sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Fake Plastic Trees


Hoje fez Sol, aproveitei pra lavar roupa. Quando o frio se instala por aqui no inverno e acaba prolongando a estadia por mais uns dias é inevitável ver suas roupas todas mofarem...mas hoje fez Sol, e daqui da janela eu vejo a roupa estendida no varal. Eu gosto de passar pelo quintal e sentir o cheiro da roupa limpa secando...
Um dia eu vou morar só, em outra cidade...ou até na mesma cidade, ou quem sabe com outra pessoa; e quando esse dia chegar e começar a chover eu vou sentir falta da voz da minha mãe me mandando correr pra tirar a roupa do varal antes que molhe tudo...vou sentir falta de muitas coisas. A mamãe há tempos já foi dormir...um sono pesado pelo visto, ainda não ouvi ela abrindo a porta pra ir na cozinha beber água. Gosto quando ela dorme assim...pesado, despreocupada. Veja bem, hoje é sexta e eu estou em casa, se eu tivesse saído ela provavelmente estaria acordada se preocupando comigo, imaginando aonde eu estaria uma hora dessas...mas eu não saio mais...isso eu devo ao Igor, apesar de tudo ele foi quem mais me ajudou a mudar...pra melhor. Não fosse pelos tempos em que eu troquei a mesa do bar pelas madrugadas conversando com ele, acho que agora eu provavelmente estaria na infinita dose de Vodka ou na lata de cerveja de número um milhão, tossindo meu último cigarro e com frio, escutando uma música qualquer e falando com pessoas que eu na verdade nunca converso mais que um "IAEEEE BELEZA? TOU BEM SIIIM BRÓDER E VOCÊ? POIS BÓ BEBER..." e só.
Dizem que hoje eu ando mais triste...mais solitária...mas parando pra pensar eu sempre fui, só que eu fingia. Mentia pra mim mesma...tão feio isso. Hoje não mais, hoje fez Sol. Se eu estou triste e só não tenho motivo pra sair e fingir um bom humor na procura de alguma coisa que eu não vou encontrar...isso o Igor nunca me disse, mas em silêncio foi outra coisa que ele me ensinou. Em contrapartida eu disse que ele era viciado em tristeza e acho até que peguei pesado com ele...mas se o fiz é porque quero que ele seja feliz. E sei que ele me entende, mesmo eu não pedindo.
A gente se afastou - eu e o Igor - e dói, mas a gente acaba se afastando de quem não deveria mesmo sem querer...tipo o meu irmão, eu me afastei dele também...ou ele se afastou de mim...ou nós nos afastamos, não sei. A gente nunca conversou muito sobre coisa séria...nisso a gente sempre se compreendeu em silêncio, e hoje eu sinto falta de dizer em voz alta como eu me importo com ele...só pra ele se lembrar, sabe?! Eu sei que ele anda triste e solitário também na cidade lá onde ele mora...talvez a gente se entendesse. Minha mãe cobra isso de mim, comunicação familiar! Ela acha que o meu silêncio é a confirmação de que eu não me importo e prefiro não saber de nada, a gente nunca se entendeu muito...mas eu acabo me informando pelo que eu escuto atrás da porta, e tenho guardado aqui um amor imenso por ela, que vez ou outra eu consigo demonstrar de alguma forma.
Eu ia na psicóloga...não vou mais.
Eu ia no bar toda sexta...não vou mais.
Assisto um filme por dia, com uma bacia de pipoca e um copo de suco...ou de Milk Shake (o que foi o caso hoje). Terminado o filme e o Milk Shake, coloquei a seleção que eu fiz do Radiohead pra tocar, abri a janela e fumei um cigarro...com todo cuidado pra ninguém acordar e descobrir os meus maus hábitos, joguei o cigarro fora, abri a porta, coloquei o copo sujo na pia, fui ao banheiro escovar os dentes e lavar as mãos (eu lavo muito as mãos) e voltei pro quarto escuro pra olhar as roupas estendidas no varal dançando suas sombras na luz da lua.
Minhas mãos congelaram...mas não ligo...não canso de olhar a janela. Eu gosto da minha janela sabe?! Tem umas coisas coladas nela, adesivos da minha banda, flyers de shows, um mini poster dos Ramones, um desenho meu que o irmão de uma amiga minha fez e um Woody que eu ganhei de presente de aniversário do baterista da minha banda. De noite eu abro a janela e consigo ver um pedaço de céu...durante o dia eu deixo ela fechada porque não gosto do Sol me acordando.
A janela do Igor é maior que a minha, mas não tem revestimento nem cortinas...percebi isso quando o Sol me acordou naquele dia...eu deveria ter odiado aquela janela...mas sinto falta dela...sinto falta de muita coisa, inclusive de um sono tranquilo.
Mas hoje fez Sol e eu aproveitei pra lavar a minha roupa suja e mofada, então talvez amanhã o dia seja mais limpo.


Bianca Aragão?  Kamila tavares? Pandora?

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Claquete.

Sempre gostei de coisas muito específicas.
Específicas e aleatórias.
Específicas aleatórias e especiais.
Específicas, aleatórias, especiais e mágicas.

Talvez seja uma forma poetizada de dizer que eu tenho algum transtorno psicológico; ora veja bem...eu preciso estudar, passar um tempo com os meus pais, dar atenção aos meus amigos, andar na rua por acaso, ensaiar com a minha banda, estudar mais...com tudo isso quem tem tempo pra enlouquecer? Se eu pudesse enlouquecer sozinha seria bom...mas quando a gente enlouquece acaba carregando todo mundo que você conhece junto com você, e só de pensar em dar satisfações do meu estado mental pra cada um que me pergunte como eu estou...prefiro fingir minha lucidez até a morte.

Tem gente que cai na bebedeira - Eu assisto filmes.
Tem gente que chora - Eu assisto filmes.
Tem gente que toma remédio controlado - Eu assisto filmes.
Tem gente que corta os pulsos, se joga do prédio, se enforca num quarto escuro - Eu assisto filmes.
Tem gente que cheira pó até perder o nariz - Eu assisto filmes.
Tem gente que consegue superar tudo isso e é feliz na vida - E eu...enquanto tudo isso acontece...assisto filmes.


Uns diriam que é amor pela arte (até que é...mas não no começo), outros dizem que é falta do que fazer (até que é, mas não na maioria das vezes, e aquele desconhecido no ponto do ônibus, pelo jeito de olhar meio estranho acabou me dizendo telepaticamente que é porque eu quero me tornar uma pessoa culta, mas eu respondi telepaticamente que era mentira.

Eu aprendi uma coisa nesses anos de faculdade - nem toda pergunta precisa de resposta, e sinceramente...a busca pela resposta na maioria das vezes é mais gratificante que a responsta em si. Não tem isso de verdade absoluta, talvez seja por isso que eu permita que cada um pense de mim o que bem entender, e depois quando por destino ou vontade própria acabam vendo quem eu sou, acabo por desconstruir todas as impressões que eu mesma passo. Uma loucura! Um amigo meu uma vez disse que em menos de um ano ele conheceu três de mim, todas diferentes, todas complexas.

Mas existe uma pergunta que eu nunca quis responder - até agora. Porque todo mundo tem alguma coisa que não quer admitir na vida...e eu tenho várias delas guardadas em gavetas escondidas na minha memória...algumas eu até esqueço de propósito.

Porque filmes? - C O V A R D I A .

Eu lembro que quando eu era pequena um dos meus maiores sonhos era voar, e ter alguém que brincasse comigo e nunca se cansasse de mim, por mais que eu ficasse velha e sem graça...alguém que me tomasse como alguém especial pra sempre.
Eu lembro que quando eu era pequena um dos meus maiores sonhos era que existisse um "pra sempre". Eu não podia voar, eu não sabia se meus amigos e minha família ficariam comigo pra sempre, mas eu tinha uma VHS de Toy Story, as solas dos meus tênis da escola todas riscadas e um balanço onde eu podia me sentar, fechar os olhos e ir "ao infinito e além"...

Confesso que passei muito tempo sem os meus companheiros - os filmes. Foi um tempo de busca incontrolável por essa tal de felicidade, essa tal de satisfação pessoal, esse tal de sucesso nos estudos. E com o tempo eu vi que por mais que eu me matasse de estudar eu ia acabar com as mesmas pessoas no ano seguinte, inclusive as que não estudaram; e que no fim alguns deles se deram be na vida e eu não. E aquela menina que ficava se maquiando durante a aula de história acabou casando...e eu senti pena dela, mas talvez ela sinta pena de mim...talvez ela seja feliz.

Minha mãe me deu uma educação moral muito boa. Sempre fui educada e busquei fazer pelas pessoas o que eu gostaria que eleas fizessem por mim...bem...acabaram me pisando. Por ser o que alguns consideram uma "boa pessoa" eu acabei me escondendo em um dos meus mil disfarces, e pelo mesmo motivo eu não tenho coragem de causar mal algum a ninguém...nem a mim mesma.

Na esquina aqui de casa tinha uma locadora... eu sempre locava os mesmos filmes. Entenda...quando eu assistia um filme e gostava muito, eu tinha medo de ir na locadora e gastar o dinheiro das locações da semana com algum filme que não fosse bom, perdendo assim a oportunidade de rever aquele que eu tanto gostava. Me apego, julgo ser meu. Com o tempo aprendi a ver filmes novos, conhecer pessoas novas, cidades novas...saber prestar atenção na fotografia, entender certas características de alguns diretores...aceitar certos defeitos de algumas pessoas, inclusive os meus.

Um dia eu parei pra pensar em como seria a vida daqueles viciados em tudo quanto é droga que tem por aí... o que leva uma pessoa a tentar se acabar aos poucos em troca de uma felicidade de cinco minutos...o que acontece quando ela acaba.
Um dia eu parei pra pensar em como seria a vida de quem ama de verdade e teve um só amor pela vida toda...e lutou por ele, chorou, sofreu mas foi feliz no final...teve filhos, construiu uma família...plantou uma árvore.
Um dia eu parei pra pensar em como seria a vida daqueles que na verdade querem morrer, e não conseguem por covardia, ou por pressão familiar, sei lá...pensei em como seria viver querendo morrer.
Um dia eu parei pra pensar em como seria a vida daqueles que vivem pra matar alguém, e matei muita gente dentro de mim.
Um dia eu parei pra pensar em como seria a vida de alguém como eu, e nesse dia eu me vi em todos os atores, todas as trilhas sonoras, todos os cenários, todas as histórias...nesse dia eu me parti em mil pra não passar por tudo isso sozinha.

Nesse dia eu fugi pro meu quarto e me fundi com uma tela...e todo dia eu repito o mesmo ritual de covardia. Cansei de buscar compreensão porque não é pra isso que as pessoas se aproximam. Elas querem mudar o outro, e eu nunca quis mudar ninguém, porque alguém haveria de fazer o mesmo comigo?

Teve um dia que eu acho que amei. O filme do dia me lembrou que a metade de mim que vivia aquele filme morria de medo de ficar presa entre duas coisas, mas eu sou uma mutante...os outros é que não são.
Teve um dia que eu acho que amei, amei alguém que estava preso entre duas coisas, e fiquei presa entre o filme pausado e a realidade.

Entenda, a realidade é dura...ela é o "pra sempre" que arrasta suas correntes pelos dias que não temm fim. Não sei lidar com isso. Mas entendi que existem muitos amantes do cinema pelo mundo afora, mas talvez nenhum que seja um pedaço de todos eles. E por me fragmentar eu acabei absorvendo fragmentos de uma infinidade de coisas dentro de mim...tem dias que eu acho que finalmente vou explodir, mas os créditos do dia sobem e eu durmo esperando que o roteiro do dia seguinte seja um pouco melhor pra mim.

kamilatavares.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Atestado.

Escrevo esta carta não para justificar as minhas faltas, até porque muitas delas são injustificáveis e não consigo enganar alguém tão inteligente quanto a senhora, mas senti certa necessidade de mostrar que não existe atestado médico para a maioria dos problemas que nos trancam em nossos quartos e ameaçam nos prender pelo resto da vida...ou pior, que ameaçam acabar com o que resta dela.
Ontem eu assisti um filme bom...mesmo com aquela crise horrorosa de asma...o filme era bom mesmo! Se não fosse por ele esta carta seria outra, e amanhã provavelmente todos ouviriam algo sobre a menina que tentou se matar, ou sobre a menina que conseguiu. E você teria que dispensar a classe e dirigir até uma agência funerária qualquer enquanto meus amigos perderiam tempo procurando algum escrito não revelado no meu caderno ou no meu computador. Mas talvez a vida deva ser vivida...
Eu poderia culpar o trânsito, a nova virose (que de fato me atacou e me rendeu uns bons dias de cama) ou o câncer dos meus pais (sim, os dois tem câncer. Sim, faz tempo que eles descobriram. Sim, eles estão bem. Sim, eles estão se tratando. Não, eu ainda não me acostumei com isso. Sim, eu sei que é difícil...obrigada pelo apoio. Sim, eu sei que posso contar com você, obrigada mesmo), mas a culpa é minha mesmo...o ser humano não tem estrutura pra aguentar todos os tropeços da vida, e em um deles eu acabei caindo aqui na minha cama com a porta do quarto trancada, uma infinidade de filmes e pouca ou quase nenhuma comida. Perdi alguns quilos e quase toda a imunidade que me restava, minhas unhas quebraram e meu cabelo cai aos montes, devo ter algo grave...esse tal de sofrimento! E não posso sair na rua porque alguma regra social me diz que fora de casa eu sou obrigada a sorrir.
Tentei cumprir seu cronograma duas ou três vezes, li os trabalhos, fiz uma boa apresentação...mas acabo por lhe desrespeitar quando a sua fala some na minha frente e toda a sala branca se torna uma tela de projeção dos meus devaneios.
Imagine que você encontrou a receita da sua felicidade, e tem certeza que é aquela porque a provou e foi como se todos os planetas tivessem se alinhado perfeitamente em torno do sorriso que se formou em seu rosto, e num piscar de olhos você se viu longe daquilo e engolida pelas obrigações da vida...você sabe onde ela está guardada, mas a prateleira é muito alta pra você alcançar. Pois é!
Minha felicidade não está aqui, entende? Eu sei aonde ela está e não posso ir lá buscar...não agora! E não sei lidar com isso por ser muito pequena pra essa vida tão grande! Foi nesse buraco que eu acabei caindo. E me tranquei no mundo dos meus filmes...eu podia explicar o que eu sinto pelos filmes...mas isso é outra história, a senhora não entenderia agora!
Por isso vim aqui atestar que a minha cabeça está muito cheia para ler aquele livro, e que eu preciso de algumas horas de meditação pra poder processar certas coisas, e preciso também que as pessoas entendam que eu não quero rir todos os dias, e que nem sempre eu vou querer comer, e que a minha saúde não é das melhores, e que eu também tenho fraquezas...sou covarde pra viver certas coisas, e mais covarde ainda pra olhar de frente pra morte...que eu já tentei acabar comigo aos poucos, que eu tenho medo de lutar por certas coisas...mas que eu vivo! Vou tentando! Sou corajosa pra outras tantas coisas...como escrever cartas! Subir em palcos...amar!
Não...não tenho medo de amar! Nunca tive! É algo meu, eu sei lidar com isso...tenho medo é dos outros, do amor que eles dizem que sentem por mim, medo do engano, medo de acreditar...entende? O problema não é o amor, é a falta de confiança! Por isso não espero que você confie ou acredite em mim, quero apenas que leia e entenda que uma dose de Coristina não vai aliviar a febre que eu sinto agora, que um Rivotril não vai adormecer os meus pensamentos e que um atestado médico de três dias não vai me fazer voltar ao convívio social curada.

Kamilatavares.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Lívia.

Sua gargalhada rouca me ensinou muitas coisas em silêncio
e quando escuto algo em espanhol lembro daquela menina
que andava balançando seus cachos pretos
seu sorriso de tarde de domingo
seu cheiro de primavera
suas conversas de filmes
e os olhos pedindo mais dez minutos de cochilo
pra repousar as pernas cansadas de andar por aí
fotografando histórias
catalogando lugares e anotando nomes amigos
sempre
no
diminutivo.

Kamila(zinha).

domingo, 18 de agosto de 2013

Coração Selvagem

Para ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=OKTRc7x-zCM

"Queria que me devolvesse aquela história que eu te contei
mas pode ficar com o CD da Gal
não quero nada material
que um dia te dei"

Vê? Eu compraria o mundo pra ele se pudesse apagar o tempo que eu dediquei...mas não queria que ele esquecesse de mim, e não queria esquecer dele também. Só não queria que aquela música do Belchior magoasse tanto os meus ouvidos toda vez que eu lembrar que foi pra ele que eu a dediquei, entende? Era a música que eu tinha escolhido pra ouvir com quem passaria o resto de seus dias de velhice comigo, relembrando os problemas e a inocência da juventude que tivemos...
Guardei uma frase pra ele dentro da minha canção, escondi um beijo pra ele nas dobras do meu blusão, dei um gole de cerveja do meu copo...naquele bar...segui a música que ele não dançou comigo. Meu coração é frágil e eu pedi pra visa pisar devagar, ela me atropelou.
Eu errei e não posso nem culpar ele por não me amar, entende porque é tão difícil? Sei que não é fácil pra ele também...o consolei pelo mal que ele me causou pelo simples motivo de ser dessas pessoas que acredita em destino. Não consigo tirar a vida do meu discurso, me desculpe. Se for pra ser um dia, que nossas almas esperem enquanto os nossos corpos se deitam em camas diferentes, nossas almas que esperem pela eternidade que lhes resta, até que a nossa covardia nos abandone...se não for assim que a magia do esquecimento chegue aos pouquinhos enquanto os ponteiros do relógio se arrastam pelas paredes azuis dos nossos quartos, e que um dia a gente abra a janela e se sinta bem sem saber porque.
Claro que eu não me arrependo! Se pudesse teria me esforçado mais...sei lá! Sempre acho que foi erro meu. Mas vai passar...sempre passa, só não queria ter que passar por isso mais uma vez, dessa vez não! Não agora, não ele...que ouviu a minha história da estrela dourada e escutou aquela música do Belchior.
Mas o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente...


Kamilatavares.


terça-feira, 13 de agosto de 2013

Dupla.

Vento frio, café quente
traga-me um amor ao Sol poente
carregado de abraços amarelos, canções sobre o inverno
e um punhado de qualquer coisa que me esquente.

Kamila Tavares e Guilherme Nery.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Ensaio sobre ele.




- Tá fazendo o que aqui sozinha? Você sabe que aqui é perigoso...
- Esperando ele...eu preciso falar pra ele...não sei mais como.
- Ele quem?
- Era Dezembro quando a gente se conheceu, eu estava parada exatamente aqui quando ele olhou pra mim...eu trouxe o chapéu!
- Qual o nome dele?
- Ele tem medo de agulhas...engraçado! Ele ia tatuar o Pi mas sempre desiste, eu sei que é por causa do medo, queria poder ir lá segurar a mão dele e dizer que vai ficar tudo bem, queria fazer tudo ficar bem!
- Você perdeu ele? É isso?
- A gente se perdeu, nem sei como...eu lembro a primeira vez que ele disse que gostava de mim, era engraçado como ele colocava a mão na boca pra rir, ele nem sabe o quão bonito fica...ele acha que é alguém triste, mas eu vi nos olhos dele que não é! É uma defesa pra não se decepcionar, é medo da felicidade...eu sei lá! Essa coisa de se acostumar a viver naquela tristeza...não era pra ser assim, ele devia lutar sabia?! Alguém deveria avisar que ele não precisa ter medo, a gente tem que aceitar que as coisas dão certo, não precisa ter medo...
- Como ele é? Talvez eu tenha o visto por aqui...
- Ele gosta de Radiohead, o herói preferido dele é o Homem Aranha, ele adora HQ e os filmes do Tarantino...gosta do Wagner Moura, me mostrou os poemas do Mário Gomes,  de vez em quando inventa de gravar vídeos pra internet...é besta pra rir! O sorriso dele é lindo sabia?!
  Tem uma música do Justin Timberlake que ele faz uma dança muito engraçada quando escuta, não consegue falar inglês rápido, mas entende bem. Ele escreve...muito bem, mas não acredita...ele devia acreditar mais em si mesmo. É ator, fotógrafo...sabe tocar uma música no violão, que eu ensinei! Ele aprendeu tão rápido...se eu tivesse tido mais tempo hoje em dia ele tocaria melhor que eu! Amor não faltou...faltou tempo. Ah...ainda tem um seriado sabe?! Ele imagina tudo e vai criando personagens...a história é bem complexa, ele me explicou uma vez no carro...ele é meio perdido mas dirige bem. Consegue ser calmo naquela cidade de gente louca, é aquilo que toda mãe chama de "menino de ouro"...ele é amoroso, cuidadoso, carinhoso, atencioso...inteligente, sagaz, esperto...bonito! Mas ele não sabe disso...sei lá...ele não acredita! Como pode ele não acreditar? Ele vai ser um pai maravilhoso sabia?! Ele não vai ser só como eu...
- Mas como ele é? Fisicamente!
- Ele é assim...maravilhoso!
- Me dê UMA característica física dele!
- Ele tem ombros bonitos...magneticos, os olhos são castanhos de poesia...e quando ele ri eu esqueço tudo que é de ruim que existe no mundo.
- Faz tempo que você o procura?
- Procurei a vida toda, só não sabia que era ele!
- O que você está esperando pra dizer?
- Tudo!
- Diga uma coisa desse tudo.
- Feliz aniversário...as coisas ruins vão passar, você vai aprender, vai se tornar alguém mais maravilhoso do que já é, se é que isso é possível...aniversários são bons, acredite! Eu ia fazer uma surpresa pra você, mas não consegui chegar aí, tive uma prova na faculdade, tive medo de você não me receber...sinto tanta saudade que dói mas não guardo nada das brigas...só as coisas boas.
- Isso faria algum sentido pra ele? Porque eu só entendi a parte do "Feliz aniversário".
- Tudo que eu digo faz sentido pra ele...
- Ele vem te encontar aqui?
- Não...ele mora longe...
- Então porque você tá esperando ele aqui, se sabe que ele não vem?
- Porque ele não acha justo que eu espere...eu pensei que ia passar, mas não passou...então continuo esperando...
- Porque?
- Porque eu nunca pedi nada em troca.
- É isso que é amor?
- Não sei...dizem que o amor é tanta coisa, mas talvez seja mesmo, porque?
- Eu só tenho 12 anos, vivo aqui na rua, não sei o que é amor de mãe...nunca fui na igreja então também não sei o que é amor de Deus...e uma vez uma velha que tava sentada naquele banco alí disse que amor era quando a gente esperava. Sei disso porque ela disse que estava esperando o marido dela sair do hospital...todo dia ela vinha e esperava então eu perguntei...mas você não é velha. Então eu posso esperar também, certo? Pelo amor?
- Todo mundo pode...
- Espero que você encontre ele...
- Obrigada, vou encontrar...
- Tchau.


Kamilatavares.

http://www.youtube.com/watch?v=QFKcvrnlZmg

Feliz ano novo, Minhoca.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Quimioterapia.

      Se eu diminuir o volume do som consigo escutar eles conversando do outro lado da porta, se eu descansar de olhos fechados consigo sentir eles me espiando parados na porta, consigo ouvir seus pensamentos sobre como eu cresci...sobre como eles não querem que eu vá embora.
      Essa semana um estudante de medicina foi falar comigo no hospital...ele recolhia histórias e tinha aquele brilho nos olhos de quem nunca viu a morte e ainda pensa que vai conseguir salvar todo mundo. Andei lendo o que ele e tantos outros escreveram sobre nós...jovens heróis...jovens guerreiros...exemplos de vida.
      É preciso ter a certeza que a morte está chegando pra ser exemplo de vida? Mas se todos sabem que um dia vão morrer porque não aproveitam logo ? Eles pensam que vão ter todo o tempo do mundo...a diferença é que eu sei que não o tenho.
      É duro pra mim dizer isso, mas a realidade é bem diferente dos filmes, e eu demorei pra aceitar isso em meio a minha terapia de no mínimo um filme por dia. Na minha realidade o grande amor da minha vida que iria cuidar de mim até o dia em que eu de fato vá embora não existe; eles tem medo...e os que não tem eu tratei de afastar, quer saber porque? A gente não aguenta esse olhar de pena que vocês nos lançam. É como viver o seu velório durante meses...repetidas vezes.
      Não tenho escolha a não ser lutar, ser "guerreira"..."exemplo de vida" não é uma opção pra nós, é uma obrigação! Por mim eu me sentaria numa cadeira e esperaria pela morte assistindo o que o cinema tem de melhor. Mas quando a visão fica turva e a sua mãe corre da cozinha pensando que essa é a hora final e você sente o tremor daquelas mãos geladas implorando pra que você fique, não lhe resta outra coisa a não ser lutar. 
      A perspectiva de vida vai toda embora, não existe mais "o que eu vou ser quando crescer" ou "quando eu me formar" ou "quero ter dois filhos com você" porque qualquer hora pode ser a última...eles todos sabem, mas se cria um ambiente de enganação pra todo mundo pensar que existe um dia a mais pra se desperdiçar.
      Tentei parar o tratamento por achar que trocar dez dias de hospital por um dia de rua seria bom pra mim...e era! Mas só pra mim! Eles não querem, meu pai chorou...eles são egoístas e querem que você fique o máximo possível mesmo que pra isso o seu corpo vire picles e vegetar seja a única coisa que lhe reste.
      Nesse filme chamado realidade as cenas de vômito são bem mais frequentes que as visitas do par romântico, o expectador consegue sentir o cheiro do hospital, varrer os meus cabelos caídos no chão e escutar meus gemidos de dor quando está muito frio. Deixei de escutar algumas músicas porque certas notas fazem meus ouvidos doerem...
      Quando eu tinha dez anos lembro que eu transformava cada gripe em um evento digno de novela mexicana só pra não ir pra escola e ficar deitada na cama enquanto a minha mãe cuidava de mim e me dava tudo o que eu queria comer. Hoje não sinto nada além de sede e náuseas. A enfermeira vem amanhã...conhecerei a famosa Morfina, que será minha companheira nos próximos e últimos dias.
      Mas de fato eu já morri. Ninguém me contraria mais, por mais irritante que eu consiga ser...quando eu passo pela cozinha e ela está lavando a louça consigo escutar os soluços do choro inconformado. Morri mas Deus ainda não me levou porque preciso passar um tempo consolando os que vão ficar, porque eles ainda são muito egoístas pra me deixarem ir.
      Tentei fazer uma daquelas listas que toda menina do câncer tem sabe?! Aquelas com coisas aleatórias que elas querem fazer antes de morrer...mas descobri que já fiz quase todas elas antes de ficar doente, e o mais engraçado é que essas listas sempre tem coisas perigosas e ilegais no meio, mas ninguém se irrita ou reprova porque afinal de contas, você está morrendo...quase morrer te dá direitos que os vivos não tem! No meu caso eu as fiz e todo mundo se irritou, porque eu não tinha tais direitos. Bebi, fumei, dirigi sem documentos, fiz uma tatuagem escondida, fumei maconha, usei LSD, recusei a cocaína, vi o Sol nascer inúmeras vezes, pulei a catraca do ônibus, faltei aula pra ficar com alguém, voltei pra casa depois de uma festa escoltada pela polícia...e sofri as consequências de tudo. E não me envergonho! Fazer tudo isso quando se tem uma vida pela frente é suicídio...fazer tudo isso quando se sabe que vai morrer é aproveitar a vida que lhe resta. Vivemos constantes paradoxos...e eu vejo beleza nisso. Mas minha mãe que um dia chorou me chamando de marginal e pequena delinquente hoje me santifica...porque a partida apaga tudo o que é de ruim que a gente tem...lava os nossos pecados...tira as notas vermelhas do seu boletim.
      Meus amigos foram todos ficar carecas junto comigo...até duas das meninas foram corajosas. Se espantaram porque eu não chorei...na verdade sempre tive esse desejo secreto de ser careca só pra sentir o vento na minha cabeça e não precisar de condicionador ou passar horas no cabeleireiro. Minha cabeça tem um formato estranho...me lembrei que tinha orelhas. Engraçado comos meus ossos ficaram evidentes, eu acho até bonito sabia?! Sempre fui gordinha...ver os meus ossinhos é um prêmio de consolação. Mórbido, mas é.
      Houve um tempo em que eu pensei que fosse ser carregada nos braços no dia da minha lua de mel...lembrei disso quando acordei sem conseguir andar e meu pai fez a gentileza de me carregar até a sala. Ele já está velho - o meu pai - mas tem mais saúde que eu! Um dia ele disse que se pudesse trocaria de lugar comigo...ele não sabe que eu escutei isso...eles não sabem que eu escuto muitas coisas.
      Um ano se passou desde o começo, e já estou muito mais fraca...há 365 dias eu vivo o último dia da minha vida. Fiz um cupcake pra comemorar, mas não consegui comer ele inteiro. Meus ossos não doem mais, o que dói é ter que consolar todo mundo todos os dias até eles se convencerem de que eu não vou estar aqui no Natal...e toda noite eu me preparo pra viajar quando adormecer...minhas malas estão prontas, estou esperando o trem partir.

domingo, 4 de agosto de 2013

True and Hate

Não existe universo que seja culpado, não há destino que explique...hoje o seu único inimigo é você mesmo!
Culpe as estrelas, culpe o calor, culpe a cerveja em demasia e a tosse que o cigarro te causou...culpe a mim!
Não sei até quando vou aguentar o ódio que você tem por você mesmo, não sei como consigo lutar por nós dois! Mas é ódio o que sinto por mim também...quando deixei de cumprir com a minha palavra e quebrei meus códigos de honra por você que é tão assim...desse jeito que eu não sei nem dizer.
Nos odiamos e você jura ser amor, depois some e eu me enraiveço por não poder chorar mais, por ter me quebrado no meio do caminho...
Eu devia ter tomado o resto daquela cerveja e demorado mais um pouco se soubesse que não faria diferença...devia ter prestado atenção no filme...devia ter me soltado, te soltado...ou me prendido de vez a você...não deveria ter ido embora pra não ter que ver tudo se repetir.
Assisto filmes repetidos, e outros tantos filmes se repetem na minha vida, você vai virar mais um deles: O menino que se odeia, e que por se odiar me ama, e que por me amar se odeia, e que por se odiar faz com que eu me odeie também, e que por me odiar eu o amo...uma doença...uma agonia!

Kamilatavares.

domingo, 21 de julho de 2013

Pi.

- Bem, vai parecer estranho, mas deve fazer uns dez minutos que eu te observo daqui sabia?! Se você realmente quer se jogar, eu tenho duas coisas a dizer: A primeira delas é que o prédio só tem 20 andares, você ficará consciente a queda toda e provavelmente se arrependerá no meio da trajetória, garantindo assim os piores 10 segundos da sua vida. A segunda é que eu serei indiciado como suspeito de um homicídio, então , eu tenho a inevitável missão de te persuadir e convencer você a não fazer isso.

O susto quase a fez cair! Se reequilibrou no parapeito, olhou em volta...viu aquele estranho parado ao lado da porta que dá acesso ao terraço da cobertura e arqueou as sobrancelhas. As luzes foram propositalmente apagadas a fim de que ela pudesse aproveitar a iluminação noturna dos postes na rua, da lua e dos faróis dos carros que passavam lá embaixo.

- Na verdade eu ainda não decidi se me jogo agora ou sei lá...me entupo de remédios...então já que você não quer ser suspeito de nada, sugiro que me deixe decidir sozinha! Esta cobertura é o meu lugar.

- Engraçado - disse ele se aproximando - eu sempre venho aqui pensar nas merdas da vida quando me sinto mal...há uns cinco anos...desde que moro aqui. Então acho que - na verdade - esta cobertura é minha! Você quem está invadindo a minha propriedade.

- Então por onde você andou no último mês? Porque eu venho todas as noites aqui decidir se pulo ou não e nunca te vi por aqui!

- Viajando...negócios...enfim! Parou por um minuto perdido nas lembranças de suas noites insones e mórbidas... - Me chamo Igor...Igor Tavares.

Ela olhou brevemente para o rosto do estranho, deu de ombros e voltou a fitar a calçada.

- Não repare no bigode, não sou mexicano nem nada...preciso manter pra uma peça...um musical.

- Não reparei no bigode...na verdade não reparei em você, está muito escuro e eu estou sem óculos...enfim.

Seguiu-se um silêncio que o incomodou. Ela continuava indiferente.

- Não vou dizer meu nome ok?  Não quero que crie nenhum laço comigo.

- Desce aqui então pra gente conversar um pouco, quer um trago?
vou te chamar de senhora pi, ok?

- Que tal você subir? Porque Pi?

- Daqui dá pra pra ver um Pi tatuado no teu antebraço...

- Observador...já vi que não é tão cego quanto eu!

- Não, já fui...sou mais não.

- Cirurgia?

- Isso, justamente...você é médica?

- Não importa...na verdade se eu fosse médica não me importaria...eles nunca se importam
mas já que você perguntou...minha mãe era médica...psiquiatra.

- Nossa...uma profissão até agradável, hein?!

Ela deu de ombros mais uma vez e ele começou a se sentir desconfortável com a situação.

- Bem...já que tu pode...digamos que...se matar. Eu terei a chance incrível de poder ser totalmente sincero e saber que você levará tudo pro caixão.

Ela riu timidamente por três segundos e quarenta centésimos. Ele cronometrou seus olhos se fechando enquanto os lábios desenhavam uma gota de descontração em suas maçãs do rosto.

- Então me conte o que você quiser! Me diga o seu segredo mais sujo e eu levo ele junto comigo pra calçada lá embaixo, e de lá pro inferno.

- Bem, eu gosto das músicas do Justin Timberlake...não, pera...tem piores.

- Me conte então! Eu - por exemplo - se estivesse na sua situação, vendo alguém querer se jogar...
não hesitaria em empurrar a pessoa sabendo que nunca levaria a culpa pela simples vontade de saber como seria matar alguém.

Igor sobe no parapeito e se senta ao lado dela naquele que ele julga ter sido o ato mais corajoso que ele cometera nos últimos tempos; respirou fundo buscando reunir as ideias e - principalmente - não gaguejar. Tentou manter a conversa da forma mais natural que pôde.

- Sendo assim, deixa eu ficar aqui do seu lado, só assim posso morrer pensando ser um herói.

- Mas quem vai morrer hoje sou eu, esqueceu?
Se quiser seguir minha sugestão e me empurrar eu juro que não volto do além pra te denunciar.

- Tá certo então.

A sirene de uma ambulância que passava apressada na rua ao lado prendeu a atenção dos dois até se esvair.

- Tá frio aqui em cima, poxa...e a visão daqui é terrível, dá até vertigem - disse Igor.

- Labirintite? Ah...esquece esses diagnósticos! Me dá um cigarro? Tá mesmo frio!

- Droga, esqueci a carteira lá embaixo, vai pegar, to com preguiça.

Ela olhou pra ele naquilo que foi um misto de revolta e riso, fez que não com a cabeça e deu um meio sorriso enquanto descia pra buscar os cigarros....

- Você quer que eu desça e desista! Não importa...eu volto amanhã - Subiu no parapeito e arqueou as sobrancelhas em sua teimosia - Eu gosto da vista daqui...gosto de tirar os óculos e olhar as luzes...é como se eu fosse uma câmera com o obturador aberto sabe?!
enfim...

- Câmeras...esse último fim de semana eu estive lá em Guiné Bissau com uma Canon no pescoço, acho que você teria gostado de lá tanto quanto eu.

- Provavelmente...

Tragaram ao mesmo tempo e passaram uma eternidade de trinta segundos em silêncio observando a fumaça e as luzes dos apartamentos do prédio vizinho.

- Eu tenho uma coleção de analógicas. Quando eu morrer...enfim...moro no 314...você pode ir lá pegar. Pode ficar com uma copia da chave.

- Vou tentar lembrar disso, não que essa seja uma situação comum, tipo, estar do lado de uma suicida, mas...
eu sou atrapalhado, esquecido...relapso!

- Faça um esforço, não sou qualquer suicida, sou uma suicida que vai te dar uma coleção de câmeras! Mas sou uma suicida covarde...então pode demorar um tempo...

- Tá certo então...bem, sei lá, tá tarde e frio - gaguejou ele - eu deixo tu subir de novo, prometo! Mas é que eu deixei uma lasanha deliciosa pra matar minha larica lá embaixo e aposto que não vou conseguir comer tudo aquilo sozinho...quer dar um pulo lá?

- Lasanha de que? Com molho de que? Não quero desperdiçar minha última refeição com carne moída e molho de tomate comprado pronto de caixinha.

- Você tá com sorte senhora pi, é de carbonara...molho branco.

- Molho branco...minha especialidade!

- Duvido ser melhor que a minha...

- EI EI EI, Calma rapaz...se desequilibrando assim você vai acabar caindo antes que eu caia e eu vou ter que comer a lasanha sozinha!

- Desculpa! Vacilo meu...enfim, vamos descer?

Eles descem do parapeito e pegam o elevador, e antes que ela pudesse se perguntar onde ele morava, eles chegam ao apartamento 505.

- Conhece o restaurante italiano no final da rua?

- Sim sim conheço, o que tem ele?

- Eu trabalho lá!

- Sério?! Uma cozinheira! Mais uma informação...te chamarei de "Mestre Pi" então!

- Ok, Tavares. Já que você vai me acompanhar na minha última refeição, não me custa nada te dizer onde eu trabalho.

Ele abre a porta e é recepcionado calorosamente por uma cadelinha de laço rosa.

- Ai meu Deus esqueci de amarrar a Nina, ela vai te sujar toda!

- Sem problemas, eu gosto de cachorros - Disse ela enquanto olhava em volta estranhando tanta organização  - Vem cá...você é algum psicopata ou serial killer?

- Bem, acho que não...não tenho coragem de matar uma barata.

- É que o seu apartamento...é...meio que...MUITO ORGANIZADO! Além disso você tem um cachorro, salva mocinhas do suicídio, deve gostar de crianças, fazer algum tipo de caridade...só pode ser um sádico.

- Ah claro, faz todo o sentido do mundo! - Disse irônico.

- Não acredito em boas pessoas.

- O máximo de agito da minha madrugada é ver Toy Story comendo Nutella, maaaas... como estamos em uma zona fantasma da sinceridade, posso dizer que gosto de...como eu posso explicar isso...gosto de observar filha da Senhora Jacqueline descer nos fins da tarde pro trabalho. Aqueles cabelos vermelhos e o jeito estranho que ela tem de se arrumar... me fascinam sabe?! Um dia eu crio coragem pra dizer tudo isso a ela - Disse ele enquanto ria nervosamente e pegava um vinho.

- Um Stalker...sabia!

- A primeira vez foi coincidência, eu estava descendo pra sair com a Nina e esbarrei com ela. Eu usava um boné e óculos escuros, você nunca me reconheceria...sou daquelas pessoas que são coadjuvantes da própria vida.

- Não seria difícil, não reconheço nem a mim... - Disse indiferente.

- Tá bom - Ironizou - senta ali ó...tá ali teu prato, pode começar sem mim, vou ver se acho um vinil bom aqui...deixa eu ver...Cartola, Cazuza...

- Se escolher alguma porcaria eu vou embora!

- Djavan...Fagner...GAL! Isso...Gal Costa!

- Seus vinis estão em ordem alfabética?

- Sim, porque? - Perguntou hesitante.

- TOC? "Ai meu Deus...os diagnósticos, prometi parar com eles" - Pensou alto.

- Prefiro não falar sobre isso.

Ele se levantou, colocou o vinil pra tocar e sentou apreensivo com o seu vinho e seu olhar curioso.

- Minha mãe tinha TOC, mania de psiquiatra achar que tem tudo no mundo, coitada...eu tinha pena dela...

- aposto que ela também tinha de você...reciprocidade...a alma do negócio! Toda e qualquer relação só se sustenta com reciprocidade, até o ódio! Odiar alguém que não te odeia é horrível, não há relação, saca?

- Claro... - Deu de ombros - e foi por passar a vida sentindo pena de mim, que ela começou a se odiar por ter gerado alguém tão...desprezível...então ela foi embora...não sei pra onde...sumiu, melhor assim! Pobre Jacqueline, ter uma filha que não sente a sua falta...

Ela viu troféus na prateleira, andou até lá e pegou um deles. Ele se levantou num susto e correu até ela tomando o troféu de duas mãos e o alinhando na prateleira de volta. Respirou fundo...conferiu se estava tudo no mesmo lugar e olhou pra ela num misto de alívio e censura, ela retribuiu com olhos assustados.

- E a lasanha? Você mal tocou nela!

- Se eu quebrar os seus troféus você cria a coragem que eu não tenho de me matar? Ah...e a propósito, se você banhar o frango com um pouco de vinho e não tiver medo de testar temperos para o molho a lasanha fica melhor, mas está boa assim de qualquer forma.

- Acho que você teria que tocar fogo nesse apartamento pra eu ter coragem de te matar, ou ao menos de dizer que você é ruim por ter quebrado os meus troféus. E obrigada pelas dicas, tentarei mudar os temperos na próxima.

- Você não me conhece...como sabe que eu não sou ruim???

- Você ajudou a velhinha atravessar a rua na última quinta. E a sua blusa do AC/DC me denuncia que você é uma boa pessoa...

- Então me conte...o que você sabe sobre a filha da Jacqueline?

- Porra nenhuma... sei que ela sempre vai do restaurante pra casa...nenhuma fresta na porta...nenhuma pista sobre namorado...nenhuma compra absurda na padaria ao lado. Só os mesmos cabelos vermelhos e o olhar preto como uma graúna, vazio.

- A filha da Jacqueline é a menina sem qualidades.Sabe porque?

- Porque?

- Ela é alheia à dor humana. O ser humano se orgulha da dor que sente...se aprisiona nela, acha bonito. Se alguém morre...quem mais sente a dor é a melhor pessoa. Competimos pra saber quem sofre mais. A filha da Jacqueline não se importa com isso. Por desprezar a dor ela não tem namorados, por não sentir as perdas ela viu todos irem embora...
por isso não há muito o que saber sobre ela.

Ele revirou os olhos e se voltou para o seu vinho, desprezando o discurso dela, que continuou divagando.

- Por isso talvez não seja justo alguém assim continuar vivo.

- Escuta agora o que eu vou falar, tá certo? - Disse ele tentando interromper o monólogo interminável.

- ...não existem frestas na porta...vivo lendo no meu quarto. Sim, fale.

- Tá, escuta... - bebeu mais vinho, tirou a blusa...a casa estava quente, respirou fundo e criou coragem pra falar: Sabe mestre pi, eu... já vivi coisa pra caralho nessa vida estranha e desde que virei ator,não paro em canto algum; vivo mudando de lugar, passando uns meses aqui e outros acolá; tenho esse apartamento aqui porque venho visitar meus pais e porque eu tenho que ter algum endereço pra receber minha encomendas.  Os últimos tempos me fizeram ficar aqui...as pessoas não querem muito ir ao teatro. Na verdade nem eu mesmo quero mais, e apesar de fazer ponta em cinema, acho que nasci pr'aquela bagaça que tá de definhando...mas isso não vem ao caso.

- Eu gosto do teatro - disse ela tentando dar sentido ao que ele falava - enfim...continue.

- O que quero que você saiba é que se eu realmente fosse morrer eu iria querer pelo menos ouvir algo significante...

Enquanto Igor falava, ela lhe lançou o que julgou ser o melhor que pôde dar do seu olhar de reprovação e de "eu não preciso que você diga algo significante por pena de que eu morra sem ouvir algo especial", mas não disse nada...o deixou falar.

-  Bem...eu gosto dos seus olhos, dos seus cabelos e das roupas estranhas que você usa, mas o que eu gosto mais de você Mestre Pi...o que eu mais admiro em você...e é o que me faz estar aqui perdendo o meu tempo é esse desejo incontrolável de querer ter conversado contigo algum dia...ter conhecido você, embora isso não faça sentido. Esse imã que me faz aproximar de você...eu to viciando em te ver. Meu coração quase pula pela boca enquanto eu falava contigo sereno; parecia que eu estava no municipal com centenas de pessoas olhando minha performance enquanto eu tentava continuar sereno, calmo, tranquilo...

Ela enrugou a testa tentando achar algum significado lógico em tudo que ele tinha dito daquele jeito gaguejado e nervoso. Não encontrou resposta.

- Acho que o vinho está fazendo efeito - Concluiu Igor em meio a sua decepção - estou falando mais do que deveria...enfim, a chave está na porta, se quiser voltar, claro...

- Quer saber meu maior segredo?

- Manda...

- Há um mês atrás...eu encontrei minha cura.

- Qual?

- Você acabou de ver...lá fora!

Desta vez foi ele que enrugou a testa tentando entender o que ela dizia, mas ela - mais uma vez - o desprezou e continuou a falar.


- Existe uma linha invisível entre a vida e a morte, a coragem e a covardia, a atitude e a inércia. Lá em cima eu consigo andar em cima dessa linha...lá eu me sinto viva...porque sei que se eu der um passo posso morrer! Lá em cima...eu deixo de desprezar a minha dor. Talvez eu não precise subir...mas fazer aquilo todos os dias me impede de morrer por dentro
o que - afinal de contas - é a pior morte.

- Digamos então... que eu seja a morte; que estou esperando você por todos esses dias, afinal de contas, me explique como você chegou hoje ao térreo? Ou melhor! Me explique como está usando essa blusa branca de botão que nem existe no seu armário...melhor ainda, me explique porque você está deitada em minha cama nua se estava agorinha mesmo em pé, em frente a porta do meu "apartamento"...porque não me beija? Porque não termina logo isso de uma vez?

Ela arrumou o travesseiro, abotoou a camisa, bateu as cinzas do cigarro e olhou pra ele frígida.

- Porque se você é a morte eu preciso dormir todas as noites com você na dúvida do que será feito de mim pra poder me sentir viva.

- Então venha, me use e não me beije. Fode com a morte...durma com o inimigo sua piranha! Nas não esqueça de apagar as luzes quando sair...

Ao contrário do que ele pensava ela não se ofendeu; levantou lentamente e andou até a janela. Prendeu os cabelos assanhados e deixou que ele a olhasse vestindo sua camisa, e apenas ela.

- Se eu te beijar vou ser sua, é isso que você quer? Vou deixar de ser alheia a sua dor pra sempre e vou te perseguir como você fez comigo.

- Engraçado, eu to viciado em você.

- Você quer que eu seja alguém como você?

- Fazer com que você me beije, assim de forma rápida, não terá brilho. Eu quero que isso se torne algo apoteótico...na verdade eu amo tanto você que eu queria que você me matasse, me esfolasse..."matar a morte e matar a terra fazendo com que isso tudo exploda de uma vez deixando todos vivos sem mais esforço meu!"  Bem...eu estou apaixonado por você como um ator barato de uma novela mexicana. Mas vamos fazer o seguinte: Durma, amanhã nos encontraremos lá de novo, você acordará no parapeito e não lembrará de hoje; assim podemos repetir essa mesma noite todos os dias...um dia eu te acordo do coma e quando você descobrir o looping será maravilhoso!!
  Ou me beije agora e nunca mais sentirá a sensação de estar viva pelo simples motivo de quase morrer.

- Você é o meu ator barato de novela mexicana...eu sou alguém sem sentimentos nem qualidades...você irá dormir na sua embriagues apaixonada enquanto me olha fumar um cigarro aqui na sua janela...vai acordar sozinho na cama e esperar a minha volta no frio da cobertura todas as noites. Vou te beijar antes de ir embora...enquanto dormes...e vou viver sabendo que alguém me espera todos os dias até o dia em que jogue a minha covardia de cima do prédio e acabe com isso de vez.

- Você fez a sua escolha...durma bem, minha linda...Bianca Aragão! Tenha bons sonhos.

- Como você sabe o meu nome?

- você não gostaria de saber...

- Maldito seja! - Disse ela enquanto olhava ele finalmente cair no sono.

Juntou o resto de suas roupas, observou ele dormir por uns trinta minutos, finalmente lhe deu o beijo prometido e foi embora deixando um bilhete que dizia: Até um dia...



Kamila Tavares e Pedro Aragão.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

O pedido.

- Sabe qual é forma de expressão mais nobre do ser humano?
- O amor?
- Não! A dedicação...porque ela está diretamente relacionada ao tempo! O tempo é a coisa mais preciosa que existe!
- O tempo? Claro que não! O amor é a coisa mais preciosa que existe!
- É aí que você se engana! Eu posso te amar enquanto durmo, enquanto como, enquanto fujo de casa, enquanto minto pra você e fico com outra pessoa...não existe exclusividade no amor! Posso te amar sem que você saiba e o verdadeiro sentido do meu amor nunca será apreciado por outra pessoa além de mim! Mas o tempo - e a dedicação - que eu te dou, são exclusivamente seus e de mais ninguém, as horas do meu dia que te dou são meus bens mais preciosos...e ninguém pode tomá-los de ti nem em um milhão de anos! Já o meu amor? Pode ser tomado por outro alguém a qualquer momento e não lhe restará um gota dele para ser lembrado!
- Tem coisas que você fala que fazem tão sentido que chegam a me dar medo sabia?! Porque ao mesmo tempo que nunca ninguém parou pra pensar nisso, quando você fala e torna tudo isso verdade aos meus ouvidos me parece uma realidade tão óbvia que eu não sei porque nunca enxerguei...
- Você sabe qual é a minha teoria sobre os presentes, não é?!
- Sei sim, que um presente quando é feito pela pessoa que te presenteou, tem muito mais significado do que uma simples compra de shopping...e por mais que seja uma compra, que contenha algo feito à mão, que tenha um pedaço da pessoa...
- Porque você acha que eu prefiro assim?
- Porque uma compra banal é só um objeto, quando tem um toque pessoal tem mais amor!
- ERROU OUTRA VEZ! Preste atenção no que eu acabei de lhe falar!
- Eu prestei atenção, me fale mais sobre...
- É TUDO PELO TEMPO, MEU AMOR! Se você vai no shopping pagar uma conta e lembra do meu aniversário, compra um vestido, pede pra moça da loja embalar pra presente e me entrega - por mais bonito que o vestido seja e por mais que eu venha a gostar dele - só vai lhe custar mais uma parcela no cartão, entende agora o meu exemplo?
- Sim, agora eu entendo!
- Mas se você compra um vestido da minha cor preferida, prepara uma carta, uma surpresa...talvez uma caixa, ou me entrega em uma ocasião que não seja especial...se você anota em um pedaço de papel uma letra de música que eu gosto e coloca um laço de fita mal feito enrolado em um papel de jornal, eu vou saber que aquilo foi feito por você! E principalmente vou pensar nas horas que você gastou do seu tempo pra pensar naquilo e pôs as mãos em algo que achou que fosse ter algum significado pra mim. Se você me compra um MP3, eu não sei o que você quis dizer com isso...se você me compra um MP3, enche ele de músicas e me entrega, eu ganho todo o tempo que você gastou escolhendo as músicas, e vou tentar achar um significado pra cada uma delas, então você ganha o tempo que eu gastei tentando decifrar o seu presente...e isso sim, torna algo especial...e talvez eu nunca precise mudar a seleção de músicas daquele MP3...
- Então em suma, o amor é uma troca de tempo!
- Exatamente!
- E quando os relacionamentos acabam? O nosso sofrimento não é porque acabou o amor?!
- Em parte - muito pequena na verdade - porque a nossa maior lamentação é sobre o tempo que perdemos e as horas que dedicamos e doamos para alguém que foi embora...você chora porque a pessoa levou o seu tempo, e não o seu amor! Se você conhece outro alguém e é feliz com essa pessoa, magicamente tem todo o seu amor de volta para compartilhar...ou seja: a última pessoa de amor não levou nada! Mas o tempo que você passou com ela é irreparável!
- Então além de dinheiro, tempo é amor?
- E poder! Se me perguntassem hoje se eu acredito em Deus, eu diria que sim...meu Deus é o tempo! Ele controla o dinheiro, o amor, o poder...o tempo sabe de tudo, porque tudo passou por ele. Sem tempo deixamos de ser humanos...não dormimos, não comemos, não amamos...o tempo nos cura das maiores dores, e nos chicoteia com as piores doenças. A ausência dele separa os seres humanos uns dos outros e causa o caos, a sobra dele nos dá tanto tempo pra pensar que engordamos e nos tornamos depressivos...Por isso precisamos estar em comunhão eterna com o Deus Tempo, pra que se consiga o equilíbrio perfeito e se possa viver em paz!
- Um belo discurso pra explicar o tempo que você gastou embrulhando esse presente e escrevendo essa carta pra mim. Talvez seja a prova de que você me ama de verdade, já que está tão bem feito...parece ter lhe custado muito tempo.
- O "discurso" - se assim você o chama - não foi pela caixa...muito menos pela carta. Foi pelo que está dentro.
- Um relógio! Eu esperava uma resposta...mas você sempre me deixa com mais perguntas...o que isso significa?
- Todo o meu tempo! ele agora é seu!
- Então você aceita?!
- Sim, eu aceito.

Kamilatavares.

domingo, 2 de junho de 2013

O de sempre...


Você vai ficar nervoso e procurar a hora certa pra me falar a coisa errada; que eu fui a pessoa certa na hora errada...que o problema não é comigo, é com você! Porque afinal de contas, que problema poderia ter uma menina bonita e inteligente? Divertida, com bom gosto musical e para filmes, que sabe cantar e tocar violão e ainda por cima cozinha bem? Mas eu não vou acreditar em você porque todos dizem a mesma coisa, seguida de um "mas..." que me assombra.
Mas como eu "sou uma pessoa forte", vou dizer que respeito a sua opinião, que vou continuar sendo sua amiga e que vai ficar tudo bem; mas não vai! Daí então eu vou chorar, começar a comer feito uma louca, depois vou ficar sem comer por dias, vou faltar aula, fumar mais, beber mais, fazer coisas que eu com certeza vou me arrepender depois, vou passar dias trancada no quarto, depois vou sumir de casa e vou dizer pra todo mundo que estou bem melhor assim, que nunca gostei de você mesmo...e todos vão acreditar, por pensarem que aquele é o meu estado normal...
Depois vem a raiva. Vou aumentar a dose de Iron Maiden e Motorhead, deixar de escutar as músicas que me lembram você e pedir educadamente que você vá pro inferno e desapareça da minha vida, desejando que você discorde e lute por mim - o que não vai acontecer - pra variar.
Você eventualmente vai se preocupar comigo, vai querer falar comigo pra ter notícias minhas, talvez até bata uma saudade...mas você vai se segurar ao máximo. Depois de alguns dias vai tentar manter algum contato - eu vou chorar mais - e serei fria, mas a verdade é que eu vou tentar vigiar a sua vida por um bom tempo...até a dor começar a passar...
Vai demorar, mas a vida vai soprar outros ventos e quando essa hora chegar eu não vou mais sentir saudades, talvez até guarde alguma raiva...se passar muito tempo talvez nunca mais tenha volta, e você vai virar uma cicatriz bem grande...
Você vai se lembrar da menina que não teve culpa pelo mal que sofreu, e vai conhecer outra garota que talvez nem seja a certa, mas que apareceu em boa hora...e vai tentar não cometer os mesmos erros com ela...talvez ela seja fria e vez ou outra te trate mal, mas você não vai reclamar por achar que é apenas a ordem natural das coisas...por achar que não merece ser feliz de fato...e quando eu descobrir vou chorar mais um pouco, e mentir dizendo que desejo que você seja feliz com ela! Você vai perguntar se eu conheci alguém, vou responder que sim...eu sempre conheço alguém, mas ele também fez a mesma coisa, ou se não fez - vai fazer. Ou talvez eu ainda esteja apaixonada por esse outro cara, e passe as noites desejando que ele não me julgue por quem eu fui, por quem eu sou, pelo que passei...desejando que dessa vez eu tenha chegado na hora certa, no lugar certo, com a roupa certa...desejando que dessa vez seja "A vez" e que eu nunca mais passe por isso outra vez.
Então quem sabe você me deseje um feliz ano novo, e uma vez ou outra veja algo que o faça lembrar de mim...então vamos nos falar e quem sabe rir...mas nada será do mesmo jeito.

- Já escolheu o que vai pedir?
- O de sempre!

Kamilatavares.

domingo, 26 de maio de 2013

O que eu quero...

Seria tudo isso uma praga daquela carta da lua que a minha tia deixou na mesa pra mim? Seria tudo resultado do meu plano reencarnatório querendo me ensinar alguma grande lição que eu só vou saber qual é quando chegar do lado de lá? Só sei que eu não sei mais de nada, e cada minuto de silêncio vai me rasgando por dentro e me causando uma inquietação atípica de mim. Quero fugir, quero esperar o resto da vida, quero sumir, quero morrer na esperança de que um dia dê certo...não quero mais nada!
Só sei que no fim das contas eu que entrei em colapso por não saber o que fazer e passar muito tempo me perguntando o que fiz de errado; dizem ser pessimismo...pra mim é um filme se repetindo! E nunca acaba bem, nunca tem o final feliz que me faz chorar...meu choro no final é de outra coisa...é de outra parte de mim morrendo.
Um dia vou ser feliz na vida, talvez...mas não do jeito que eu queria! Não morrendo cedo assim, me desgastando pelo que talvez nem valha a pena! Não tenho estrutura pra jogo de azar, depois de tantas eu só boto o meu na reta se a vitória for certa, não aguento mais apostar no time errado, e nessas circunstâncias, eu não sei nem que time vai entrar em campo no próximo jogo! Como proceder?
Essa noite eu tive um pesadelo, acordei chorando mas não liguei pra ninguém! Fiquei parada olhando o dia amanhecer e cavando mais o meu vazio...não quero mais falar de bares ou de outros rapazes, não quero conhecer pessoas novas nem acordar sem conseguir lembrar da noite passada...quero minha rede e meus livros, quero as promessas de paz, quero queimar aquela carta e ver o Sol beijar o mar sem me preocupar com nada além das trivialidades da hora do jantar...
Eu quero paz, meu amor! Quero que todo dia seja como o começo de tudo, quero acordar e começar tudo do zero pra relembrar minha risada despudorada e os teus olhos brilhando e sorrindo pra mim, quero que todos os abraços sejam de reencontro e todas as noites de chuva só pra curtir o frio com você...quero poder cuidar da tua tosse e fazer desaparecer qualquer rastro de dia triste com algum comentário engraçado...quero cuidar de você porque fazendo isso eu cuido também de mim, assim eu aprendo a construir laços...e desfazer os nós da minha garganta...assim eu me contento em ser eu, sem medo!


Kamilatavares.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Escritos de guardanapo de bar.





Agora eu sou a moça sozinha no bar, o copo de cerveja sempre meio cheio, mas o pessimismo bebendo ao meu lado me dizendo que a vida anda sempre meio vazia; e não me importo com os olhares dos garçons ou dos caras das outras mesas; não...eu não estou esperando ninguém! Vim sozinha e é assim que vou voltar, qual o problema?
As sinfonias na minha cabeça destoam completamente das músicas animadas que tocam no bar, pessoas dançam. Eu observo.
Não quero fechar os olhos e ver aquela janela grande cortando as paredes azuis que protegem aquele sorriso do mundo lá fora...que trancaram nossos segredos de liquidificador daqueles que não mereciam ouvir...
Quero o meu lar, não a minha casa...
Quero as conversas, as risadas, quero o cheiro dele, o toque, a segurança, a voz dele me dizendo que eu sou um anjo e que tudo vai dar certo! Vai dar tudo certo? O adeus foi um até logo, ou o até logo foi um adeus? Não sei mais de nada...desce mais uma, por favor!
Hoje o dia não tem fim e eu quero apagar pra não correr o risco de mais uma madrugada de olhos inchados...
Pensando bem...dose dupla! É que acabou o meu cigarro...


Kamilatavares.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Babe i'm (not) gonna leave you.




Os primeiros raios de Sol invadindo a janela sem cortinas me obrigaram a abrir os olhos; na verdade eu não dormi aquela noite, mas o misto de tristeza e esperança não me permitiu chorar...ou talvez eu ainda fosse desumana como antes! Na dúvida resolvi testar...
Por mais quente que a cidade fosse o frio me perturbava naquela hora, ele não soltou a minha mão mesmo dormindo...mas me levantei com aquela dor nas costas e aquele aperto no peito que não me deixavam; juntei algumas coisas...ele não acordou, abri a porta e saí!
Parecia cena de filme quando eu vi a porta fechando e o meu campo de visão ficar cada vez menor, o Led Zeppelin tocava insanamente na minha cabeça..."babe i'm gonna leave you..." e minhas pernas tremiam de medo. Precisava saber se seria fácil pra mim simplesmente fechar uma porta e sair - como sempre fiz - sem deixar explicação, adeus, até logo, bilhetinho na geladeira...sem deixar nada de mim, apenas ir... Precisava saber se eu não sentiria nada como era de costume não sentir.

"I said baby, you know, I'm gonna leave you
I'll leave you when the summertime
Leave you when the summer comes a rolling
Leave you when the summer comes along"

Fumei um cigarro, andei pela casa vazia...a música não parava na minha cabeça, repetia...aumentava o volume...escovei os dentes, refleti por horas naqueles três minutos que duraram a eternidade...não consegui, voltei pro quarto.
Ele permanecia imóvel, o Sol iluminando o pouco que eu conseguia ver dos seus ombros, minhas malas arrumadas, os livros, as HQ's, meu violão...e agora? O que eu vou fazer agora? Não sei mais ir embora...o meu super poder foi tirado de mim, e admitindo a minha fraqueza eu voltei a me deitar, segurar sua mão e esperar o despertador tocar.
Definitivamente não sou mais a mesma...engraçado olhar pra trás e pensar nas besteiras que fiz, mas agradeço por todas elas...sem aqueles erros todos não teria a coragem que tenho hoje, nem mesmo a coragem de admitir minha covardia na hora do adeus, e fui covarde de todas as formas que eu consegui ser.
Estava na hora...ele abriu os olhos, sorriu preguiçoso e me abraçou...eu já estava pronta! Quase nada foi dito, acho que nem era necessário dizer nada naquela hora...então ele arrumou o meu cabelo atrás da orelha, beijou meu antebraço e me olhou de um jeito que eu ainda não consegui decifrar... hora de ir!

Kamilatavares - escutando Led Zeppelin.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Diário de Pandora - 26/04/13

Um dia eu vi em um filme que às vezes basta o Sol iluminar de forma diferente uma pedrinha da rua pra gente chorar e entender um pouquinho mais a vida. Hoje a copa das árvores pintaram de verde aquele céu cinza de um jeito que eu me peguei sorrindo do nada; e de repente os meus problemas todos sumiram só de lembrar do sorriso dele e aquela cara boba que ele faz quando escuta a minha gargalhada.
Será que é possível sentir tanta alegria a ponto de pensar que a gente não merece tanto? Porque nessa hora eu me vi em cima do muro entre o amor e a sensatez e tive vontade de jogar tudo fora e correr pros braços dele. Naquela hora o meu Heavy Metal, a fumaça do meu cigarro e aquela raiva toda não combinavam mais comigo e eu só queria sorrir, acordar cedo, colocar um avental, sorrir, correr, preparar uma salada, tomar um suco de Cajá, plantar uma árvore, adotar mais um cachorro e ser feliz! Naquela hora...aquele dia chuvoso virou manhã ensolarada pra mim e - de repente - não havia mais ninguém no mundo que pudesse entender aquilo que eu sentia...só ele!
Por um segundo eu não tive mais medo de tirar a armadura; minhas utopias se tornaram reais e eu me sentia segura. Ele também foi um anjo! Agora eu posso ser eu, agora eu posso largar os personagens e dividir a minha alegria...claro que sem ele ela ainda existe! Até porque é errado depositar 100% da sua felicidade em qualquer pessoa que não seja você mesmo! Mas com ele essa felicidade toda começa a fazer sentido...se é que isso tudo faz algum sentido! Mas se é assim...então que assim seja!

Pandora!


Transcrito por Kamilatavares. =)

terça-feira, 16 de abril de 2013

É você!


Hoje eu me pego sorrindo do nada, hoje eu me olho no espelho e vejo um reflexo bonito...hoje eu não minto quando digo que estou bem.
Minha curta memória tenta manter todas as palavras bonitas que ele me disse vivas aqui em mim, se eu pudesse documentava todos os momentos bons, pros outros historiadores mais descrentes das oralidades pudessem legitimar essa minha alegria toda, e pra que o meu discurso apaixonado não se perdesse no tempo e pudesse viver pelas eternidades dos que virão depois de mim. Na falta de tudo isso eu me agarro ao sorriso dele, esse eu nunca vou esquecer, e nem da dor que sinto nas bochechas me avisando que que não tirei o sorriso bobo do rosto por horas seguidas.
Eu sempre imaginei que um dia fosse viver de um amor pela metade, ou de amor nenhum no fim das contas. Que ia acabar sozinha ou com alguém que estivesse ali pra não morrer só também, ou vivendo com algum amigo que me achasse maravilhosa pra tudo, menos pra amar! Ouvi dizer que eu fiz ele começar a se amar, e ele fez com que eu começasse a me sentir amada! Depois de tanta impaciência acaba que é mesmo verdade isso que dizem que a gente encontra quando para de procurar, e eu andava cansaaaaaaada de vasculhar por ai procurando por nada, e naquele dia de Sol, em meio a todo o meu cansaço, minha falta de disposição e aquele chapéu que eu coloquei numa tentativa de me esconder, ele apareceu sorrindo, e eu nem sabia o que vinha dali pra frente, mas a vida tem dessas.
Não vai ser fácil, muito menos perfeito...mas um dia me disseram que quem tem paz se acomoda e acaba nem aprendendo mais com as dificuldades da vida. E essa coisa meio criança que eu ainda guardo dentro de mim não aguenta o tédio e não me permite acomodações. Pois que seja assim então! Que os meus longos dias pensando sobre a beleza na imperfeição das coisas me consolem quando a saudade bater, e que ele não sofra tanto quando sentir minha falta.
Pois é você porque tinha que ser assim, porque sim, desse jeito conformista mesmo, e ponto final.

Kamilatavares.

sábado, 13 de abril de 2013

Dos contos do verão inexistente.


O Sol andava escaldante nos últimos dias, me lembro que usava um vestidinho solto, havaianas brancas, um chapéu e um copão de suco de cajá na mão, na bolsa sacolas cheias de verduras e frutas, e o meu pão integral. O Toquinho nos meus fones de ouvido não me deixava sucumbir ao mal humor que aquele calor todo poderia me trazer, era um dia bonito, e o mar estava incrivelmente encantador hoje. Nunca fui muito de mar, praia e Sol...mas a passagem pra Londres já comprada e guardada na minha mesa de cabeceira me fez querer aproveitar o máximo de Sol que eu poderia.
Peguei as chaves, olhei a foto no chaveiro...nossa primeira foto! Subi as escadas - o elevador quebrou na semana passada - e abri a porta. O narguille na mesa de centro junto com os joysticks do super nintendo, duas garrafas de cerveja vazias...o cinzeiro sujo, a rede armada balançava sozinha lá da varanda ... ele não arrumou a casa! Mas o almoço de domingo já cheirava bem e a vizinhança inteira escutava Los Hermanos por tabela de tão alto que ele ligou o som, e ainda cantava! Você precisa ver as dancinhas que ele faz enquanto cozinha, canta, me puxa pra dançar...tudo ao mesmo tempo!
Pensei que ele não tinha me ouvido entrar, devido ao barulho ensurdecedor "E ATÉ QUEM ME VÊ LENDO O JORNAAAAAAL UUUUUUUUUH NA FILA DO PÃO...BOM DIA AMOR! TROUXE AS BATATAS QUE EU PEDI?" e eu gritei de volta "DO NOSSO AMOR A GENTE É QUEM SABE PEQUENAAAAAA...BOM DIA AMOR! TROUXE SIM! ESTÃO AQUI...AVENTAL BONITO!!"
Ele finalmente diminuiu o volume do som e veio me dar um beijo
-Obrigada...esse é novo! Minha mulher quem pintou! Muito talentosa!! Te apresento qualquer dia!
- Pois é...ouvi dizer que ela passou a madrugada inteira pintando...Batman né?!
- É sim!
- Bacana...eu tenho um do Iron Man!
- Coloca ele pra eu ver vai!
- Só se você acertar o ponto do molho dessa vez!
- Sacanagem hein?! Quem cozinha os molhos aqui é você!
- Ok...então arrume aquela bagunça na sala que eu faço!
- Combinado!
Fui terminar o almoço, pus a mesa e ele deu uma arrumada na sala e ficou de preguiça jogando Sonic. Sim, trocamos videogames no último natal! Eu ganhei o Super Nintendo e dei pra ele o Megadrive.
- Vem almoçar criatura!
- Pera molier, deixa eu jogar mais um pouquinho!
- Eu deixo, mas ai não vai comer mousse de maracujá!
Ele correu pra mesa imediatamente...abri todas as janelas pra ver se não morria de calor e aproveitei o almoço que estava uma delícia - vale salientar - enquanto conversava com ele sobre a viagem. Os últimos meses foram infernais estudando pra passar no Douturado na Inglaterra, e agora com as malas quase prontas pra ir tudo o que eu queria era aproveitar esse restinho de vida mansa com ele antes de voltar a estudar feito uma louca. Nem acredito que a gente vai morar quatro anos fora, nem acredito que ele ficou tão feliz em ir comigo mesmo largando tudo por aqui - por mais que não seja definitivo - até a gente voltar, nem acredito que as coisas iam dar tão certo pra mim quando eu larguei tudo por ele e deixei minha vida toda lá onde eu nasci.
- Sobremesa Sobremesa Sobremesa!
- Calma, vou pegar!
Antes que eu pudesse servir a mousse dele senti o puxão no meu vestido. Ele tinha dessas coisas de me surpreender, de fazer eu me sentir querida sabe?! Depois de tantas ruins acho que eu andei um pouquinho mas achei a famosa tampa da panela...e nem era quem eu esperava. Aquela minha amargura toda de não querer quem gosta de tal banda ou quem não toca violão ou quem não gosta de tal filme acabou nem funcionando...ele fez bico e de repente já era tudo que eu queria na vida enquanto eu disfarçava minha falta de beleza tocando violão pra ele pela webcam nos tempos em que a gente não podia se ver pessoalmente! Mas depois que a gente se viu foi amor a segunda vista e eu não larguei dele nunca mais!
Vai passar Toy Story na televisão e nós vamos discutir mais uma vez sobre quem é o melhor! Woody ou Buzz, mas eu sei que quando a tarde cair e o cansaço bater ele vai me abraçar e fazer cafuné até eu não conseguir pensar em mais nada. Eu demorei pra descobrir o que era esse tal de amor correspondido, e sei que nada é perfeito nessa vida...inclusive o jogo do Corinthians que eu perdi porque ele queria assistir um filme. Mas quando a minha mãe me liga no fim do dia pra saber como eu estou, a voz que ela escuta é sempre de felicidade.

Kamilatavares.

terça-feira, 9 de abril de 2013

E agora?

Se não faço tudo que você me pede baby
é por puro instinto de me proteger
confiar é tão complicado hoje em dia...
não, não é isso! Eu confio em você

Se eu não passo o dia aqui conversando contigo baby
é por puro medo de não me desprender
de virar esse pedacinho de ti que já me tornei
e na hora que eu for voltar pra casa me perder

Se eu não te deixo me ver todo dia baby
é porque ontem eu chorei, porque sonhei contigo
eu sei eu sei, você também sonhou comigo
e essa lonjura toda da gente me deixa aqui a mercê

Desse amor pela metade que eu tenho que viver

Se eu não corri pra te ver ainda baby
foi por puro medo de tu não querer voltar comigo
e esse receio de te entregar um coração já partido
atropelado pelos caminhões das estradas que andei

Se eu me protejo tanto assim de ti baby
é pra não admitir o quanto eu gosto de você
e pra esconder esse nó na garganta que dá
quando eu acordo todo dia e sei que ainda não é dia

De te ver.


Kamilatavares.

Run!


- Eu gosto de café expresso
- Eu gosto de HQ's
- Eu gosto de tocar violão
- Eu gosto de Radiohead
- Eu gosto de Pink Floyd e Radiohead
- Eu gosto de você!!!!
Ela prendeu a respiração e arqueou as sobrancelhas de súbito! Não esperava por essa...
- Eu também!
- Também gosta de você?
- Não né...de você seu idiota!
- Linda até me chamando de idiota...
- Seu bobo u.u
- Posso confessar uma coisa?
- Fala...
- Eu tou mesmo meio bobo por você sabia?!
- E eu?! Boba e meia!!!
Ele riu e ficaram parados ali...em silêncio por um minuto eterno olhando o outro através da tela, amaldiçoando essa distância toda e desejando insanamente no mínimo um minuto de contato real entre eles...
- Queria que você estivesse aqui...
- Eu também queria estar ai...

E assim os dias passaram...cruéis.

Eles estão voltando pra casa...ela permaneceu calada o tempo todo, era muita informação pra uma noite só...entrou e foi direto pro outro quarto...quase adormeceu...ele entra com um copo d'água na mão e uma desculpa ensaiada, se deita ao lado dela...seu cheio quase a faz parar de raciocinar...
- Desculpa amor... você queria que eu fizesse o que? Ainda não tive como explicar a situação! - Dizia ele quase que sussurando enquanto tentava abraçar sua esperança o mais forte que podia - As vezes eu penso que não nasci mesmo pra ser feliz...
- A questão não é essa Lou, você sabe o que eu penso sobre isso de felicidade, o seu destino quem faz é você, só colhe infelicidade quem planta essas merdas que você anda fazendo...me diga...você ia gostar de me ver com outro?
- Claro que não! Pergunta idiota...mas eu estava de mãos atadas...é complicado mulher...eu já expliquei...e mesmo não querendo ver você com outros eu sei que você ficou com outros caras na minha ausência...enquanto eu passava os sábados esperando você dar sinal de vida.
- É O QUE? Eu passei os sábados bebendo sim, e pensando em você seu babaca...minhas amigas não me aguentavam mais! E vem cá...me responde uma coisa...
- Diga...
- Se eu quisesse ficar com qualquer outro cara, eu teria vindo até aqui atrás de você? Veja os sacrifícios que eu fiz só pra vir te ver! Eu poderia ter ido pra outros mil lugares...eu cancelei viagens com amigos, congressos da faculdade...uma pá de coisas só pra vir ver você...acho que isso diz muito sobre o que eu sinto
- Eu te amo...eu te amo! Quero ficar só com você...
- Sua vez de fazer um sacrifício! Disposto a começar?
- Começo agora...só não quero ver você chorando assim...
- Eu quero água...pega pra mim?
- Eu quero você pra sempre!
- Eu quero você com Marshmallow
- Eu quero você numa piscina de cerveja
- Eu quero a piscina de cerveja
- TRAIDORA!!!
- Também quero o Tony Stark
- Vai ferir mesmo o meu ego, dona Pandora??
- Até você me salvar do castelo? Sim!
- Pois espere e verás...vou buscar você vestido de Iron Man
- Eu vou fazer uma serenata na sua janela...
- Vou cobrir você de beijo e chocolate...
- E depois ficar diabético! hahahahah
- Diabético de você
- Eu também te amo, seu bobão...
- FINALMENTE!! Pensei que não ia retribuir nunca!
- É que eu fiquei com vergonha desde aquela vez que eu cheguei em casa bêbada e me declarei...ainda bem que tu não acreditou na hora
- Não confio em meninas alcoolizadas...

O aeroporto estava quase vazio...era madrugada e ele chorava! Ela nunca soube reagir nessas situações...queria tanto que as coisas fossem diferentes que chorou com ele, ali na frente das malas, do violão, dos funcionários e do cara que fumava lá fora e assistia a cena toda do outro lado da porta.
- Eu vou te ver, prometo.
- Não acredito em você Lou... - Dizia ela ao soluços
- Não faz isso comigo...eu te amo!
- Eu te amo tanto que vou te enterrar vivo com uma câmera pra você filmar pra mim o seu último suspiro
- Eu te amo tanto que vou arrancar sua perna no moedor de carne!
- Eu te amo tanto que vou fritar você no óleo quente...
- Eu te amo tanto que vou cortar os seus dedos e colocar naquele meu abajur
- Eu te amo tanto que vou arrancar os seus dentes com um alicate e fazer um colar pra mim...
ÚLTIMA CHAMADA...
- Não me deixa ir...
- Se eu pudesse não deixava mesmo...
- Vou te levar pro meu mundo...onde a gente vai poder tudo
- Leva mesmo...
- Quando você for me ver te mostro o caminho...Tchau.
- Pandora!
- Oi?
- ...


Kamilatavares que roubou o diário de Pandora.

domingo, 7 de abril de 2013

Ressaca.

Eu ia voltar cedo pra quem sabe falar alguma bobagem pra você, fiz tudo tão no improviso que nem arrumei o cabelo...mas quando eu arrumo o cabelo não é mesmo!? Talvez eu fale mesmo muita besteira, pra compensar os séculos que passo em silêncio, é que esse calor me deixa agitada, é uma vontade de sair cuspindo sentimentos por ai que você nem imagina! Talvez seja hora de ligar o ar condicionado...quem sabe eu me aquieto, quem sabe eu me calo!

Pandora.

terça-feira, 2 de abril de 2013

π

Acordei com frio, ainda era cedo...a porta deixava os primeiros raios de Sol perturbarem meu sono tranquilo; então eu escutei o barulho do carro e percebi que ele tinha ido embora depois de ter feito a coisa mais certa na hora e no lugar mais errados das nossas vidas.
"E lá vamos nós outra vez Pandora" pensei frustradíssima enquanto levantava pra pegar uma toalha e ir tomar um banho nem que fosse de realidade e tentar tirar o cheiro dele de tudo antes que eu caísse em depressão; mas o bilhete na mesa me chamou mais atenção, e parei pra ver o que ele tinha deixado pra mim.
"Não é certo ficar agora meu amor, você sabe disso...um dia eu volto. Não fica com raiva de mim meu bem...se eu pudesse não te deixava nunca... ♥" 
Junto do bilhete ele deixou aquela camiseta que eu gosto, e uma passagem só de ida pro inferno que foi aquele dia...porque eu chorei e não foi pouco! Mas foi chorando que eu percebi que o meu destino é acordar sozinha, pelo simples motivo de ter me acostumado a sorrir com um nó na garganta.
Desde esse dia eu nunca mais fechei a porta...sei lá...quem sabe ele resolvesse voltar assim do nada.
E eis que eu acordo com aquele barulho estranho..."deixei a porta aberta e um ladrão entrou...MUITO INTELIGENTE DA SUA PARTE DORA! Meus Parabéns!"...corri pra cozinha pra pegar uma faca ou sei lá, e de súbito encontrei aquele sorriso e um pote gigante de mousse de maracujá! O resto é história...


Kamilatavares.


segunda-feira, 25 de março de 2013

Trivialidades.

Não! Eu não quero esse bar...prefiro aquele ali no fim da rua, porque tem as cadeiras vermelhas...ah...você sabe que eu adoro vermelho! 
Meu ar condicionado quebrou hoje, você pode olhar amanhã?! É que anda um calor danado desde a semana passada, e eu tenho aqueles problemas pra dormir...sabe como é! Sim, claro...eu adoro essa cerveja, pode pedir. Claro que te faço um café amanhã... não vou trabalhar de qualquer forma; ganhei uma folga essa semana, vão fazer manutenção nos computadores do andar inteiro e fomos liberados! Pois é, quanto tempo! Te vi semana passada no shopping mas aquele inferno anda tão cheio de gente que não consegui passar pelo bando de adolescentes pra ir te dar um 'oi'. Também adoro essa música...a gente deveria vir mais aqui mesmo...claro! Só marcar o dia. Comigo anda tudo na mesma... o mesmo cansaço de sempre, e a correria parece que só aumenta! Mande um beijo pra sua mãe também, diga a ela que também sinto falta dos bolinhos de queijo...ela é uma graça! Bons tempos aqueles né?! A gente tinha tanto tempo livre...ê saudade!!! A saideira então...a gente se vê por ai! Te ligo sim, podexá! Tchau!

Kamilatavares.

domingo, 24 de março de 2013

Sobre o luto.


Entra...mas não repara a bagunça; é que andei bebendo muito, comendo pouco, dormindo quase nada e esquecendo de abrir as janelas. Os boatos são verdadeiros, agora você pode ver com seus próprios olhos...ela foi mesmo embora. O ruim de quando alguém que a gente ama morre é saber que a pessoa não teve escolha, ela poderia ficar comigo pra sempre, ou me trair, ou ir embora simplesmente ou até ter um filho meu, criar um cachorro, plantar um jardim... mas ela foi levada sem ter o direito de escolher que chá ela tomaria amanhã.
Se sente...mas não repara na falta de fotos; eu guardei todas numa caixa lá no quarto, junto com aquelas cortinas que ela bordou e as almofadas preferidas dela. De repente aquela porção de fotos espalhadas pela casa me assombraram e me fizeram mal. Os olhos verdes...não consigo parar de pensar nos seus olhos verdes...e nas tardes que ela passou bordando aquelas cortinas.
Ela tinha tudo que se esperava de uma mulher pra passar o resto da sua vida agarrado a ela. Sabe aquela inteligência assustadora?! Ela conseguia manter o nível da conversa sempre elevado e falava bem sobre quase todos os assuntos. Por vezes eu me perguntava de onde vinha tanta coisa que ela sabia...e aquele sorriso!!! Era o melhor bom dia de todos...ver ela sorrindo e sempre que percebia meu olhar de admiração se envergonhava e colocava a mão na boca "não amor...acordei com bafinho". Sem contar nas coisas maravilhosas que ela cozinhava e tudo nela...simplesmente tudo me agradava.
Pode fumar aqui sim, aproveita e me dá um cigarro que eu vou fumar também...mas não repara se eu chorar na sua frente. Eu sei que uma das coisas mais estranhas do mundo pra você é ver um marmanjo como eu chorando, são momentos raros...mas não tenho mais aquele emocional invejável. Nem aquela aparência invejável...nem sei há quantos dias eu não faço a barba, ou passei um pente no cabelo. Não...não se preocupe. O luto não dura pra sempre meu caro irmão, e um dia eu vou voltar a ser aquele cara organizado...mas por enquanto deixa a merda feder...foram 5 anos de sangue, suor e América do Sul perdidos em uma noite de angústia naquele maldito hospital. Me deixe sofrer...pelo tempo que eu precisar.
Eu preciso que você entre lá...mas não repara se eu tentar fazer você mudar de ideia. É que tem umas coisas dela pra empacotar, e eu preciso que você faça isso por mim. Não vou ter coragem, na boa! Mas deixa aquele vestido amarelo que ela usou naquele almoço na sua casa, no dia que eu a conheci. E os sapatos vermelhos de usar todas as sextas. Ela amava aquele sapato! Deixava ela da minha altura, toda sexta ela me dizia isso...salvo essas duas coisas, empacote todo o resto e leve daqui...a mãe dela andou me ligando, por favor diga a ela que eu estou bem, que apareço lá semana que vem pra deixar algumas coisas que eu gostaria que ficassem com ela, o presente de dia das mães que a gente já tinha comprado antes do acidente e aquela canequinha que ela tinha desde o tempo da escola.
Tudo bem...me abrace só hoje...mas não repara se eu me acostumar. Talvez eu volte um cara mudado...desses mais - como é que se diz? - inclinado a abraçar os amigos e dizer que ama as pessoas importantes. É que de repente a gente descobre que cada dia pode ser o último, e depois que eu limpar esse apartamento - e me limpar também - eu não vou poder me dar ao luxo de perder boas oportunidades. No mais é isso...


Kamilatavares.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Dos verões que ainda não tive.


Depois que eu aceitei o seu primeiro café tudo foi mudando aos poucos, e quando pisquei os olhos já tinha aceitado suas tardes, seus cafunés, seus dias de barba mal feita e a cópia das chaves do apartamento. Ele aceitou aquele avental que eu pintei, minha coleção de escovas de dente, minhas receitas que não deram certo, minha bagunça nos dias de jogo e os meus livros espalhados por todos os lugares.
Minha gaveta aos poucos foi virando metade do armário, e eu me dividia entre cuidar do apartamento, escrever minha monografia e deixar o café pronto pra quando ele chegasse cansado do trabalho. Ele gostava do café que eu fazia pra ele (que só ficou bom porque ele me ensinou a fazer) e eu do cafuné que ele fazia em mim quando deitava no sofá cansado depois do banho e me chamava pra ficar pertinho dele; não importava o quão cansado ele estava, sempre tinha tempo pra ser aquele cara mais fofo do mundo pra mim, com aquele sorriso de quem já está quase dormindo.
Ele estava longe de ser aquele quase loiro alto que eu sonhava em ter, mas tinha mel nos olhos, o universo no sorriso e os braços mais acolhedores do mundo. E desde o primeiro dia eu nunca me cansei daquele meio sorriso dele formando covinhas nas bochechas, nem do jeito que ele cerrava os olhos e me elogiava.
Lembro que ontem, antes de dormir ele me contou o que sentiu no dia em que me conheceu enquanto fazia voltas no meu cabelo; e falou do medo que ele teve de se aproximar, e o alívio que sentiu quando eu fui simpática com ele e sobre como ele quis me abraçar forte quando eu disse que era fã do Motorhead. Eu não pedi por nada daquilo, mas precisava tanto ouvir o que ele tinha a me dizer. Só foram surpresas boas desde que eu o conheci! E ainda dizem que sair sozinha é ruim...pois eu agradeço até hoje por ter saído sozinha aquela noite, e por ter tido tempo de arrumar o meu cabelo e passar aquele batom que fez ele chegar perto de mim. Agradeço por ter encontrado alguém que nunca teve medo de dizer as coisas que sente ou pensa - tão diferente de mim que me guardo dessas coisas - o que me passa uma confiança danada. E depois de tantas que eu passei, ter alguém pra confiar é quase como um suspiro forte depois de um quase afogamento.
Ele abriu mão de criar aqueles gatos que me davam tanto medo, e amor é o que sinto olhando o meu cachorrinho dormir enquanto espero ele chegar. Fiz aquelas panquecas que ele gosta pro jantar e pus uns cookies no forno...enquanto não ficam prontos olho o mar aqui da janela e um bocado de gente bonita andando pela orla, mas desde que eu aceitei aquele primeiro café, confesso que não tenho olhos pra mais ninguém.

Kamilatavares.


segunda-feira, 18 de março de 2013

Montenegro.


Tenho sonhado com ele embora não o conheça...imaginei como seria sua voz, mas aquele sorriso ainda é familiar; quando perguntarem qual é o tipo físico que mais me agrada talvez agora eu saiba responder: Aqueles de sorriso bonito. Tenho essa coisas por sorrisos bonitos independente de como a pessoa seja fisicamente entende!? O que me prende são os sorrisos! O dele é de criança, é um sorriso brincalhão, bonito...com covinhas de timidez. Talvez ele tenha fugido dos meus estalos de esquizofrenia, talvez não exista de verdade nesse mundo dos reais, mas ele veio me visitar com um violão que eu lembro ter visto em outra história antiga, ainda empoeirado pelo tempo e pelo esquecimento. Nada foi dito, ventava muito...os cabelos bagunçados dele eram bonitos assim sob a luz do Sol...ele me sorria, e eu sorria de volta! Então um Opalla cruzou a rua quebrando o silêncio e desviando a minha atenção para os lados...então eu vi a praia! E naquela hora eu soube que estava em Montenegro.

Kamilatavares.

domingo, 17 de março de 2013

Platônico.

O sorriso de aparelho dele me lembra as tardes de domingo melecadas de sorvete, e ainda assim me parece adulto sorrir daquele jeito despretensioso. Afinal de contas, terno e gravata combinam com jeans rasgado e All Star, e uma pasta de couro com adesivos dos Ramones. Fiquei sentada olhando ele procurar a caneta que estava pendurada na orelha dele...e sorri daquele jeito atrapalhado que parece tanto com o meu. O fim de tarde era bonito, eu tomava meu suco de cajá e ele tentava apanhar os guardanapos que voaram; então percebeu que eu o olhava e ficou envergonhado pela cena, deu de ombros com as bochechas vermelhas, sorriu e foi embora. O barulho no copo anunciou o fim do suco, da tarde, e daquela história de amor que eu escrevi em cinco minutos. Hora de ir.

Kamilatavares

domingo, 3 de março de 2013

Paradoxo.


Lembra daqueles jogos mentais que eu falei que fazia? De vez em quando eles aumentam sabe?! É como se um milhão de pequenos cérebros funcionassem dentro de mim espalhando infinitas informações...é como se um milhão de pequenas memórias estivessem espalhadas nas pontas dos meus dedos me fazendo lembrar as mais diversas aleatoriedades toda vez que eu toco em algo diferente. Não consigo ser constante! "sou reticente...e ponto final."
Não tenho mais regularidade no sono, não tenho mais regularidade alguma! Acordo me sentindo mais velha que os meus pais e durmo me sentindo mais jovem que o meu sobrinho...estou morrendo e comemoro a vida todos os dias. Escuto as mais variadas músicas e constantemente me pego falando sozinha, reproduzindo diálogos de filmes, cenas que já vivi e outras tantas que pretendo viver enquanto me resta coragem. Imagino coisas que nunca faria, sonho com corredores de hospital, flores na minha cama...e sou feliz!
Há tempos não choro de verdade, nem me arrepio ao escutar um "Eu te amo"...há tempos não enlouqueço e aos mesmos tempos nunca me senti normal...
Planejo futuros enquanto penso em desistir de tudo pra viver sem rumo e sem perspectiva de vida. Corro maratonas inteiras dentro da minha inércia!
E quando o último trago é levado pelo vento na minha janela...fecho os olhos ao som da mesma música que coloco pra tocar toda noite e faço a minha prece...ao universo! Consigo sentir meu corpo inteiro dormente, e sorrio. Criei momentos de paz dentro do caos...aprendi a inventar minha felicidade, e sorrio com coisas bobas.
Não sei mais o que me dói, não sei mais o que me cura! Coleciono sorrisos, abraços, lembranças de crianças correndo na rua, cheiros de pessoas e cafés; fotografias que tirei com os olhos e ninguém mais além de mim consegue ver. Coleciono cenas da minha vida, e pessoas! Escuto músicas depressivas em momentos de felicidade, escuto músicas felizes nos meus momentos depressivos...e de contradições eu vivo! E sou feliz...
Maltrato os que me fazem bem...sofro pelos que me fazem mal, e os mantenho por perto. Não me entendo, não me encontro, não me perco, não me meto na minha vida, não me pergunto coisas complicadas, não me sinto pertencente...não luto...e sou feliz.


kamilatavares