porque o médico atrasou. Era sua primeira vez em um consultório psicológico...o departamento da universidade meio que obrigou ele a ir, temendo que a situação piorasse e alguma medida drástica tivesse que ser tomada.
Enquanto esperava organizou as revistas da mesa de centro e separou por cores uns legos que estavam no canto da sala de espera, provavelmente para entreter as crianças; a secretária observava curiosa enquanto atendia telefones e anotava recados, apesar de estar acostumada com certas situações, nunca vira nada tão exagerado.

- Igor Tavares?
- Sou eu!
- O senhor é o próximo, pode entrar...o doutor está lhe esperando.
- Ok.

Igor entra e observa a sala progurando algum rastro de desorganização que seja, se senta, e antes que comece o seu ritual de limpar as mãos com álcool em gel, é interrompido pela voz calma do doutor.

- Boa tarde, Igor.
- Boa tarde!
- Suponho que essa seja sua primeira vez...o que te trouxe aqui?
- O reitor!
- Hmm, posso ver o porquê - disse observando o cuidado que Igor tinha com as mãos.
- O que eu tenho que tomar?
- Agora? ... Agora a única coisa que você precisa tomar é coragem pra conversar comigo. Sem diálogo não vamos chegar a lugar algum.
- Ou a gente pode pular pra parte em que você diz logo o que eu tenho, me dá alguma coisa pra tomar e poupa o meu tempo de falar sobre problemas que você nem se importa e escuta só pra ganhar dinheiro.
- Mas não é você quem está pagando, e outra...eu não sou psiquiatra, não posso te receitar nada...minha função é ouvir você!
- E se eu não quiser falar?
- Coloco no meu relatório a conclusão das horas de silêncio.
- hmm
- E então?!
- É que eu ando meio...digamos que meio nervoso. Eu tenho TOC, acho que o senhor já percebeu isso...nunca foi novidade pra mim, sempre lidei com isso de uma forma que não prejudicasse ninguém...mas veja bem, eu sou professor e...digamos que eu ando tendo uns problemas em interagir com as pessoas.
- Desde quando esses problemas começaram?
- Na verdade eu sempre os tive, mas sabia me controlar...piorou de um ano pra cá!
- E o que aconteceu de um ano pra cá?
- Aconteceu que...que...
- Oi? Igor...Igor...acorde!!! Você tá bem? - Disse o doutor tentando reanimar Igor.
- Hã? oi...eu...eu...
- Calma, beba um pouco de água...você desmaiou do nada, o que houve?
- Eu não consigo falar...desculpe - Disse aos prantos.
- Tudo bem, a gente pode continuar depois.
- Você não entende...eles querem que eu pare de procurar por ela, eu não posso, EU NÃO POSSO! Minha vida era perfeita, meus problemas eram controláveis, eu me sentia bem...eu não consigo mais viver assim!
- Assim como? Se acalme, por favor!
- Foda-se, vou fazer tudo do meu jeito.
- Se acalme, por favor! O senhor não está em condições de se exaltar e muito menos de tomar decisões!
- Muito obrigada, doutor, mas eu não preciso mais do senhor! Coloque o que quiser no seu relatório, eu não me importo...vou embora!


                                                  ***

- Doutor, algum problema? O paciente saiu daqui correndo aos prantos, o senhor está bem?
- Estou bem sim, obrigada...vou só beber uma água pra me acalmar e pode mandar o próximo entrar.
- O que houve com ele?
- Algo que eu não sei responder...muito menos resolver.
- O que será que vão fazer com ele?
- A pergunta é: O que ELE vai fazer consigo mesmo? Esse é o medo...


                                                  ***




quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Mas.

Eu durmo - mas não gosto de acordar;
Eu como - mas não gosto de engordar; 
Eu bebo - mas não gosto de me embriagar;
Eu perdoo - mas de vez em quando penso em me vingar/
Eu amo - mas não gosto da dor de amar;
Eu me calo - mas quero gritar;
Eu gosto do frio - mas a chuva me faz gripar;
Eu choro - mas prefiro negar;
Eu leio - mas prefiro cantar;
Eu vivo - mas sei que um dia a morte vem me buscar;
Eu saio - mas prefiro me trancar;
Eu digo que sou realista - mas na realidade eu prefiro é sonhar!

Kamilatavares.


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Fake Plastic Trees


Hoje fez Sol, aproveitei pra lavar roupa. Quando o frio se instala por aqui no inverno e acaba prolongando a estadia por mais uns dias é inevitável ver suas roupas todas mofarem...mas hoje fez Sol, e daqui da janela eu vejo a roupa estendida no varal. Eu gosto de passar pelo quintal e sentir o cheiro da roupa limpa secando...
Um dia eu vou morar só, em outra cidade...ou até na mesma cidade, ou quem sabe com outra pessoa; e quando esse dia chegar e começar a chover eu vou sentir falta da voz da minha mãe me mandando correr pra tirar a roupa do varal antes que molhe tudo...vou sentir falta de muitas coisas. A mamãe há tempos já foi dormir...um sono pesado pelo visto, ainda não ouvi ela abrindo a porta pra ir na cozinha beber água. Gosto quando ela dorme assim...pesado, despreocupada. Veja bem, hoje é sexta e eu estou em casa, se eu tivesse saído ela provavelmente estaria acordada se preocupando comigo, imaginando aonde eu estaria uma hora dessas...mas eu não saio mais...isso eu devo ao Igor, apesar de tudo ele foi quem mais me ajudou a mudar...pra melhor. Não fosse pelos tempos em que eu troquei a mesa do bar pelas madrugadas conversando com ele, acho que agora eu provavelmente estaria na infinita dose de Vodka ou na lata de cerveja de número um milhão, tossindo meu último cigarro e com frio, escutando uma música qualquer e falando com pessoas que eu na verdade nunca converso mais que um "IAEEEE BELEZA? TOU BEM SIIIM BRÓDER E VOCÊ? POIS BÓ BEBER..." e só.
Dizem que hoje eu ando mais triste...mais solitária...mas parando pra pensar eu sempre fui, só que eu fingia. Mentia pra mim mesma...tão feio isso. Hoje não mais, hoje fez Sol. Se eu estou triste e só não tenho motivo pra sair e fingir um bom humor na procura de alguma coisa que eu não vou encontrar...isso o Igor nunca me disse, mas em silêncio foi outra coisa que ele me ensinou. Em contrapartida eu disse que ele era viciado em tristeza e acho até que peguei pesado com ele...mas se o fiz é porque quero que ele seja feliz. E sei que ele me entende, mesmo eu não pedindo.
A gente se afastou - eu e o Igor - e dói, mas a gente acaba se afastando de quem não deveria mesmo sem querer...tipo o meu irmão, eu me afastei dele também...ou ele se afastou de mim...ou nós nos afastamos, não sei. A gente nunca conversou muito sobre coisa séria...nisso a gente sempre se compreendeu em silêncio, e hoje eu sinto falta de dizer em voz alta como eu me importo com ele...só pra ele se lembrar, sabe?! Eu sei que ele anda triste e solitário também na cidade lá onde ele mora...talvez a gente se entendesse. Minha mãe cobra isso de mim, comunicação familiar! Ela acha que o meu silêncio é a confirmação de que eu não me importo e prefiro não saber de nada, a gente nunca se entendeu muito...mas eu acabo me informando pelo que eu escuto atrás da porta, e tenho guardado aqui um amor imenso por ela, que vez ou outra eu consigo demonstrar de alguma forma.
Eu ia na psicóloga...não vou mais.
Eu ia no bar toda sexta...não vou mais.
Assisto um filme por dia, com uma bacia de pipoca e um copo de suco...ou de Milk Shake (o que foi o caso hoje). Terminado o filme e o Milk Shake, coloquei a seleção que eu fiz do Radiohead pra tocar, abri a janela e fumei um cigarro...com todo cuidado pra ninguém acordar e descobrir os meus maus hábitos, joguei o cigarro fora, abri a porta, coloquei o copo sujo na pia, fui ao banheiro escovar os dentes e lavar as mãos (eu lavo muito as mãos) e voltei pro quarto escuro pra olhar as roupas estendidas no varal dançando suas sombras na luz da lua.
Minhas mãos congelaram...mas não ligo...não canso de olhar a janela. Eu gosto da minha janela sabe?! Tem umas coisas coladas nela, adesivos da minha banda, flyers de shows, um mini poster dos Ramones, um desenho meu que o irmão de uma amiga minha fez e um Woody que eu ganhei de presente de aniversário do baterista da minha banda. De noite eu abro a janela e consigo ver um pedaço de céu...durante o dia eu deixo ela fechada porque não gosto do Sol me acordando.
A janela do Igor é maior que a minha, mas não tem revestimento nem cortinas...percebi isso quando o Sol me acordou naquele dia...eu deveria ter odiado aquela janela...mas sinto falta dela...sinto falta de muita coisa, inclusive de um sono tranquilo.
Mas hoje fez Sol e eu aproveitei pra lavar a minha roupa suja e mofada, então talvez amanhã o dia seja mais limpo.


Bianca Aragão?  Kamila tavares? Pandora?

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Claquete.

Sempre gostei de coisas muito específicas.
Específicas e aleatórias.
Específicas aleatórias e especiais.
Específicas, aleatórias, especiais e mágicas.

Talvez seja uma forma poetizada de dizer que eu tenho algum transtorno psicológico; ora veja bem...eu preciso estudar, passar um tempo com os meus pais, dar atenção aos meus amigos, andar na rua por acaso, ensaiar com a minha banda, estudar mais...com tudo isso quem tem tempo pra enlouquecer? Se eu pudesse enlouquecer sozinha seria bom...mas quando a gente enlouquece acaba carregando todo mundo que você conhece junto com você, e só de pensar em dar satisfações do meu estado mental pra cada um que me pergunte como eu estou...prefiro fingir minha lucidez até a morte.

Tem gente que cai na bebedeira - Eu assisto filmes.
Tem gente que chora - Eu assisto filmes.
Tem gente que toma remédio controlado - Eu assisto filmes.
Tem gente que corta os pulsos, se joga do prédio, se enforca num quarto escuro - Eu assisto filmes.
Tem gente que cheira pó até perder o nariz - Eu assisto filmes.
Tem gente que consegue superar tudo isso e é feliz na vida - E eu...enquanto tudo isso acontece...assisto filmes.


Uns diriam que é amor pela arte (até que é...mas não no começo), outros dizem que é falta do que fazer (até que é, mas não na maioria das vezes, e aquele desconhecido no ponto do ônibus, pelo jeito de olhar meio estranho acabou me dizendo telepaticamente que é porque eu quero me tornar uma pessoa culta, mas eu respondi telepaticamente que era mentira.

Eu aprendi uma coisa nesses anos de faculdade - nem toda pergunta precisa de resposta, e sinceramente...a busca pela resposta na maioria das vezes é mais gratificante que a responsta em si. Não tem isso de verdade absoluta, talvez seja por isso que eu permita que cada um pense de mim o que bem entender, e depois quando por destino ou vontade própria acabam vendo quem eu sou, acabo por desconstruir todas as impressões que eu mesma passo. Uma loucura! Um amigo meu uma vez disse que em menos de um ano ele conheceu três de mim, todas diferentes, todas complexas.

Mas existe uma pergunta que eu nunca quis responder - até agora. Porque todo mundo tem alguma coisa que não quer admitir na vida...e eu tenho várias delas guardadas em gavetas escondidas na minha memória...algumas eu até esqueço de propósito.

Porque filmes? - C O V A R D I A .

Eu lembro que quando eu era pequena um dos meus maiores sonhos era voar, e ter alguém que brincasse comigo e nunca se cansasse de mim, por mais que eu ficasse velha e sem graça...alguém que me tomasse como alguém especial pra sempre.
Eu lembro que quando eu era pequena um dos meus maiores sonhos era que existisse um "pra sempre". Eu não podia voar, eu não sabia se meus amigos e minha família ficariam comigo pra sempre, mas eu tinha uma VHS de Toy Story, as solas dos meus tênis da escola todas riscadas e um balanço onde eu podia me sentar, fechar os olhos e ir "ao infinito e além"...

Confesso que passei muito tempo sem os meus companheiros - os filmes. Foi um tempo de busca incontrolável por essa tal de felicidade, essa tal de satisfação pessoal, esse tal de sucesso nos estudos. E com o tempo eu vi que por mais que eu me matasse de estudar eu ia acabar com as mesmas pessoas no ano seguinte, inclusive as que não estudaram; e que no fim alguns deles se deram be na vida e eu não. E aquela menina que ficava se maquiando durante a aula de história acabou casando...e eu senti pena dela, mas talvez ela sinta pena de mim...talvez ela seja feliz.

Minha mãe me deu uma educação moral muito boa. Sempre fui educada e busquei fazer pelas pessoas o que eu gostaria que eleas fizessem por mim...bem...acabaram me pisando. Por ser o que alguns consideram uma "boa pessoa" eu acabei me escondendo em um dos meus mil disfarces, e pelo mesmo motivo eu não tenho coragem de causar mal algum a ninguém...nem a mim mesma.

Na esquina aqui de casa tinha uma locadora... eu sempre locava os mesmos filmes. Entenda...quando eu assistia um filme e gostava muito, eu tinha medo de ir na locadora e gastar o dinheiro das locações da semana com algum filme que não fosse bom, perdendo assim a oportunidade de rever aquele que eu tanto gostava. Me apego, julgo ser meu. Com o tempo aprendi a ver filmes novos, conhecer pessoas novas, cidades novas...saber prestar atenção na fotografia, entender certas características de alguns diretores...aceitar certos defeitos de algumas pessoas, inclusive os meus.

Um dia eu parei pra pensar em como seria a vida daqueles viciados em tudo quanto é droga que tem por aí... o que leva uma pessoa a tentar se acabar aos poucos em troca de uma felicidade de cinco minutos...o que acontece quando ela acaba.
Um dia eu parei pra pensar em como seria a vida de quem ama de verdade e teve um só amor pela vida toda...e lutou por ele, chorou, sofreu mas foi feliz no final...teve filhos, construiu uma família...plantou uma árvore.
Um dia eu parei pra pensar em como seria a vida daqueles que na verdade querem morrer, e não conseguem por covardia, ou por pressão familiar, sei lá...pensei em como seria viver querendo morrer.
Um dia eu parei pra pensar em como seria a vida daqueles que vivem pra matar alguém, e matei muita gente dentro de mim.
Um dia eu parei pra pensar em como seria a vida de alguém como eu, e nesse dia eu me vi em todos os atores, todas as trilhas sonoras, todos os cenários, todas as histórias...nesse dia eu me parti em mil pra não passar por tudo isso sozinha.

Nesse dia eu fugi pro meu quarto e me fundi com uma tela...e todo dia eu repito o mesmo ritual de covardia. Cansei de buscar compreensão porque não é pra isso que as pessoas se aproximam. Elas querem mudar o outro, e eu nunca quis mudar ninguém, porque alguém haveria de fazer o mesmo comigo?

Teve um dia que eu acho que amei. O filme do dia me lembrou que a metade de mim que vivia aquele filme morria de medo de ficar presa entre duas coisas, mas eu sou uma mutante...os outros é que não são.
Teve um dia que eu acho que amei, amei alguém que estava preso entre duas coisas, e fiquei presa entre o filme pausado e a realidade.

Entenda, a realidade é dura...ela é o "pra sempre" que arrasta suas correntes pelos dias que não temm fim. Não sei lidar com isso. Mas entendi que existem muitos amantes do cinema pelo mundo afora, mas talvez nenhum que seja um pedaço de todos eles. E por me fragmentar eu acabei absorvendo fragmentos de uma infinidade de coisas dentro de mim...tem dias que eu acho que finalmente vou explodir, mas os créditos do dia sobem e eu durmo esperando que o roteiro do dia seguinte seja um pouco melhor pra mim.

kamilatavares.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Atestado.

Escrevo esta carta não para justificar as minhas faltas, até porque muitas delas são injustificáveis e não consigo enganar alguém tão inteligente quanto a senhora, mas senti certa necessidade de mostrar que não existe atestado médico para a maioria dos problemas que nos trancam em nossos quartos e ameaçam nos prender pelo resto da vida...ou pior, que ameaçam acabar com o que resta dela.
Ontem eu assisti um filme bom...mesmo com aquela crise horrorosa de asma...o filme era bom mesmo! Se não fosse por ele esta carta seria outra, e amanhã provavelmente todos ouviriam algo sobre a menina que tentou se matar, ou sobre a menina que conseguiu. E você teria que dispensar a classe e dirigir até uma agência funerária qualquer enquanto meus amigos perderiam tempo procurando algum escrito não revelado no meu caderno ou no meu computador. Mas talvez a vida deva ser vivida...
Eu poderia culpar o trânsito, a nova virose (que de fato me atacou e me rendeu uns bons dias de cama) ou o câncer dos meus pais (sim, os dois tem câncer. Sim, faz tempo que eles descobriram. Sim, eles estão bem. Sim, eles estão se tratando. Não, eu ainda não me acostumei com isso. Sim, eu sei que é difícil...obrigada pelo apoio. Sim, eu sei que posso contar com você, obrigada mesmo), mas a culpa é minha mesmo...o ser humano não tem estrutura pra aguentar todos os tropeços da vida, e em um deles eu acabei caindo aqui na minha cama com a porta do quarto trancada, uma infinidade de filmes e pouca ou quase nenhuma comida. Perdi alguns quilos e quase toda a imunidade que me restava, minhas unhas quebraram e meu cabelo cai aos montes, devo ter algo grave...esse tal de sofrimento! E não posso sair na rua porque alguma regra social me diz que fora de casa eu sou obrigada a sorrir.
Tentei cumprir seu cronograma duas ou três vezes, li os trabalhos, fiz uma boa apresentação...mas acabo por lhe desrespeitar quando a sua fala some na minha frente e toda a sala branca se torna uma tela de projeção dos meus devaneios.
Imagine que você encontrou a receita da sua felicidade, e tem certeza que é aquela porque a provou e foi como se todos os planetas tivessem se alinhado perfeitamente em torno do sorriso que se formou em seu rosto, e num piscar de olhos você se viu longe daquilo e engolida pelas obrigações da vida...você sabe onde ela está guardada, mas a prateleira é muito alta pra você alcançar. Pois é!
Minha felicidade não está aqui, entende? Eu sei aonde ela está e não posso ir lá buscar...não agora! E não sei lidar com isso por ser muito pequena pra essa vida tão grande! Foi nesse buraco que eu acabei caindo. E me tranquei no mundo dos meus filmes...eu podia explicar o que eu sinto pelos filmes...mas isso é outra história, a senhora não entenderia agora!
Por isso vim aqui atestar que a minha cabeça está muito cheia para ler aquele livro, e que eu preciso de algumas horas de meditação pra poder processar certas coisas, e preciso também que as pessoas entendam que eu não quero rir todos os dias, e que nem sempre eu vou querer comer, e que a minha saúde não é das melhores, e que eu também tenho fraquezas...sou covarde pra viver certas coisas, e mais covarde ainda pra olhar de frente pra morte...que eu já tentei acabar comigo aos poucos, que eu tenho medo de lutar por certas coisas...mas que eu vivo! Vou tentando! Sou corajosa pra outras tantas coisas...como escrever cartas! Subir em palcos...amar!
Não...não tenho medo de amar! Nunca tive! É algo meu, eu sei lidar com isso...tenho medo é dos outros, do amor que eles dizem que sentem por mim, medo do engano, medo de acreditar...entende? O problema não é o amor, é a falta de confiança! Por isso não espero que você confie ou acredite em mim, quero apenas que leia e entenda que uma dose de Coristina não vai aliviar a febre que eu sinto agora, que um Rivotril não vai adormecer os meus pensamentos e que um atestado médico de três dias não vai me fazer voltar ao convívio social curada.

Kamilatavares.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Lívia.

Sua gargalhada rouca me ensinou muitas coisas em silêncio
e quando escuto algo em espanhol lembro daquela menina
que andava balançando seus cachos pretos
seu sorriso de tarde de domingo
seu cheiro de primavera
suas conversas de filmes
e os olhos pedindo mais dez minutos de cochilo
pra repousar as pernas cansadas de andar por aí
fotografando histórias
catalogando lugares e anotando nomes amigos
sempre
no
diminutivo.

Kamila(zinha).

domingo, 18 de agosto de 2013

Coração Selvagem

Para ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=OKTRc7x-zCM

"Queria que me devolvesse aquela história que eu te contei
mas pode ficar com o CD da Gal
não quero nada material
que um dia te dei"

Vê? Eu compraria o mundo pra ele se pudesse apagar o tempo que eu dediquei...mas não queria que ele esquecesse de mim, e não queria esquecer dele também. Só não queria que aquela música do Belchior magoasse tanto os meus ouvidos toda vez que eu lembrar que foi pra ele que eu a dediquei, entende? Era a música que eu tinha escolhido pra ouvir com quem passaria o resto de seus dias de velhice comigo, relembrando os problemas e a inocência da juventude que tivemos...
Guardei uma frase pra ele dentro da minha canção, escondi um beijo pra ele nas dobras do meu blusão, dei um gole de cerveja do meu copo...naquele bar...segui a música que ele não dançou comigo. Meu coração é frágil e eu pedi pra visa pisar devagar, ela me atropelou.
Eu errei e não posso nem culpar ele por não me amar, entende porque é tão difícil? Sei que não é fácil pra ele também...o consolei pelo mal que ele me causou pelo simples motivo de ser dessas pessoas que acredita em destino. Não consigo tirar a vida do meu discurso, me desculpe. Se for pra ser um dia, que nossas almas esperem enquanto os nossos corpos se deitam em camas diferentes, nossas almas que esperem pela eternidade que lhes resta, até que a nossa covardia nos abandone...se não for assim que a magia do esquecimento chegue aos pouquinhos enquanto os ponteiros do relógio se arrastam pelas paredes azuis dos nossos quartos, e que um dia a gente abra a janela e se sinta bem sem saber porque.
Claro que eu não me arrependo! Se pudesse teria me esforçado mais...sei lá! Sempre acho que foi erro meu. Mas vai passar...sempre passa, só não queria ter que passar por isso mais uma vez, dessa vez não! Não agora, não ele...que ouviu a minha história da estrela dourada e escutou aquela música do Belchior.
Mas o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente...


Kamilatavares.


terça-feira, 13 de agosto de 2013

Dupla.

Vento frio, café quente
traga-me um amor ao Sol poente
carregado de abraços amarelos, canções sobre o inverno
e um punhado de qualquer coisa que me esquente.

Kamila Tavares e Guilherme Nery.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Ensaio sobre ele.




- Tá fazendo o que aqui sozinha? Você sabe que aqui é perigoso...
- Esperando ele...eu preciso falar pra ele...não sei mais como.
- Ele quem?
- Era Dezembro quando a gente se conheceu, eu estava parada exatamente aqui quando ele olhou pra mim...eu trouxe o chapéu!
- Qual o nome dele?
- Ele tem medo de agulhas...engraçado! Ele ia tatuar o Pi mas sempre desiste, eu sei que é por causa do medo, queria poder ir lá segurar a mão dele e dizer que vai ficar tudo bem, queria fazer tudo ficar bem!
- Você perdeu ele? É isso?
- A gente se perdeu, nem sei como...eu lembro a primeira vez que ele disse que gostava de mim, era engraçado como ele colocava a mão na boca pra rir, ele nem sabe o quão bonito fica...ele acha que é alguém triste, mas eu vi nos olhos dele que não é! É uma defesa pra não se decepcionar, é medo da felicidade...eu sei lá! Essa coisa de se acostumar a viver naquela tristeza...não era pra ser assim, ele devia lutar sabia?! Alguém deveria avisar que ele não precisa ter medo, a gente tem que aceitar que as coisas dão certo, não precisa ter medo...
- Como ele é? Talvez eu tenha o visto por aqui...
- Ele gosta de Radiohead, o herói preferido dele é o Homem Aranha, ele adora HQ e os filmes do Tarantino...gosta do Wagner Moura, me mostrou os poemas do Mário Gomes,  de vez em quando inventa de gravar vídeos pra internet...é besta pra rir! O sorriso dele é lindo sabia?!
  Tem uma música do Justin Timberlake que ele faz uma dança muito engraçada quando escuta, não consegue falar inglês rápido, mas entende bem. Ele escreve...muito bem, mas não acredita...ele devia acreditar mais em si mesmo. É ator, fotógrafo...sabe tocar uma música no violão, que eu ensinei! Ele aprendeu tão rápido...se eu tivesse tido mais tempo hoje em dia ele tocaria melhor que eu! Amor não faltou...faltou tempo. Ah...ainda tem um seriado sabe?! Ele imagina tudo e vai criando personagens...a história é bem complexa, ele me explicou uma vez no carro...ele é meio perdido mas dirige bem. Consegue ser calmo naquela cidade de gente louca, é aquilo que toda mãe chama de "menino de ouro"...ele é amoroso, cuidadoso, carinhoso, atencioso...inteligente, sagaz, esperto...bonito! Mas ele não sabe disso...sei lá...ele não acredita! Como pode ele não acreditar? Ele vai ser um pai maravilhoso sabia?! Ele não vai ser só como eu...
- Mas como ele é? Fisicamente!
- Ele é assim...maravilhoso!
- Me dê UMA característica física dele!
- Ele tem ombros bonitos...magneticos, os olhos são castanhos de poesia...e quando ele ri eu esqueço tudo que é de ruim que existe no mundo.
- Faz tempo que você o procura?
- Procurei a vida toda, só não sabia que era ele!
- O que você está esperando pra dizer?
- Tudo!
- Diga uma coisa desse tudo.
- Feliz aniversário...as coisas ruins vão passar, você vai aprender, vai se tornar alguém mais maravilhoso do que já é, se é que isso é possível...aniversários são bons, acredite! Eu ia fazer uma surpresa pra você, mas não consegui chegar aí, tive uma prova na faculdade, tive medo de você não me receber...sinto tanta saudade que dói mas não guardo nada das brigas...só as coisas boas.
- Isso faria algum sentido pra ele? Porque eu só entendi a parte do "Feliz aniversário".
- Tudo que eu digo faz sentido pra ele...
- Ele vem te encontar aqui?
- Não...ele mora longe...
- Então porque você tá esperando ele aqui, se sabe que ele não vem?
- Porque ele não acha justo que eu espere...eu pensei que ia passar, mas não passou...então continuo esperando...
- Porque?
- Porque eu nunca pedi nada em troca.
- É isso que é amor?
- Não sei...dizem que o amor é tanta coisa, mas talvez seja mesmo, porque?
- Eu só tenho 12 anos, vivo aqui na rua, não sei o que é amor de mãe...nunca fui na igreja então também não sei o que é amor de Deus...e uma vez uma velha que tava sentada naquele banco alí disse que amor era quando a gente esperava. Sei disso porque ela disse que estava esperando o marido dela sair do hospital...todo dia ela vinha e esperava então eu perguntei...mas você não é velha. Então eu posso esperar também, certo? Pelo amor?
- Todo mundo pode...
- Espero que você encontre ele...
- Obrigada, vou encontrar...
- Tchau.


Kamilatavares.

http://www.youtube.com/watch?v=QFKcvrnlZmg

Feliz ano novo, Minhoca.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Quimioterapia.

      Se eu diminuir o volume do som consigo escutar eles conversando do outro lado da porta, se eu descansar de olhos fechados consigo sentir eles me espiando parados na porta, consigo ouvir seus pensamentos sobre como eu cresci...sobre como eles não querem que eu vá embora.
      Essa semana um estudante de medicina foi falar comigo no hospital...ele recolhia histórias e tinha aquele brilho nos olhos de quem nunca viu a morte e ainda pensa que vai conseguir salvar todo mundo. Andei lendo o que ele e tantos outros escreveram sobre nós...jovens heróis...jovens guerreiros...exemplos de vida.
      É preciso ter a certeza que a morte está chegando pra ser exemplo de vida? Mas se todos sabem que um dia vão morrer porque não aproveitam logo ? Eles pensam que vão ter todo o tempo do mundo...a diferença é que eu sei que não o tenho.
      É duro pra mim dizer isso, mas a realidade é bem diferente dos filmes, e eu demorei pra aceitar isso em meio a minha terapia de no mínimo um filme por dia. Na minha realidade o grande amor da minha vida que iria cuidar de mim até o dia em que eu de fato vá embora não existe; eles tem medo...e os que não tem eu tratei de afastar, quer saber porque? A gente não aguenta esse olhar de pena que vocês nos lançam. É como viver o seu velório durante meses...repetidas vezes.
      Não tenho escolha a não ser lutar, ser "guerreira"..."exemplo de vida" não é uma opção pra nós, é uma obrigação! Por mim eu me sentaria numa cadeira e esperaria pela morte assistindo o que o cinema tem de melhor. Mas quando a visão fica turva e a sua mãe corre da cozinha pensando que essa é a hora final e você sente o tremor daquelas mãos geladas implorando pra que você fique, não lhe resta outra coisa a não ser lutar. 
      A perspectiva de vida vai toda embora, não existe mais "o que eu vou ser quando crescer" ou "quando eu me formar" ou "quero ter dois filhos com você" porque qualquer hora pode ser a última...eles todos sabem, mas se cria um ambiente de enganação pra todo mundo pensar que existe um dia a mais pra se desperdiçar.
      Tentei parar o tratamento por achar que trocar dez dias de hospital por um dia de rua seria bom pra mim...e era! Mas só pra mim! Eles não querem, meu pai chorou...eles são egoístas e querem que você fique o máximo possível mesmo que pra isso o seu corpo vire picles e vegetar seja a única coisa que lhe reste.
      Nesse filme chamado realidade as cenas de vômito são bem mais frequentes que as visitas do par romântico, o expectador consegue sentir o cheiro do hospital, varrer os meus cabelos caídos no chão e escutar meus gemidos de dor quando está muito frio. Deixei de escutar algumas músicas porque certas notas fazem meus ouvidos doerem...
      Quando eu tinha dez anos lembro que eu transformava cada gripe em um evento digno de novela mexicana só pra não ir pra escola e ficar deitada na cama enquanto a minha mãe cuidava de mim e me dava tudo o que eu queria comer. Hoje não sinto nada além de sede e náuseas. A enfermeira vem amanhã...conhecerei a famosa Morfina, que será minha companheira nos próximos e últimos dias.
      Mas de fato eu já morri. Ninguém me contraria mais, por mais irritante que eu consiga ser...quando eu passo pela cozinha e ela está lavando a louça consigo escutar os soluços do choro inconformado. Morri mas Deus ainda não me levou porque preciso passar um tempo consolando os que vão ficar, porque eles ainda são muito egoístas pra me deixarem ir.
      Tentei fazer uma daquelas listas que toda menina do câncer tem sabe?! Aquelas com coisas aleatórias que elas querem fazer antes de morrer...mas descobri que já fiz quase todas elas antes de ficar doente, e o mais engraçado é que essas listas sempre tem coisas perigosas e ilegais no meio, mas ninguém se irrita ou reprova porque afinal de contas, você está morrendo...quase morrer te dá direitos que os vivos não tem! No meu caso eu as fiz e todo mundo se irritou, porque eu não tinha tais direitos. Bebi, fumei, dirigi sem documentos, fiz uma tatuagem escondida, fumei maconha, usei LSD, recusei a cocaína, vi o Sol nascer inúmeras vezes, pulei a catraca do ônibus, faltei aula pra ficar com alguém, voltei pra casa depois de uma festa escoltada pela polícia...e sofri as consequências de tudo. E não me envergonho! Fazer tudo isso quando se tem uma vida pela frente é suicídio...fazer tudo isso quando se sabe que vai morrer é aproveitar a vida que lhe resta. Vivemos constantes paradoxos...e eu vejo beleza nisso. Mas minha mãe que um dia chorou me chamando de marginal e pequena delinquente hoje me santifica...porque a partida apaga tudo o que é de ruim que a gente tem...lava os nossos pecados...tira as notas vermelhas do seu boletim.
      Meus amigos foram todos ficar carecas junto comigo...até duas das meninas foram corajosas. Se espantaram porque eu não chorei...na verdade sempre tive esse desejo secreto de ser careca só pra sentir o vento na minha cabeça e não precisar de condicionador ou passar horas no cabeleireiro. Minha cabeça tem um formato estranho...me lembrei que tinha orelhas. Engraçado comos meus ossos ficaram evidentes, eu acho até bonito sabia?! Sempre fui gordinha...ver os meus ossinhos é um prêmio de consolação. Mórbido, mas é.
      Houve um tempo em que eu pensei que fosse ser carregada nos braços no dia da minha lua de mel...lembrei disso quando acordei sem conseguir andar e meu pai fez a gentileza de me carregar até a sala. Ele já está velho - o meu pai - mas tem mais saúde que eu! Um dia ele disse que se pudesse trocaria de lugar comigo...ele não sabe que eu escutei isso...eles não sabem que eu escuto muitas coisas.
      Um ano se passou desde o começo, e já estou muito mais fraca...há 365 dias eu vivo o último dia da minha vida. Fiz um cupcake pra comemorar, mas não consegui comer ele inteiro. Meus ossos não doem mais, o que dói é ter que consolar todo mundo todos os dias até eles se convencerem de que eu não vou estar aqui no Natal...e toda noite eu me preparo pra viajar quando adormecer...minhas malas estão prontas, estou esperando o trem partir.

domingo, 4 de agosto de 2013

True and Hate

Não existe universo que seja culpado, não há destino que explique...hoje o seu único inimigo é você mesmo!
Culpe as estrelas, culpe o calor, culpe a cerveja em demasia e a tosse que o cigarro te causou...culpe a mim!
Não sei até quando vou aguentar o ódio que você tem por você mesmo, não sei como consigo lutar por nós dois! Mas é ódio o que sinto por mim também...quando deixei de cumprir com a minha palavra e quebrei meus códigos de honra por você que é tão assim...desse jeito que eu não sei nem dizer.
Nos odiamos e você jura ser amor, depois some e eu me enraiveço por não poder chorar mais, por ter me quebrado no meio do caminho...
Eu devia ter tomado o resto daquela cerveja e demorado mais um pouco se soubesse que não faria diferença...devia ter prestado atenção no filme...devia ter me soltado, te soltado...ou me prendido de vez a você...não deveria ter ido embora pra não ter que ver tudo se repetir.
Assisto filmes repetidos, e outros tantos filmes se repetem na minha vida, você vai virar mais um deles: O menino que se odeia, e que por se odiar me ama, e que por me amar se odeia, e que por se odiar faz com que eu me odeie também, e que por me odiar eu o amo...uma doença...uma agonia!

Kamilatavares.

domingo, 21 de julho de 2013

Pi.

- Bem, vai parecer estranho, mas deve fazer uns dez minutos que eu te observo daqui sabia?! Se você realmente quer se jogar, eu tenho duas coisas a dizer: A primeira delas é que o prédio só tem 20 andares, você ficará consciente a queda toda e provavelmente se arrependerá no meio da trajetória, garantindo assim os piores 10 segundos da sua vida. A segunda é que eu serei indiciado como suspeito de um homicídio, então , eu tenho a inevitável missão de te persuadir e convencer você a não fazer isso.

O susto quase a fez cair! Se reequilibrou no parapeito, olhou em volta...viu aquele estranho parado ao lado da porta que dá acesso ao terraço da cobertura e arqueou as sobrancelhas. As luzes foram propositalmente apagadas a fim de que ela pudesse aproveitar a iluminação noturna dos postes na rua, da lua e dos faróis dos carros que passavam lá embaixo.

- Na verdade eu ainda não decidi se me jogo agora ou sei lá...me entupo de remédios...então já que você não quer ser suspeito de nada, sugiro que me deixe decidir sozinha! Esta cobertura é o meu lugar.

- Engraçado - disse ele se aproximando - eu sempre venho aqui pensar nas merdas da vida quando me sinto mal...há uns cinco anos...desde que moro aqui. Então acho que - na verdade - esta cobertura é minha! Você quem está invadindo a minha propriedade.

- Então por onde você andou no último mês? Porque eu venho todas as noites aqui decidir se pulo ou não e nunca te vi por aqui!

- Viajando...negócios...enfim! Parou por um minuto perdido nas lembranças de suas noites insones e mórbidas... - Me chamo Igor...Igor Tavares.

Ela olhou brevemente para o rosto do estranho, deu de ombros e voltou a fitar a calçada.

- Não repare no bigode, não sou mexicano nem nada...preciso manter pra uma peça...um musical.

- Não reparei no bigode...na verdade não reparei em você, está muito escuro e eu estou sem óculos...enfim.

Seguiu-se um silêncio que o incomodou. Ela continuava indiferente.

- Não vou dizer meu nome ok?  Não quero que crie nenhum laço comigo.

- Desce aqui então pra gente conversar um pouco, quer um trago?
vou te chamar de senhora pi, ok?

- Que tal você subir? Porque Pi?

- Daqui dá pra pra ver um Pi tatuado no teu antebraço...

- Observador...já vi que não é tão cego quanto eu!

- Não, já fui...sou mais não.

- Cirurgia?

- Isso, justamente...você é médica?

- Não importa...na verdade se eu fosse médica não me importaria...eles nunca se importam
mas já que você perguntou...minha mãe era médica...psiquiatra.

- Nossa...uma profissão até agradável, hein?!

Ela deu de ombros mais uma vez e ele começou a se sentir desconfortável com a situação.

- Bem...já que tu pode...digamos que...se matar. Eu terei a chance incrível de poder ser totalmente sincero e saber que você levará tudo pro caixão.

Ela riu timidamente por três segundos e quarenta centésimos. Ele cronometrou seus olhos se fechando enquanto os lábios desenhavam uma gota de descontração em suas maçãs do rosto.

- Então me conte o que você quiser! Me diga o seu segredo mais sujo e eu levo ele junto comigo pra calçada lá embaixo, e de lá pro inferno.

- Bem, eu gosto das músicas do Justin Timberlake...não, pera...tem piores.

- Me conte então! Eu - por exemplo - se estivesse na sua situação, vendo alguém querer se jogar...
não hesitaria em empurrar a pessoa sabendo que nunca levaria a culpa pela simples vontade de saber como seria matar alguém.

Igor sobe no parapeito e se senta ao lado dela naquele que ele julga ter sido o ato mais corajoso que ele cometera nos últimos tempos; respirou fundo buscando reunir as ideias e - principalmente - não gaguejar. Tentou manter a conversa da forma mais natural que pôde.

- Sendo assim, deixa eu ficar aqui do seu lado, só assim posso morrer pensando ser um herói.

- Mas quem vai morrer hoje sou eu, esqueceu?
Se quiser seguir minha sugestão e me empurrar eu juro que não volto do além pra te denunciar.

- Tá certo então.

A sirene de uma ambulância que passava apressada na rua ao lado prendeu a atenção dos dois até se esvair.

- Tá frio aqui em cima, poxa...e a visão daqui é terrível, dá até vertigem - disse Igor.

- Labirintite? Ah...esquece esses diagnósticos! Me dá um cigarro? Tá mesmo frio!

- Droga, esqueci a carteira lá embaixo, vai pegar, to com preguiça.

Ela olhou pra ele naquilo que foi um misto de revolta e riso, fez que não com a cabeça e deu um meio sorriso enquanto descia pra buscar os cigarros....

- Você quer que eu desça e desista! Não importa...eu volto amanhã - Subiu no parapeito e arqueou as sobrancelhas em sua teimosia - Eu gosto da vista daqui...gosto de tirar os óculos e olhar as luzes...é como se eu fosse uma câmera com o obturador aberto sabe?!
enfim...

- Câmeras...esse último fim de semana eu estive lá em Guiné Bissau com uma Canon no pescoço, acho que você teria gostado de lá tanto quanto eu.

- Provavelmente...

Tragaram ao mesmo tempo e passaram uma eternidade de trinta segundos em silêncio observando a fumaça e as luzes dos apartamentos do prédio vizinho.

- Eu tenho uma coleção de analógicas. Quando eu morrer...enfim...moro no 314...você pode ir lá pegar. Pode ficar com uma copia da chave.

- Vou tentar lembrar disso, não que essa seja uma situação comum, tipo, estar do lado de uma suicida, mas...
eu sou atrapalhado, esquecido...relapso!

- Faça um esforço, não sou qualquer suicida, sou uma suicida que vai te dar uma coleção de câmeras! Mas sou uma suicida covarde...então pode demorar um tempo...

- Tá certo então...bem, sei lá, tá tarde e frio - gaguejou ele - eu deixo tu subir de novo, prometo! Mas é que eu deixei uma lasanha deliciosa pra matar minha larica lá embaixo e aposto que não vou conseguir comer tudo aquilo sozinho...quer dar um pulo lá?

- Lasanha de que? Com molho de que? Não quero desperdiçar minha última refeição com carne moída e molho de tomate comprado pronto de caixinha.

- Você tá com sorte senhora pi, é de carbonara...molho branco.

- Molho branco...minha especialidade!

- Duvido ser melhor que a minha...

- EI EI EI, Calma rapaz...se desequilibrando assim você vai acabar caindo antes que eu caia e eu vou ter que comer a lasanha sozinha!

- Desculpa! Vacilo meu...enfim, vamos descer?

Eles descem do parapeito e pegam o elevador, e antes que ela pudesse se perguntar onde ele morava, eles chegam ao apartamento 505.

- Conhece o restaurante italiano no final da rua?

- Sim sim conheço, o que tem ele?

- Eu trabalho lá!

- Sério?! Uma cozinheira! Mais uma informação...te chamarei de "Mestre Pi" então!

- Ok, Tavares. Já que você vai me acompanhar na minha última refeição, não me custa nada te dizer onde eu trabalho.

Ele abre a porta e é recepcionado calorosamente por uma cadelinha de laço rosa.

- Ai meu Deus esqueci de amarrar a Nina, ela vai te sujar toda!

- Sem problemas, eu gosto de cachorros - Disse ela enquanto olhava em volta estranhando tanta organização  - Vem cá...você é algum psicopata ou serial killer?

- Bem, acho que não...não tenho coragem de matar uma barata.

- É que o seu apartamento...é...meio que...MUITO ORGANIZADO! Além disso você tem um cachorro, salva mocinhas do suicídio, deve gostar de crianças, fazer algum tipo de caridade...só pode ser um sádico.

- Ah claro, faz todo o sentido do mundo! - Disse irônico.

- Não acredito em boas pessoas.

- O máximo de agito da minha madrugada é ver Toy Story comendo Nutella, maaaas... como estamos em uma zona fantasma da sinceridade, posso dizer que gosto de...como eu posso explicar isso...gosto de observar filha da Senhora Jacqueline descer nos fins da tarde pro trabalho. Aqueles cabelos vermelhos e o jeito estranho que ela tem de se arrumar... me fascinam sabe?! Um dia eu crio coragem pra dizer tudo isso a ela - Disse ele enquanto ria nervosamente e pegava um vinho.

- Um Stalker...sabia!

- A primeira vez foi coincidência, eu estava descendo pra sair com a Nina e esbarrei com ela. Eu usava um boné e óculos escuros, você nunca me reconheceria...sou daquelas pessoas que são coadjuvantes da própria vida.

- Não seria difícil, não reconheço nem a mim... - Disse indiferente.

- Tá bom - Ironizou - senta ali ó...tá ali teu prato, pode começar sem mim, vou ver se acho um vinil bom aqui...deixa eu ver...Cartola, Cazuza...

- Se escolher alguma porcaria eu vou embora!

- Djavan...Fagner...GAL! Isso...Gal Costa!

- Seus vinis estão em ordem alfabética?

- Sim, porque? - Perguntou hesitante.

- TOC? "Ai meu Deus...os diagnósticos, prometi parar com eles" - Pensou alto.

- Prefiro não falar sobre isso.

Ele se levantou, colocou o vinil pra tocar e sentou apreensivo com o seu vinho e seu olhar curioso.

- Minha mãe tinha TOC, mania de psiquiatra achar que tem tudo no mundo, coitada...eu tinha pena dela...

- aposto que ela também tinha de você...reciprocidade...a alma do negócio! Toda e qualquer relação só se sustenta com reciprocidade, até o ódio! Odiar alguém que não te odeia é horrível, não há relação, saca?

- Claro... - Deu de ombros - e foi por passar a vida sentindo pena de mim, que ela começou a se odiar por ter gerado alguém tão...desprezível...então ela foi embora...não sei pra onde...sumiu, melhor assim! Pobre Jacqueline, ter uma filha que não sente a sua falta...

Ela viu troféus na prateleira, andou até lá e pegou um deles. Ele se levantou num susto e correu até ela tomando o troféu de duas mãos e o alinhando na prateleira de volta. Respirou fundo...conferiu se estava tudo no mesmo lugar e olhou pra ela num misto de alívio e censura, ela retribuiu com olhos assustados.

- E a lasanha? Você mal tocou nela!

- Se eu quebrar os seus troféus você cria a coragem que eu não tenho de me matar? Ah...e a propósito, se você banhar o frango com um pouco de vinho e não tiver medo de testar temperos para o molho a lasanha fica melhor, mas está boa assim de qualquer forma.

- Acho que você teria que tocar fogo nesse apartamento pra eu ter coragem de te matar, ou ao menos de dizer que você é ruim por ter quebrado os meus troféus. E obrigada pelas dicas, tentarei mudar os temperos na próxima.

- Você não me conhece...como sabe que eu não sou ruim???

- Você ajudou a velhinha atravessar a rua na última quinta. E a sua blusa do AC/DC me denuncia que você é uma boa pessoa...

- Então me conte...o que você sabe sobre a filha da Jacqueline?

- Porra nenhuma... sei que ela sempre vai do restaurante pra casa...nenhuma fresta na porta...nenhuma pista sobre namorado...nenhuma compra absurda na padaria ao lado. Só os mesmos cabelos vermelhos e o olhar preto como uma graúna, vazio.

- A filha da Jacqueline é a menina sem qualidades.Sabe porque?

- Porque?

- Ela é alheia à dor humana. O ser humano se orgulha da dor que sente...se aprisiona nela, acha bonito. Se alguém morre...quem mais sente a dor é a melhor pessoa. Competimos pra saber quem sofre mais. A filha da Jacqueline não se importa com isso. Por desprezar a dor ela não tem namorados, por não sentir as perdas ela viu todos irem embora...
por isso não há muito o que saber sobre ela.

Ele revirou os olhos e se voltou para o seu vinho, desprezando o discurso dela, que continuou divagando.

- Por isso talvez não seja justo alguém assim continuar vivo.

- Escuta agora o que eu vou falar, tá certo? - Disse ele tentando interromper o monólogo interminável.

- ...não existem frestas na porta...vivo lendo no meu quarto. Sim, fale.

- Tá, escuta... - bebeu mais vinho, tirou a blusa...a casa estava quente, respirou fundo e criou coragem pra falar: Sabe mestre pi, eu... já vivi coisa pra caralho nessa vida estranha e desde que virei ator,não paro em canto algum; vivo mudando de lugar, passando uns meses aqui e outros acolá; tenho esse apartamento aqui porque venho visitar meus pais e porque eu tenho que ter algum endereço pra receber minha encomendas.  Os últimos tempos me fizeram ficar aqui...as pessoas não querem muito ir ao teatro. Na verdade nem eu mesmo quero mais, e apesar de fazer ponta em cinema, acho que nasci pr'aquela bagaça que tá de definhando...mas isso não vem ao caso.

- Eu gosto do teatro - disse ela tentando dar sentido ao que ele falava - enfim...continue.

- O que quero que você saiba é que se eu realmente fosse morrer eu iria querer pelo menos ouvir algo significante...

Enquanto Igor falava, ela lhe lançou o que julgou ser o melhor que pôde dar do seu olhar de reprovação e de "eu não preciso que você diga algo significante por pena de que eu morra sem ouvir algo especial", mas não disse nada...o deixou falar.

-  Bem...eu gosto dos seus olhos, dos seus cabelos e das roupas estranhas que você usa, mas o que eu gosto mais de você Mestre Pi...o que eu mais admiro em você...e é o que me faz estar aqui perdendo o meu tempo é esse desejo incontrolável de querer ter conversado contigo algum dia...ter conhecido você, embora isso não faça sentido. Esse imã que me faz aproximar de você...eu to viciando em te ver. Meu coração quase pula pela boca enquanto eu falava contigo sereno; parecia que eu estava no municipal com centenas de pessoas olhando minha performance enquanto eu tentava continuar sereno, calmo, tranquilo...

Ela enrugou a testa tentando achar algum significado lógico em tudo que ele tinha dito daquele jeito gaguejado e nervoso. Não encontrou resposta.

- Acho que o vinho está fazendo efeito - Concluiu Igor em meio a sua decepção - estou falando mais do que deveria...enfim, a chave está na porta, se quiser voltar, claro...

- Quer saber meu maior segredo?

- Manda...

- Há um mês atrás...eu encontrei minha cura.

- Qual?

- Você acabou de ver...lá fora!

Desta vez foi ele que enrugou a testa tentando entender o que ela dizia, mas ela - mais uma vez - o desprezou e continuou a falar.


- Existe uma linha invisível entre a vida e a morte, a coragem e a covardia, a atitude e a inércia. Lá em cima eu consigo andar em cima dessa linha...lá eu me sinto viva...porque sei que se eu der um passo posso morrer! Lá em cima...eu deixo de desprezar a minha dor. Talvez eu não precise subir...mas fazer aquilo todos os dias me impede de morrer por dentro
o que - afinal de contas - é a pior morte.

- Digamos então... que eu seja a morte; que estou esperando você por todos esses dias, afinal de contas, me explique como você chegou hoje ao térreo? Ou melhor! Me explique como está usando essa blusa branca de botão que nem existe no seu armário...melhor ainda, me explique porque você está deitada em minha cama nua se estava agorinha mesmo em pé, em frente a porta do meu "apartamento"...porque não me beija? Porque não termina logo isso de uma vez?

Ela arrumou o travesseiro, abotoou a camisa, bateu as cinzas do cigarro e olhou pra ele frígida.

- Porque se você é a morte eu preciso dormir todas as noites com você na dúvida do que será feito de mim pra poder me sentir viva.

- Então venha, me use e não me beije. Fode com a morte...durma com o inimigo sua piranha! Nas não esqueça de apagar as luzes quando sair...

Ao contrário do que ele pensava ela não se ofendeu; levantou lentamente e andou até a janela. Prendeu os cabelos assanhados e deixou que ele a olhasse vestindo sua camisa, e apenas ela.

- Se eu te beijar vou ser sua, é isso que você quer? Vou deixar de ser alheia a sua dor pra sempre e vou te perseguir como você fez comigo.

- Engraçado, eu to viciado em você.

- Você quer que eu seja alguém como você?

- Fazer com que você me beije, assim de forma rápida, não terá brilho. Eu quero que isso se torne algo apoteótico...na verdade eu amo tanto você que eu queria que você me matasse, me esfolasse..."matar a morte e matar a terra fazendo com que isso tudo exploda de uma vez deixando todos vivos sem mais esforço meu!"  Bem...eu estou apaixonado por você como um ator barato de uma novela mexicana. Mas vamos fazer o seguinte: Durma, amanhã nos encontraremos lá de novo, você acordará no parapeito e não lembrará de hoje; assim podemos repetir essa mesma noite todos os dias...um dia eu te acordo do coma e quando você descobrir o looping será maravilhoso!!
  Ou me beije agora e nunca mais sentirá a sensação de estar viva pelo simples motivo de quase morrer.

- Você é o meu ator barato de novela mexicana...eu sou alguém sem sentimentos nem qualidades...você irá dormir na sua embriagues apaixonada enquanto me olha fumar um cigarro aqui na sua janela...vai acordar sozinho na cama e esperar a minha volta no frio da cobertura todas as noites. Vou te beijar antes de ir embora...enquanto dormes...e vou viver sabendo que alguém me espera todos os dias até o dia em que jogue a minha covardia de cima do prédio e acabe com isso de vez.

- Você fez a sua escolha...durma bem, minha linda...Bianca Aragão! Tenha bons sonhos.

- Como você sabe o meu nome?

- você não gostaria de saber...

- Maldito seja! - Disse ela enquanto olhava ele finalmente cair no sono.

Juntou o resto de suas roupas, observou ele dormir por uns trinta minutos, finalmente lhe deu o beijo prometido e foi embora deixando um bilhete que dizia: Até um dia...



Kamila Tavares e Pedro Aragão.