domingo, 9 de outubro de 2016

Porto (in)seguro.

Cortei um Caju em rodelas, passei um pouco de sal, comi um pedaço e tomei uma lapada de cana;
fiz um suco de graviola e tomei todinho;
terminei aquela atividade do meu livro antigo de inglês que há mais de um ano eu tinha preguiça de fazer;
escutei aquele disco do The Mission...e o do Dire Straits também;
assisti alguns episódios antigos de Supernatural;
assisti o jogo do Chicago Bears...e torci por eles;
tomei várias canecas de café e fui fumar um cigarro olhando pro mundo e pensando na vida;
tomei sorvete de baunilha;
tentei superar algum trauma antigo;
liguei pra minha psicóloca depois de três anos de silêncio;
tentei resolver uma equação sem usar calculadora;
tomei um banho antes de dormir e fiquei deitada com o ventilador ligado, esperando o abafado passar.

Olhei suas fotos, revisei as conversas...sorri.

O que eu perdi no meio do caminho, nada disso conseguiu preencher.
Seu cheiro eu não lembro, sua fisionomia talvez um dia se perca na minha memória também...mas "tudo que morre fica vivo na lembrança".

Mil acasos me levaram até você, mil tropeços me trouxeram de volta.

"It feels like there's oceans between me and you once again, we hide our emotions under the surface and try to pretend!"




KamilaTavares, crônicas sobre ele - primeira e última do livro nunca publicado.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Histórias sobre o Enzo. Parte 03. O silêncio!

Uma vez o Enzo sumiu! Lembro que era o começo de tudo, e mesmo assim parece que foi ontem; nós estávamos de férias e meus olhos pesavam de sono, mas eu não queria dormir...queria ver ele chegar, saber a hora, em qual estado ele chegou, qual cheiro ele carregava da rua e o que andara fazendo. Ele estava assim há dois dias, e por não saber por onde ele andava, me lembrei de quando eu era o seu segredo e como ele mentiu bem para todas as pessoas e nenhuma delas desconfiou, e não pude deixar de pensar na possibilidade de que ele estaria mentindo para mim também, e que eu estava sendo enganada, por só ter falado com ele às duas horas da madrugada e ser obrigada a aceitar qualquer versão que ele me contasse sobre como foi o seu dia. Aquilo me aterrorizou, porque eu tinha passado um ano só, mas antes daquilo passei um ano em um relacionamento cheio de mentiras contadas nas madrugadas frias daquele inverno que foi a minha vida; e só de lembrar daquilo os meus medos largaram suas âncoras e subiram até a superfície da minha pele, que ficou fria e doente com tudo aquilo.
Por isso eu não queria deixar os meus olhos vermelhos adormecerem, e o meu pescoço dolorido de olhar para o relógio, finalmente descansar! Minha garganta estava seca e eu sabia o que fazer nem o que pensar, não me lembrava de nenhuma música feliz e não conseguia me distrair com filme algum.
Nesses dias eu me dei conta do quão insubstituível ele se tornou pra mim; quis me punir por ter deixado alguém se fazer tão importante assim nos meus dias, por admitir que - logo eu - precisava SIM de alguém pra ser feliz, e que esse alguém ele justamente ele - o Enzo. Aquilo me encheu de uma insegurança tão grande que eu tinha vergonha de admitir, porque era vergonhoso alguém da minha idade, que passou pelo que eu passei, se deixar levar por pensamentos daquele tipo; mas o drama era inevitável.
Naquele dia eu chorei sem saber o que fazer, quis bater nele, quis abraçá-lo e dizer que ele era a pessoa mais importante do mundo pra mim - mesmo sabendo que aquilo poderia o assustar e fazer ele ir embora correndo, quis ignorá-lo até o amor se acabar, quis bater no portão da casa dele de pijamas pedindo um abraço, quis dormir pra sempre...
Depois é claro que ele voltou e tivemos uma longa conversa tomando um café e fumando um cigarro...e depois daquilo todos os medos foram embora, porque todas as coisas ruins desapareciam quando ele sorria - e é assim até hoje - essa coisa meio mágica que acontece com as pessoas que se gostam. Daí eu acabei descobrindo que sofro de saudade! Quando eu era pequena e meu pai viajava eu sempre adoecia, tinha pesadelos horrorosos e tudo mais, e tudo desaparecia quando ele voltava. Talvez aqueles dias tenham sido uma versão mais crescida de quando eu ficava doente de saudade. Talvez eu tenha tido um flash back da depressão dos 21 anos, talvez alguém tenha envenenado o meu suco, ou talvez ele tenha deixado de me amar por dois dias, e eu tenha sentido isso, e depois ele mudou de ideia e tudo voltou ao normal, talvez...a única coisa que eu tive certeza naquele dia foi: NÃO DÁ SABE?! Não dá pra viver sem ele. É uma coisa tão egoísta, tão passional, tão feia e tão bonita ao mesmo tempo...eu simplesmente ouvi o Tom Jobim e concordei quando ele disse que é simplesmente "impossível ser feliz sozinho!".

No fim das contas era tudo besteira minha - por Odin, como eu sou besta - e tudo acabou bem...com ele tudo sempre acaba bem!



Kamilatavares.

"E o resto é mar, é tudo que eu não sei contar..."

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Histórias sobre o Enzo. Parte 02. A festa.

Eu estudava com ele e nem me lembrava, mas como Enzo não é um nome muito comum eu me recordo de ter perguntado pra um amigo meu quem era o maldito desgraçado que sempre fazia uma pergunta chata no final da aula, o professor demorava séculos pra responder e a turma toda ficava presa; e lembro que foi esse o nome que eu ouvi "Enzo! É o E N Z O !", e naquele dia que prometi pra mim mesma que se um dia topasse com ele em algum lugar eu ia quebrar os dentes dele, porque sempre fui assim, uma pessoa calma, delicada e contra esses atos de violência.

                                              ***                           ***

Era aniversário de um ex colega de banda, ele me convidou com a proposta de que a banda (ou parte dela) se juntasse pra fazer uma Jam, relembrar coisas antigas, rir e tudo mais! Eu fui e pra minha sorte tinha cerveja! Conversei com o pessoal, toquei violão e em um dado momento da noite, quando eu já estava devidamente alcoolizada, esse meu amigo aniversariante resolveu que deveria me apresentar aos outros convidados - um por um - nomes que eu nunca ouvi na vida; me abraçavam e voltavam a se sentar...e no meio de todos esses um deles me foi familiar!

- A gente já se conhece!
- Já? De onde?
- Da faculdade, pagamos uma disciplina juntos!
- PERAE...ENZO? O ENZO DAS PERGUNTAS?
- Como assim? Não entendi?
(E aí eu gritava MESMO, falo um pouco ~muito~ alto, just for the record)
- VOCÊ SIM!!! QUE FAZ PERGUNTA DESNECESSÁRIA NO FINAL DA AULA!! EU FICO PRESA NAQUELA MERDA DE AULA POR SUA CAUSA! EU JUREI PRA MIM QUE IA DAR NA SUA CARA!!!!!!

Claro que ele não entendeu nada, e negou tudo! Aliás, ninguém lá entendeu nada e ele acabou saindo de perto de mim ~COM RAZÃO~ porque eu - de fato - queria bater nele...mas me acalmei e voltei pra minha mesa.
O baterista da minha banda perguntou o que tinha sido aquilo, eu expliquei a situação ainda com os olhos vermelhos e os dentes cerrados, tomei um bom gole de cerveja e tentei me acalmar, mas sabe?! Ele me dava nos nervos...era de um cinismo demasiadamente irritante para o meu pavio curto.
ANYWAY, depois de rir bastante da situação toda, eis que o meu querido baterista filósofo profeta olha pra mim e diz em tom de riso "Se vocês se odeiam tanto é porque vão namorar! Olhe bem pra ele porque é pra ele que você vai se declarar infinitas vezes!"
Eu dei a maior gargalhada da minha vida e disse que era IMPOSSÍVEL, claro! Que NUNCA NA MINHA VIDA eu namoraria com uma criatura daquela, e duvidaram de mim - claro - citando milhões de histórias de amor que começaram com pessoas que se odiavam completamente. Pois a minha raiva era tão grande e o meu stress estava tão elevado naquela hora que eu simplesmente me levantei da mesa - o mundo girou 5x em 2 segundos - derrubei o copo de cerveja em cima de algum celular, meio que tropecei mas saí andando em direção ao tal do Enzo, que estava em pé ao lado da mesa conversando com alguém que não importa agora.
Me lembro que ele usava gravata e foi justamente ela que eu puxei e saí arrastando ele pra área externa da piscina, o segurei pelos ombros e dei um beijo nele, daqueles que duram provavelmente uns 30 segundos e parecem aqueles beijos que duram uma semana...ORAS, EU PRECISAVA ME CERTIFICAR.
Quando o afastei (ainda apertava os ombros dele com força) ele olhou pra mim com os olhos saltando de si e as sobrancelhas 100% arqueadas, aqueles poucos segundos duraram um ano, e - como o mundo girava muito - foi quase uma dança. Ele abriu a boca pra falar alguma, mas eu o interrompi bruscamente dizendo "CLARO QUE NÃO GENTE, IMPOSSÍVEL ISSO!" e saí sem dar explicações ou olhar pra trás! Cheguei na mesa, peguei minha bolsa e antes de ir embora olhei para todos e disse que eles estavam todos errados e que eu me certifiquei de que nunca iria namorar com o Enzo.


Ninguém sabe, mas naquela hora o Enzo de apaixonou por mim.
Ninguém soube, mas naquela hora eu me apaixonei por ele também.
E depois daquele dia, foram meses de silêncio e ódio.




Kamilatavares.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Histórias sobre o Enzo. Parte 01. O café com a velha amiga.


Claro que é verdade que a gente se casou num bar! O dono era meu amigo desde o tempo que eu tinha um banda de rock e tocava lá nos finais de semana, sem contar que foi lá que o Enzo me pediu em namoro...aiai - me lembro daquele dia como se fosse ontem - tinha uma banda HORROROSA de metal tocando e ele me pediu em namoro no meio do show, uma barulheira dos infernos, cheio de gente que a gente não conhecia, e eu - claro - achei a coisa mais romântica do mundo, daí não tinha outra opção a não ser casar lá mesmo, depois de uma boa reforma - claro!
Olhaí as fotos, todos os nossos amigos foram, eu toquei baixo, ele tocou guitarra, todo mundo ficou bêbado...daí acabou que tinha gente dormindo pelas cadeiras, todo mundo foi pro palco e tocou e/ou cantou e umas 6 pessoas foram parar no hospital! Eu não poderia ter escolhido um casamento melhor!
Quando a gente começou a namorar ele sempre me dizia que nunca se imaginou bebendo com a namorada, eu achava aquilo tão fofo, na verdade, naquela época a vida pra mim era um unicórnio saltitante, eu nunca fui tão mimimi - e estranho até hoje, acredite - porque pra começo de conversa eu nunca nem imaginaria que um dia a gente ia namorar, muito menos noivar, muito menos casar, muito menos ter filhos!
Pois é, Cecília está INSUPORTÁVEL, só brigo com ela o dia todo e a culpa é dele que eu não mandei querer tanto uma menina! Eles foram sei lá pra onde, pro parque, pro ballet...sei lá pra onde ele levou a menina, porque no humor que eu acordei hoje ia acabar matando alguém dentro de casa e o acordo é que dos chiliques dela, ele que dê jeito! O Raul tá dormindo porque aquele menino é um anjo - pelo menos isso - não me dá trabalho nenhum!
Mas eu não tenho do que reclamar, de verdade, desde o dia que a gente se conheceu o Enzo tem sido a melhor pessoa do mundo pra mim! Até hoje ele me escreve cartas, acredita?! Eu pensei que essas coisas não existiam mais fora dos filmes e novelas, mas eu dei sorte na vida - depois de cair milhões de vezes né?! - por isso eu te digo que tenha paciência que vai dar tudo certo...inclusive acho que o bolo ficou pronto!
Amiga, olha aí nessa gaveta se ainda tem cigarro! Tem? Ahh, obrigada!
Eu sempre esqueço de comprar, minha salvação é o Enzo que se esquece das calças mas não esquece de comprar cigarro! Eu tive vários amigos que tinham pais fumantes e nunca fumaram, mas se os meus quiserem quando crescerem eu não vou ser a mãe chata não, PELO AMOR DE DEUS LONGE DE MIM, só tenho frescura com idade, filho meu quiser inventar de ser gente e sair bebendo e fumando antes dos 18 eu tranco no quarto por um ano! Mas os meninos são muito bons, obedientes...MENTIRA - Cecília é o demônio, mas um dia ela se aquieta que eu sei, pelo menos tira nota boa na escola e é muito criativa!
Mas olha só pra mim falando do marido e dos filhos, quem diria! De vez em quando eu acordo e penso que dormi na casa errada, que essa vida não é a minha e alguém trocou de alma comigo, acredita?! Mas aí quando vai chegando perto da hora do almoço eu já sei que não trocaria essa vida por nenhuma outra, eu sei que envelhecer assim vai ser bom!
E aí, ficou muito doce? Quer fazer cobertura de que?! Também acho que a gente devia se ver mais, essa correria de trabalho, filho e tudo mais acaba com a pessoa! Mas a gente sai toda sexta, tu que vive trancada em casa! Então próxima sexta a gente combina de beber aqui em casa mesmo e te chama, pode ser?! Ótimo! Pois tá marcado!


Kamilatavares.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Café com pão de queijo.

Eu conheci o Luiz em uma festa aleatória que eu nem queria ter ido pra começo de conversa. Era um Sábado preguiçoso e eu fui beber o luto pela morte de um familiar; não era um dia que eu pudesse chamar de bom ou produtivo. Tentei ir ao banheiro e fui barrada na fila por um cara alto vestindo uma camisa do Motorhead que me disse que o bar estava muito cheio e a fila muito grande; teimei com ele e resolvi esperar assim mesmo, quando saí ele estava me esperando pra dizer que eu não pensasse mal dele, me garantindo que não era um cara chato e me dizendo que ele era novo na cidade e não conhecia quase ninguém.
Pelo sotaque eu soube na hora que ele era mineiro, torcedor do galo e apreciador de cerveja, rock n' roll e pão de queijo com café - estava certa. E ali mesmo começamos a conversar sobre as mais variadas coisas...coisas que nem me interessavam numa conversa de bar, mas conversei do mesmo jeito só pra ouvir a voz dele, só por gostar de sotaque mineiro, só por não querer sentar na calçada e beber sozinha. E ali mesmo ele pediu o meu telefone e falou da cadelinha que ele adotou pra não se sentir tão só, e depois de duas horas de conversas aleatórias, ali mesmo ele me beijou e depois foi embora.
Sabe aqueles filmes americanos que a gente assiste na Sessão da Tarde só pra se iludir que existe romantismo no mundo? Eu achava que não existia essa coisa de ser convidada para um encontro, até o dia seguinte quando o meu telefone tocou e o Luiz estava do outro lado da linha me chamando para ir ao cinema com ele. Veio me buscar em casa, vimos o filme, tomamos chopp e fomos comer sushi; e nesse dia eu descobri que dividimos o mesmo restaurante preferido, o mesmo vício por cinema e que ele também sabe todas as falas de Closer decoradas (nessa hora eu confesso que quis me casar com ele ali mesmo). De alguma forma que eu não sei explicar eu me senti em casa perto dele, como se eu morasse dentro de um filme guardado na minha prateleira de DVD's e que a qualquer momento eu podia voltar ali e reviver tudo.
O Luiz foi embora depois disso, foi embora pra sempre e nunca mais falou comigo - os créditos subiram, a trilha sonora tocou e eu não consegui rebobinar a fita de jeito nenhum, mas, de vez em quando, assim quando eu me deito antes de dormir e penso em como eu tenho vivido feito um robô sem sentimentos, eu fecho os olhos e lembro do Luiz e seu sotaque bonito reproduzindo as falas de closer entre um gole e outro, e me lembro em como é bom ter uma saudade guardada pra sentir de vez em quando, e como é bom pensar que um dia você pode encontrar alguém assim na vida, mas alguém que fique, filme a sequência, lance a trilogia, a versão estendida, os extras e o making of.
Depois disso eu voltei a ser só, mas não me lamento não sabe?! Escuto uma música lenta enquanto sinto o frio entrando pela janela do meu quarto ou quando saio por aí pra esperar que algo de bom me aconteça...e eu sei que vai.


Kamilatavares.

domingo, 18 de maio de 2014

Stop being such a Pussy!

Faz um tempo que eu não escrevo diretamente aqui como eu costumava fazer, faz um tempo que eu não falo sério sobre o que penso ou sinto em lugar nenhum, com ninguém...nem comigo mesma, e faz uma vida que eu não escrevo diretamente no melhor estilo "querido diário"...porque por mais que o escritor sempre adicione um pouco do que sente em sua obra (lembrando que nem eu sou escritora, muito menos tenho uma "obra" pra ser citada), sempre se usa a linguagem figurativa - e eu abuso dela de vez em quando...mas não hoje, não agora!
Vim aqui pra dizer que me tornei covarde. O tempo me fez ter medo de me expor, me fez ter medo de chorar em público, medo de dizer as coisas que eu sentia, medo de não me importar com os outros, medo de ser abandonada, medo de perder meus amigos...e esse medo me trancou num quarto cheio de comida e filmes do James Franco - e num piscar de olhos eu me tornei extremamente sozinha e paranoica, e traduzi meus sentimentos pra uma língua que só os desconhecidos conseguiam entender...e os desconhecidos não te julgam. Quanto aos que eu conheço - preferia ser julgada por ter me tornado uma fã paranoica que agora só sabe comer e dormir do que ter que explicar o que estava acontecendo, ou seja: NADA.
Chame do que quiser, mas eu me anestesiei de um jeito que não consigo nem explicar, mas sim...sou fraca e não aguentei ver que ele superou tudo, sumiu de vez e tocou a vida dele pra frente então resolvi cometer um suicídio emocional que foi tão grande que até o que tinha de bom foi embora, e não importa o que aconteça, eu não sinto nada.
Se meus pais brigam comigo ou me enchem de carinho, se eu não tenho um emprego ou um namorado, se minha banda só ensaia e não faz nenhum show, se os meus melhores amigos não são mais tão melhores amigos assim, se aquele cara super bonito me olha no meio da festa, se alguém me rouba um beijo ou diz estar apaixonado por mim, se o meu sobrinho escreveu uma carta pra mim ou eu me dou conta de que estou infinitos quilos mais gorda e trancada no quarto há três dias com pilhas de episódios de seriados, comédias românticas e sacolas da padaria da esquina espalhadas pelo quarto inteiro...se o mundo acabasse agora...ainda assim eu não sentiria nada. Talvez alívio...talvez.
Sei que parece drama adolescente, e talvez seja - já que a minha adolescência não teve grandes dramas - mas é assim que as coisas estão...e eu não vejo uma mudança chegando. Talvez ela chegue naquele dia em que você acorda disposta a mudar sua vida completamente e ser uma pessoa melhor, mas levando-se em consideração que eu estou indo dormir todos os dias umas 7h da manhã, é mais provável que eu acorde no meio da tarde com a minha mãe dizendo que eu perdi o almoço e preciso dar um jeito na minha vida...vida essa que eu já pensei seriamente em dar o reset e deixar pra lá.
Não que eu tenha me tornado uma psicopata depressiva. Eu de fato exponho o meu bom humor fake todos os dias sem grandes problemas, porque já que eu ando sem sentir nada mesmo...fingir que está triste ou feliz acaba se tornando a mesma coisa. Mas quando eu estou aqui, sozinha, lidando com o meu vazio interior, acredite: Se alguém me pedisse em casamento ou se um filhote de gato morresse eletrocutado na minha frente eu sentiria exatamente a mesma coisa: Nada.
Mas acredite, encontrei algumas alternativas para me motivar - minha monografia é um bom exemplo! Pelo menos estudar lhe distrai de certas coisas, e eu estou segura com o tema, tenho um bom orientador e acredito que vou conseguir terminar o curso de forma satisfatória - pelo menos isso. E como a gente tem que ter um sonho impossível - eu ainda acredito que vou pra New York tropeçar com o James Franco dando bobeira pela Broadway...pelo menos eu sei que ele não faz a mínima ideia de quem eu sou (ou seja, não pode piorar), e pelo menos ele me ajuda com a minha monografia (já que estou usando um dos filmes dele) e me inspira...e é bom ter um ídolo - o que significa que eu posso ser louca, mas sou uma louca com um objetivo.
Quanto à ele...não faço a mínima ideia do que tem feito nos últimos meses, ou se um dia vou ter coragem de olhar na cara dele outra vez sem me destruir completamente por dentro. Mas ainda dedico certas horas do meu dia ao exercício de meditar pela felicidade, saúde e paz na vida dele (embora eu não faça isso nem por mim), e esperar as cartas vindas do além.
Eu sempre achei que me faltou coragem de fazer as coisas, porque sempre fui chamada de preguiçosa. Mas quando tive coragem acabei apostando na mesa errada - o que me fez pensar que o que me faltava era direção, mira...mas na verdade me falta tudo, e de tanto errar em tudo eu acabei parando...e por sentir tudo de forma tão exagerada acabei não sentindo mais nada - nem mesmo vontade de escrever...mas vamos dando um passo de cada vez - considere este o primeiro.


Kamilatavares.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Breakfest

I saw the Beat generation coming back trough the new hipster's minds
the misfits, the underage drunk kids, the young rebels in the alley
they don't even know about Ginsberg, Kerouac and Lucien Carr
they don't even know about Cassady, the Naked lunch and the junkies
but they're living the dead revolution
They're angels in the sky with diamonds
holy ignorance
holy youth crazyness
Imagine how the world would be with a little more benzedrine.

Your crazy uncle locked up at that mental hospital...you should learn with him
he's the wise one
we are the real crazy people trying so hard to be normal
Hiding our feelings, becoming robots of ourselves
telling our children that they can't be artists, they'll never make it
imagine how crazy would be if you start living your dreams

The boy next door became an astronaut, you see?
and I'm on the edge...on the top of this building
I was about to kill myself on that story, but I know how it ends, so now I'm just waiting

Waiting for the dead revolution of the people that hate everything
specially themselves.



Kamilatavares.

domingo, 23 de março de 2014

Um poema de amor bem amado para Guilherme.

Tu me fazes - oh meu bem - 
bem muita raiva
tipo bem muitona
e me abandona e me deixa
e eu devia ter ódio de tu e te dar umas tapas e te abandonar

mas eu não te abandono
porque eu sou besta
e tu disse uma vez que eu era compreensiva
e porque eu te amo
e porque tu tens um bacon gordinho
que eu gosto de apertar
e te apertar é bão
mais bão que pãodjiqueiju com café de mamãe
e eu gosto pronto

e foda-se a rima
me ligue-me
que eu te ligo-te
e nós nos ligamo-nos
e fim.



Kamilatavares.


segunda-feira, 17 de março de 2014

60 minutos.

Eu acho que antes a minha fome por respostas me embaçou mais ainda a visão e me impediu de prestar atenção em outras coisas que fossem também importantes...ou distorceu muita coisa que eu deveria ter visto de outra forma, e eu passei os últimos meses revisando todos os capítulos, mas sempre e busca de algo que eliminasse os meus porquês, os meus questionamentos, as minhas interrogações...

Eu confesso a minha raiva, o meu grito de desespero, o meu choro e o tremer das minhas mãos...eu confesso o olhar desolado através da janela e o soco abafado no travesseiro...eu confesso o nó na garganta e o meu desequilíbrio...eu confesso os meus surtos e mudanças bruscas de humor...eu confesso, fiz cena.

Acho que os dias enclausurada me trouxeram não só momentos profundamente depressivos como também algumas horas de boa reflexão, e por fim a gente acaba se acalmando e o conformismo com seja lá o que for se torna inevitável...começamos puramente raiva e terminamos entregues ao "que seja...agora tanto faz". Mas eu não acredito no tanto faz.

Me limitei a não esperar respostas, elas de nada me servem a não ser para me tirarem os nervos e acabarem com o meu frágil equilíbrio, e me conformei em não mais perguntar, não mais pedir, não mais procurar...mas dedico pequenas parcelas do meu dia para os pensamentos que dizem ao seu respeito, limitando-os apenas aos pensamentos positivos e recordações reconfortantes. Escrevo várias cartas, monto repertórios de músicas e serenatas, planejo supresas que eu sei que você vai gostar e faço listas de presentes.

Todo dia eu lhe dedico uma hora...ou mais, ou menos.

A sua hora é com certeza a mais bonita do dia, é como se eu me enchesse de olhares poétios pra poder te enviar energias boas...tudo fica mais bonito, até os ruídos dos carros somem. Sua hora não é regular, e pode ser dividida em pequenas parcelas de cinco ou dez minutos...

Quando eu vejo o Sol nascer e lhe digo bom dia bem na hora em que você acorda preguiçoso pra ir trabalhar - esperando que você coma bem no café da manhã e preste atenção no trânsito.

Quando eu faço pequenas caminhadas e vejo alguma árvore bonita.

Quando eu pego o violão e toco uma música que você gosta.

Quando eu escrevo.

Quando eu assisto um filme bom e quero que você também assista.

Quando eu escolho a música do dia.

Quando eu leio algum trecho sensacional de um livro qualquer.

Quando o tempo esfria...quando chove.

Quando eu canto ou aprendo a tocar algum instrumento novo.

Quando eu escolho alguma nova coisa preferida.

Quando eu choro...e quando eu sorrio.

Assim a sua hora passa todo dia, e no dia seguinte outra hora começa...e foi assim que eu encontrei a minha versão do que seria meditar - pensar apenas em coisas belas, enviar boas energias, me sentir parte do mundo...da natureza...me sentir um Ipê amarelo jogando flores douradas na calçada. A natureza não precisa de respostas...ela somente é! Você não está sempre lá pelas árvores...mas elas estão sempre lá pra você!

Outro dia eu sonhei que você criava coragem e fugia de casa num Fusca...e vinha me buscar! Foi legal.


Kamilatavares.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Antônio e o ralador de cenouras.


Eu gosto de cenouras raladas, mas sou desastrada e sempre rasgava os dedos quando tentava ralar o finalzinho da cenoura, mas achava um desperdício jogar o resto da cenoura no lixo. Pensei em comprar um coelho pra me fazer companhia e comer os pedacinhos da minha cenoura - assim eu não me cortaria no ralador e não jogaria mais cenouras no lixo - Ou quem sabe desistir das cenouras e colocar outras coisas na minha salada, que já tinha alface, tomates e outras coisas que eu encontrava pela geladeira...quem sabe mais ervilhas?! Talvez...
Antônio chegou em casa e percebeu que eu andava meio triste...quando me perguntou eu contei pra ele o dilema da cenoura, mas acontece que se ele não podia ter um gato (porque eu não gosto de gatos), eu não poderia ter um coelho - era uma simples decisão democrática...pensou em comprar um cachorro (nós dois gostamos de cachorros), mas o cachorro não comeria as cenouras...e agora?
Olhei as minhas mãos alaranjadas e pensei: "Que tal um ralador elétrico?" uma geringonça elétrica dessas que vendem hoje em dia que rala cenouras, corta cebolas e tomates e tudo que você imaginar.

- Antônio, eu quero um ralador elétrico!
- Mas e o cachorro? 
- Também quero o cachorro, mas primeiro o ralador elétrico! Só assim eu não corto os meus dedos, não jogo nenhum pedaço da cenoura fora e também não precisarei mais cortar cebolas! Está decidido o meu presente de aniversário! Um ralador elétrico!
- Não vou lhe dar um ralador elétrico de presente de aniversário! Seria ofensivo!
- Mas porque ofensivo, Antônio? Se eu quero o maldito ralador...ofensivo seria se eu não o ganhasse!
- O ralador é um presente para a casa, não para você! Lhe darei outra coisa, e depois do seu aniversário eu lhe compro o ralador.

Antônio tinha pensamentos diferentes, entende? A mãe dele odiava os aventais que o seu pai lhe dava todo aniversário...os panos de prato, as panelas novas...de forma que cresceu com tais pensamentos, sua mãe sempre lhe repetia que tais presentes eram ofensivos - mas eu só queria o meu maldito ralador! Não seria uma ofensa para mim - afinal de contas eu precisava mais do ralador do que de um par de sapatos novos.

- Você gosta de cenouras raladas, Antônio?
- Detesto! Você sabe disso!
- Então só quem come cenouras raladas em casa sou eu...logo o ralador de cenouras será meu! Quando eu precisar de sapatos novos lhe pedirei sapatos novos...quando eu precisar de um vestido,lhe pedirei um vestido...mas hoje eu preciso de um ralador elétrico!
- Tu sempre me derruba no argumento, hein mulher?! 
- Faremos o seguinte...me dê o ralador que eu lhe dou uma chaleira!
- Hã?
- Eu por acaso bebo chá? - Disse com certo tom de arrogância...ora, eu precisava provocar o Antônio de alguma forma.
- Não!
- Quem faz chá nessa casa toda noite?
- Eu!
- Então lhe comprarei uma chaleira nova...temos um acordo?
- Ok, temos um acordo!
- ok então!

Dei um beijo nele, peguei o meu carro e fui procurar sua chaleira, ele por sua vez foi comprar o meu ralador elétrico...veja só que coisa boba, não é mesmo?! Quando eu conheci o Antônio o drama dele se espantou com a minha praticidade e o seu metodismo tratou de cuidar do meu desleixo...ele assiste novela escondido, sabia?! Acho uma graça...

Quando ele voltou pra casa, trouxe o meu ralador e um livro novo pra não lhe pesar a consciência...eu estava inaugurando a chaleira preparando um chá de qualquer coisa pra ele...nunca soube fazer chá - mas diz ele que ficou bom! No dia seguinte o nosso cachorro chegou, e eu comi a melhor salada do mundo na hora do almoço, que foi melhor que as outras pelo simples fato de eu não ter que me preocupar de achar nenhum pedaço do meu dedo dentro do prato. 
"Uma maravilha essa geringonça eletrônica, não é mesmo Antônio?"
E as minhas mãos nunca mais foram cheias de cortes e cor de laranja.

Histórias aleatórias que se contam aos domingos.

Kamilatavares. Do livro que eu nunca publiquei, porque não existe nenhum livro...nem cachorro, nem coelho, nem Antônio, nem cenouras. 2014.

Mas eu gosto de cenouras...

quarta-feira, 5 de março de 2014

Nós três, nós quarto, nós cinco, nós seis!



A gente tocava cover pra se distrair e o bar tinha cheiro de cigarro e mofo
A gente bebia pra se divertir e não se importar com a caixa estourada e o choque no microfone
A gente saía pra não voltar, voltava pra não sair, dormia pra não sonhar e sonhava sem dormir
A gente não fazia a mínima ideia, mas era feliz...era sim!

Depois tudo é composição, produção, gravação, enrolação
Depois tudo é briga e papo sério
Depois tudo é ressaca, tudo é trabalho
Depois chega a responsa, a dor nas costas e a idade
Depois tudo é saudade.

Que nem passar o ano preso na Quarta-feira de cinzas
Dá uma sede, né?!
Sede de água, sede de ontem, sede de carnaval

Que nem encontrar o primeiro namoradinho na fila do supermercado
com um filho no braço.
Estranho, né?!
Que nem um nó na garganta, que nem se engasgar com o suco de cajá quando não tem ninguém em casa
A gente tenta tossir o que incomoda pra sobreviver...mas não tem quem lhe dê um tapa nas costas.

Pois é tipo isso entendes?

Kamilatavares.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Letters for him.

No dia que a gente conversou sobre o Tarantino eu sabia que ia acabar me apaixonando por você...bateu a intuição, sabe?! Foi uma das primeiras conversas mas eu sentia um entusiasmo que me fez querer conversar sobre tudo que eu gostava e te contar sobre o meu dia e as coisas que eu pensava sobre o mundo...e me perguntei porque você trocou a diversão dos bares, cinemas e teatros por meia hora de papo furado comigo; foi aí que eu percebi que você se sentia tão só quanto eu, embora fosse feliz com isso de certa forma...

Eu costumava adorar aglomerações de pessoas...não multidões de estranhos - essas me assustam - mas aglomerações em festas pequenas e médias, encontros de amigos, shows em bares com aquelas bandas que tocam tudo que a gente gosta, sabe?! Costumava andar e encontrar quinhentas pessoas conhecidas, conversar com elas, me divertir, fazer algo fora do planejado. Ontem eu tentei, mas tentei me isolar das pessoas não sei porque...conversei com todas elas mas não tive vontade de ficar perto de nenhuma...e me vi andando sozinha com minha cerveja na mão sem pressa de chegar em casa porque ninguém ia querer saber das coisas engraçadas que eu vi, ou das músicas que tocaram ou daquela velha amiga que eu não via há tempos e que foi tão legal matar as saudades dela...eu consegui com maestria me sentir só na multidão...e a dor vai passando - a gente sabe - os dias vão passando batidos, as taquicardias se tornando triviais e o choro no meio da noite vai dando lugar ao sono, mas isso não quer dizer que eu não sinta sua falta todos os dias...que eu não sofra por ter perdido o meu melhor amigo...porque apesar de tudo o que aconteceu era isso que você representava...o resto todo era incerteza, e eu morria de ciúmes de tudo, e queria amarrar você na grade da janela e não te deixar sair do quarto nunca...porque você era o meu amor e o meu melhor amigo...e isso era uma maravilha que nem eu poderia acreditar.

Não vou tentar ficar bem, nem vou me abraçar com o sofrimento...vou deixar que os dias passem e as cartas diminuam, e que a vontade de te contar quantos sinais verdes eu peguei no caminho pra faculdade passem, e que eu volte a compor canções e não queira te ligar no meio da noite...eu costumava falar sozinha imaginando você sentado na cadeira ao lado...agora eu faço orações pra não perder o equilíbrio depois de tantas crises nervosas...e espero um dia confiar em alguém que possa ouvir o que eu tenho a dizer e que me conte algum segredo importante que eu não possa contar pra mais ninguém...enquanto isso eu espero o dia em que eu vou parar de esperar.

Acho que eu perdi a minha habilidade de fazer boas analogias, acredita? Mas consegui completar o meu top3 de melhores series de drama, concluí que o Ipê amarelo é de fato a minha árvore preferida e descobri que as melhores pessoas são aquelas que não ficam constrangidas em momentos de silêncio com outras pessoas...tente passar cinco minutos em silêncio com alguém...se ela não se incomodar e nem tentar puxar assunto desesperadamente, bem...tenha certeza de que essa pessoa tem opiniões muito boas sobre as coisas e uma visão bacana sobre o mundo!

Sinta saudade de mim quando alguém lhe apresentar uma música nova ou falar de um jeito quase que esquizofrênico sobre alguma coisa que gosta muito...ou quando precisar de um cafuné antes de dormir. Eu vou ficar bem daqui.

O carnaval começou e eu já tirei o meu bloco da rua.



Kamilatavares.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Ambiguidade.

Sonhei com você outra vez...mas que merda...que maravilha! É isso mesmo! Me amaldiçoo e me bendigo por cada pensamento que lhe direciono durante o dia ou até mesmo em sonho, e me sinto partida ao meio quando te quero por perto e ao mesmo tempo bem longe de mim, quando concluo que você é a pessoa que mais me fez mal e mais me fez bem, que eu mais amei e amo, que eu mais odiei e odeio...que eu confio cegamente sem acreditar em uma palavra do que você diz!

E me dividindo vou procurando me completar...em silêncio vou gritando.

Tipo aqueles pacientes que não sabem o que fazer quando encontram a cura e não precisam mais voltar ao hospital...tipo aqueles vilões que conseguem matar o herói e depois ficam sem ter o que fazer...tipo quem guardou dinheiro a vida toda pra viajar e uma semana antes de ir acabou infartando de tão feliz e morreu...tipo estudante que ralou a vida inteira pra tirar notas boas e depois que acaba a faculdade ficou sem emprego...tipo nadar e morrer na praia.

Um

Vazio

Sem

Fim.

E que de tão grande me preencheu.





Kamilatavares.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Dear...


Para Ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=da-ELYFRFpc


Hoje quando me deitei aconteceu algo mágico, como se duas dimensões se misturassem em uma só criando um espaço paralelo entre dois lugares que só é possível existir quando duas pessoas pensam uma na outra ao mesmo tempo, no mesmo milésimo de segundo. Eu vi o teto se dissolver e ondas azuis e amarelas flutuarem pelo ar, como se eu estivesse presa em uma fotografia antiga, em um filme queimado que dançava no ar...e o piano me acalmava.

Olhei pro lado vazio da cama e você entrou cansado...me fez cócegas e me abraçou antes de se deitar e arrumou o travesseiro pra descansar olhando pra mim...passou a ponta dos dedos no meu rosto e depois de um longo suspiro me contou sobre o seu dia.

Sabe, eu gosto de ver o mundo através dos seus olhos...essa bola gigante de poluição e trânsito ao som do Radiohead e cheio de fumaça de cigarro e coisas suas jogadas por todos os cantos me faz entender porque você gosta de ver o meu mundo de filmes e tardes na praia tocando violão, rede e café quente...então você se lembra do frio e da cachoeira, do vinho e das paredes azuis e se acalma...e para pra ver o céu e sentir o vento no seu rosto...e foge de madrugada pra escutar o barulho das ondas, e se desliga do mundo como eu costumo fazer. Sabe, eu gosto de ver o que você aprendeu com os dias e escutar sua voz enquanto lê...e aprecio os seus silêncios.

Então você dormiu, e de tão leve se dissipou na minha frente...e aquela poeira amarela me emocionou de forma que eu chorei e sorri ao mesmo tempo. Desde então eu lhe conto tudo em silêncio enquanto ando pelas ruas...e tiro fotografias mentais pra te mandar, canto baixinho aquela música enquanto espero o ônibus e sorrio pra criança na rua que eu sei que você acharia bonita...desde então eu te levo para todos os lugares comigo nesse samba da solidão acompanhada - e não me importo com olhares porque tudo é nostalgia, tudo de belo vive nessa dimensão paralela, nesse espectro de vida que se criou ao meu redor, e o que o mundo vê são versões menores do que sinto, porque a plenitude é difícil de se entender.

E então eu durmo...

Kamilatavares.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

House of cards.


Ele pôs a mão na minha coxa. Não apertou, não moveu os dedos...só pousou a mão na minha coxa enquanto a outra segurava o volante e seus olhos atentos apontavam em todas as direções da avenida movimentada...só pousou a mão na minha coxa esquerda dizendo em silêncio que estava ali...e eu senti.

Não entendo nada de partículas, moléculas, átomos e essas coisas todas, mas senti a minha pele formigar sob a sua mão que - ali mesmo, imóvel - dividia faíscas e uma energia que eu nunca senti na vida, mas era algo magnético porque me fez querer ficar sentada naquele carro pra sempre.

Enquanto isso o meu rosto sem expressão olhava pela janela...fechei os olhos e senti o vento entrar em todos os meus poros...poluindo minhas bochechas rosadas do sol com a fumaça dos caminhões e confundindo meus ouvidos que não distinguiam mais o som do vento, do rádio ou do motor do carro...e minha mão voava feito uma pipa na janela...dançava como uma de suas bailarinas, leve...leve...leve... E naquele momento eu senti cada célula do meu corpo se agitar e palpitar por um minuto a mais das mãos dele em mim quando ele precisou trocar a marcha pra parar no posto de gasolina e pedir uma informação; então meu corpo momentaneamente se desligou daquele coma agradável e eu voltei pra realidade.

- Vá até o fim da avenida e faça o retorno, tem um posto bem na esquina, pergunte lá e eles vão saber lhe informar.
- Muito obrigada!
- Nada, senhor! - Disse o frentista.

A voz dele mudava de acordo com a situação...pelo menos era isso que ele achava, mas eu sempre escutava uma nota infantil em suas palavras...não aquela infantilidade imatura, irresponsável - mas uma infantilidade leve, divertida, descontraída...sem querer eu sorria sempre que ele falava com os outros com um ar de adulto que não me convencia...ele alisou meu joelho, as faíscas voltaram a iluminar tudo em mim e eu beijei seu ombro direito e dei uma mordidinha antes de voltar a contemplar o dia indo embora pela janela. Meu celular tocou, não atendi.

- O que foi, bebê? - Perguntou.
- Nada
- Tem certeza? - Insistiu.
- Tenho sim...o dia foi cansativo, só isso! Preciso de um banho.
- É verdade! Agora você sabe o que eu enfrento todo dia...desculpa ter que te levar pra trabalhar comigo, eu de fato não podia faltar...queria levar você pra passear mas foi meio que de última hora.
- Não tem problema - disse com honestidade - eu adorei os seus amigos, foi muito divertido! Só não estou acostumada ao clima.
- Tamo já chegando em casa, cê toma um banho gostoso e eu cuido de você, tá bom? Faço cafuné, dou beijo, abraço...cê vai se sentir melhor...
- Claro - disse sorrindo - é exatamente o que eu preciso!
- Entãããão tá bom! Agora escuta essa música!

Escutei a música e escutei ele cantando junto, feliz, satisfeito enquanto brincava com o meu joelhos e as pontas dos meus dedos...e eu olhava satisfeita as expressões que ele fazia enquanto dirigia...gosto de olhar ele dirigindo, no controle da situação...e a voz dele que acabara de perguntar se eu estava bem ainda ecoava...ele tem outra voz pra me perguntar as coisas, mais doce...quase cantada, quase derretendo pra fora dele...e eu gosto de ouvir. Ele também tem a voz de explicar as coisas...mais rápida, invasiva, alta o bastante pra ele defender suas teorias e suas preferências...e eu gosto de ouvir essa voz também, porque evidencia o problema de dicção que ele tem e eu acho tão bonito.

Durante os silêncios eu lhe dizia mil coisas, e acho que ele escutou todas elas de alguma forma...e me confessou algumas outras mil coisas também. Mas eu não me importava com a sua falta de amor em certas horas, porque a gente soltava faíscas e por maior que fosse o meu sofrimento ele me mantinha segura, ele me salvou de mim mesma e eu o salvei dele mesmo, porque sempre fomos os nossos piores inimigos...sempre fomos vilões de nós mesmos, mas com ele por perto eu soltava faíscas de felicidade, sorrisos de boas vindas, lágrimas de amor e suspiros de tranquilidade.

Eu disse em silêncio que o amava, e que por isso iria machucá-lo - ele entendeu.
Eu disse em silêncio que não o amava mais, e que por isso iria deixá-lo - ele entendeu.
Eu disse em silêncio que o amaria pra sempre, e que por isso iria esperar - ele entendeu.
Eu disse em silêncio que o amava mais não acreditava mais nele, e que por isso iria odiá-lo - ele entendeu.
Eu disse em silêncio que sempre iria acreditar nele, e que a gente ia ser feliz - ele entendeu.
Eu disse em silêncio que tudo daria errado, mas que no fim daria certo - ele entendeu.

Ele sempre me entendeu, não por entender tudo que eu dizia, mas por entender que eu sempre dizia alguma coisa...que essa alguma coisa sempre era diferente e que mais cedo ou mais tarde mudaria, mas eu continuaria lá porque eu nunca pretendi partir...ele sempre me entendeu e eu sempre o conheci. E meu mal é conhecer cada centímetro dele...ver a beleza que ele não via em sí...meu mal foi sempre contar tudo...meu mal foi deixar ele me entender...foi por ele ser entendida.

E o mal dele foi entrar sem saber se queria ficar ou sair, foi vender indecisão com o rótulo da certeza e mentir pra si, sabendo que eu o conhecia...não de hoje, não de ontem...de outras vidas.

Ele falava sobre filmes - pelo que me lembro - e gesticulava bastante...olhei bem o rosto dele e permaneci calada e sorrindo em concordância com tudo que ele dizia...observei suas linhas de expressão, seu cabelo milimetricamente bagunçado, seus olhos castanhos e seus ombros bem desenhados, até que ele parou de falar julgando ser aquele um assunto muito chato - discordei de imediato e pedi pra ele continuar. Naquelas horas eu brincava com o tempo enquanto alguma música suave tocava e eu via tudo se movendo devagar...e seu raciocínio se alongava por horas enquanto eu assistia ele todo articulado...e os seus olhos castanhos.

Eu não me lembro mais o cheiro que tinha, mas me lembro da fumaça do cigarro no escuro e todas as cores do dia, e todas as vozes, todos os toques e todas as brigas. Me lembro de todas as músicas e da chuva no meu rosto...do abraço desesperado, do sono...dos olhos castanhos e dos erros meus...me lembro da mão invisível puxando meu coração pra fora todos os dias e me arrancando lágrimas e pensamentos de vingança que nunca consegui concluir...me lembro das faíscas e da mão dele pousando em minha coxa...e não importa quanto tempo passe, eu me lembro.


Kamilatavares.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Ode ao amor

Hoje eu descobri que dói muito mais não amar ninguém do que amar e não ser amado de volta. Hoje eu descobri que se eu tivesse tatuado o seu nome na minha testa, por pior que as coisas tenham se tornado eu não me arrependeria, como não me arrependo das outras coisas menos drásticas porém tão loucas quanto.

Quando a gente se decepciona com alguém, fica desejando o coração vazio e gelado feito um iceberg...fica desejando a amargura de um mundo cinza...fica desejando uma vida inteira sem confiar em ninguém...uma vida de solidão! Pra substituir o que? O vazio de saber que o que você tinha de bom acabou? Será que é mesmo vantagem negar ao coração o direito de sofrer? Ora veja bem, o mundo nunca foi justo...e cada pessoa é um mundo...faça as contas! Encontrar o amor da vida é tarefa difícil, requer sacrifícios, paciência e algumas cicatrizes acabam por aparecer normalmente. Pois eu prefiro os acidentes do caminho a ter que viver sem amor.

Terminar com alguém no final não é o único objetivo, não é o único prêmio! A gente acaba se esquecendo do que acontece no meio do caminho. Pois se não fosse por você eu não teria tantas músicas, não escreveria tantos textos e nem encontraria sentido naquele filme que me fez chorar tanto.

Lembre-se de dar uma volta na rua e você vai ver alguma coisa que lembra alguém que você gostou muito...ou ainda gosta! Um cheiro, um lugar, uma música, alguém com o mesmo problema de dicção, a cor do cabelo, dos olhos, o jeito de andar...lembre e tente não pensar nisso com amargura, tente lembrar com um sorriso e você vai ver que muito do que você é hoje é fruto de coisas que você aprendeu com as pessoas que amou; que elas foram importantíssimas no seu crescimento.

Sem amor - seja ele correspondido ou não - a vida ia passar como um rio...e você ficaria lá como uma pedra...então de que lhe serve a amargura?

Eu menti pra lhe afastar e sofri...e aconteceu muita coisa. Mas eu nunca vou escutar uma música do mesmo jeito...eu nunca vou deixar de prestar atenção na risada das pessoas nem no jeito com que elas pegam no cabelo; eu nunca vou esquecer como é se sentir um imã naquele abraço inesperado ou do meu cabelo bagunçado...eu nunca vou esquecer do borboletário no estômago e o coração acelerado...nunca vou esquecer como é imaginar os nossos filhos e como é me deitar toda noite sabendo que eu vou ter o mesmo sonho com cheiro de almoço feito por mim pra tirar o avental e te dar um abraço na hora que você chegasse do trabalho...porque eu nunca quero viver de amargura...porque é melhor sofrer do que viver sem amor.


Kamilatavares

sábado, 18 de janeiro de 2014

A little walk

Da janela do meu quarto
as paredes coloridas e o som da geração do energético exibindo suas linhas fluorescentes, e as fotos, e a praia, e o sol, e os pés, e os biquinis, e a falta de protetor solar e de juízo. 

Nas calçadas as garrafas de cervejas de noites passadas, os mendigos e as moças com seus saltos na mão e suas cabeças baixas escondendo a maquiagem borrada, e a sujeira da ressaca.

Nos ouvidos os fones e alguma música tranquila que ative o slow motion da minha caminhada e me permita observar tudo ao redor, e chinelos confortáveis, cabelos soltos e um sorriso leve.

Na sombra da árvore um cachorro descansa...e me sorri de volta.


Kamilatavares.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Plataforma 17

Eu estava no carro e chovia...chegamos em casa e eu sentia que ele iria iniciar mais uma conversa pra justificar a distância - e assim o fez. Naquele dia ele me confessou que estava namorando...há meses! Naquele dia eu tive a primeira grande crise de choro na frente de alguém que eu havia acabado de perder...ele me consolou - jurei nunca mais escrever sobre ele, jurei nunca mais chorar na frente dele, jurei nunca mais chorar pelas minhas tragédias reais na frente de ninguém - e assim o fiz...ou quase.
Eu estava sentada na minha cama segurando o computador e processando a conversa que eu havia tido. Naquele dia ele me disse muitas coisas, inclusive que me amava...inclusive que queria ficar só...e eu que havia passado quase um ano chorando apenas com os meus filmes, ou ali meio que escondidinho antes de dormir, sem ninguém escutar - caí em prantos e tive a fraqueza de ligar pra minha melhor amiga, que ouviu os meus soluços e dividiu parte do desespero comigo.
Eu estava longe de casa, sozinha fazendo coisas banais...achei uma carta que não deveria ler - mas li. E essa foi a maior crise de choro da minha vida...e liguei pra um amigo que me fez jurar que eu nunca mais olharia na cara dele que tanto me fez sofrer e buscaria a minha paz...dois dias depois eu o vi - e estava na varanda quando começamos a conversar...não me lembro de muita coisa por causa do álcool...mas me senti naquele dia do carro, chorando por um amor que já morreu ou nem mesmo existiu e sendo consolada por quem causou o furacão.
Eu estava na varanda e ouvi ele dizer que tudo ia dar certo...eu estava na varanda e senti sua mão enxugar minhas lágrimas...eu estava na varanda e fiquei só, e na varanda eu prometi não chorar mais por ele.
Voltei pra casa escutando o silêncio do adeus que não foi dito e agradecendo pelos amigos que fiz no meio do caminho...esqueci de tirar todas as fotos...esqueci de (quase) todos os abraços de despedida, esqueci de escrever no diário de bordo, esqueci meu shampoo, minhas sandálias roxas, um prendedor de cabelo e outros tantos pedaços de mim.
Quando uma guerra acaba os rastros dela ficam pra trás...nunca é o fim de fato porque leva tempo pra reconstruir as cidades, refazer tudo, procurar as famílias que se perderam, enterrar os entes queridos e enxugar as lágrimas e as manchas de sangue que ficam nos que sobreviveram...e vivemos guerras internas contra nós mesmos...morremos e sobrevivemos, prometemos e descumprimos, choramos e nos reconstruímos ao longo dos dias...nos escondemos em trincheiras e depois saímos em desfile cantando vitória, mas na vida não se vence, só se vive...porque vencer significa a derrota de alguém, mas na vida sozinho ninguém comemora...e naquele dia eu assinei o meu tratado de paz!


Kamilatavares.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Carta ao seu novo amor.

Ouvi dizer que você está apaixonado e concluí que talvez (com certeza) seja por isso que você sumiu de vez dos meus dias. Chorei por não ser a pessoa certa mais uma vez, chorei por ter que deixar você ir de vez, chorei por todas as brigas que eu poderia ter evitado, por todas as loucuras que não fiz, por todos os sacrifícios que evitei e pelo futuro que se escureceu diante dos meus olhos...quis morrer, mas preferi me sentir feliz por você, preferi ser aquela pessoa nobre que deseja a felicidade de quem ama mais que a sua própria felicidade...decidi torcer pra que dê certo, pra que dessa vez você faça diferente...e farei diferente dessa vez também, e eis a minha última declaração de amor...pra que ela entenda o presente que a vida lhe deu, hoje escrevo uma carta direcionada ao seu novo amor.

Campina Grande, 23 de Dezembro de 2013.

Há exatamente um ano, era Dezembro que ele começava a se fazer presente diariamente na minha vida agitada...fiquei tão confusa, tão assustada e tão feliz de encontrar alguém tão parecido comigo independente das circunstâncias, ter alguém que entendia todos os meus medos, minhas manias e minhas preferências e gostos específicos pra tudo era um alívio...uma mensagem do mundo me dizendo que sozinha nesse mundo eu não ficaria mais, porque mesmo longe, alguém me entendia...falava a minha língua. Imagino que você deve ter se sentido da mesma forma...embora eu te imagine como alguém bem diferente de mim...talvez tenha longos cabelos castanhos, rosto delicado e voz sempre baixa...talvez goste das melhores que tocam na rádio e uma dose de MPB aos sábados de tarde...talvez compartilhe o gosto pelos Arctic Monkeys ou quem sabe até pelo Pink Floyd, e se lembre dele dos tempos em que eu ainda não existia...e tenha um cheiro que faça ele se sentir bem. Ouvi dizer que ele se apaixonou por você, e vim te pedir pra não dormir de costas pra ele...ele não gosta! Vai querer adormecer olhando nos seus olhos ou sentir você descansando no peito dele enquanto ele enrola os seus cabelos, que ele vai sempre elogiar e querer vê-los soltos.
Vim te pedir que - por favor - tenha paciência quando ele falar das coisas que ele gosta, por mais que você não goste...escute! Ele acha que poucas pessoas no mundo o compreendem tal qual ele é, e vai querer que você o compreenda mais que qualquer outra pessoa...e pra isso irá passar horas citando as cenas de seus filmes preferidos, as músicas que ele escuta quando está feliz, quando está triste, quando quer dirigir sem rumo e fugir do mundo...suas bandas preferidas e a mania que ele tem de colocar molho shoyu em quase tudo que come. Ele vai querer que você entenda o passado dele, porque ele de vez em quando fica triste sem motivo nenhum...e você vai ter que guardar os segredos dele...vai precisar ser o porto seguro, a rocha...porque ele vai cair no meio do caminho...mas você precisa estar lá!
Quando ele sumir - e ele vai - por favor tenha a paciência que eu não tive...ele precisa de espaço de vez em quando, e eu demorei um bom tempo pra entender isso, mas ele se reserva pra não maltratar ninguém...ele se reserva pra pensar na vida...embora os pensamentos em sua maioria não sejam muito felizes...mas ele precisa desse tempo, desse espaço, mas não se preocupe, ele sempre volta com um humor melhor.
Você pode contar com ele sempre que precisar...ele não vai se aproveitar de suas fraquezas e por mais que você erre ele não vai descontar em você, e por mais que um dia ele se chateie com você ele não vai explodir...não vai descontar nada em você e vai pedir pra você relaxar...quando ele pedir pra você relaxar, saiba que ele não gostou...saiba que ele está triste...tente compensar, tente fazer o certo, tente ser um pouquinho melhor.
Se ele te fizer chorar, sempre explique a ele o motivo, ele vai te pedir desculpas e tentar se redimir...se você não falar ele nunca vai notar...a distração dele é maior que muita coisa, acredite.
Se ele disser que te ama, só ame ele de volta se for verdade...seja o melhor pra ele mas antes de tudo seja o melhor pra você...não minta pra você nunca.
Não deixe ele esperando no shopping, ele não gosta. Não coloque ervilha na macarronada, ele não gosta. Se brigarem, não insista em dizer que não foi nada, ele não gosta. Nunca pause uma música do Radiohead ou do Pink Floyd na frente dele ou muito menos fale mal de uma das duas bandas na frente dele, ele não gosta.
Faça massagens nele, alugue um filme do Tarantino, compre sempre Heineken, sorria, não esconda suas manias estranhas de infância, use Justin Timberlake pra quebrar o gelo, incentive a criatividade dele...ele vai te dizer que não tem talento pra nada - discorde, ele é talentoso em vários aspéctos e você vai descobrir isso com o tempo.
Quando ele escrever algo errado - corrija. Ele não gosta mas é pro bem dele. Diga sempre o que ele precisa ouvir, e não o que ele quer ouvir...pode doer na hora, mas ele vai sempre entender.
Compartilhe suas preferências, conte besteiras como a sua cor preferida, sempre argumente de forma inteligente.
E por fim, compartilho os dois melhores segredos que guardo sobre ele, na tentativa de que você faça o que eu não consegui fazer - Acorde um pouquinho mais cedo se puder pra ver o Sol das 6 da manhã incomodando o sono dele, e preste atenção em como ele dorme sorrindo e como o Sol do começo do dia deixa a pele dele mais bonita...e por fim, dê uma mordidinha no ombro dele enquanto ele estiver dirigindo meio desatento...o ombro direito dele tem gosto de Marshmallow - não diga a ninguém que eu lhe contei isso, são tesouros que compatilho só com você.
Sua nuca vai arrepiar quando ele segurar na sua perna enquanto dirige ao som da Gal Costa, seu coração vai esquentar quando você contar algo engraçado e ele colocar a mão na boca pra rir, suas costas vão relaxar com a dormência da massagem dele, seus olhos vão se encher d'água quando ele chorar, seus cabelos vão se emaranhar nos dedos dele e sua boca vai ficar seca...mas ele vai buscar água sempre que você pedir.
Sobre as coisas ruins eu não vou falar, todo mundo deve ter o privilégio de começar do zero deixando pra trás o que fez de errado...só lhe peço que cuide dele...porque eu não posso mais cuidar. E se ele te fizer sofrer, escreva suas notas de rodapé e encaminhe a carta para a próxima que vier, até que um dia ele encontre a felicidade que merece e a paz que tanto procura.

Desejo-lhe boa sorte, um abraço!

Aquela que não é mais.

sábado, 21 de dezembro de 2013

If I die Young.

De vez em quando, sem nenhuma razão aparente o mundo parece girar em slow motion e tudo fica assustadoramente lento ao seu redor...seus passos diminuem, a respiração se torna preguiçosa e tudo parece melancolicamente poético. Nessas horas nada de bom se passa pela sua cabeça...você pensa no fim, na morte, em suicídio, nas coisas inacabadas, em tudo que você acha que fez de errado e nos seus arrependimentos. A oficina do diabo começa a funcionar.
Você pensa no que poderia acontecer se você simplesmente sumisse de forma repentina, e se senta em algum lugar calmo perto de uma árvore, esperando ser atingido por um raio, um meteoro, uma abdução alienígena, um ônibus que perdeu o controle, um infarto fulminante ou uma bala perdida enquanto se pergunta se os seus amigos chorariam por você, sentiriam sua falta ou quanto tempo levaria para todo mundo esquecer e seguir em frente.
O que você deixaria pra trás? O que levaria com você? Qual ato memorável seria relembrado? Qual seria o seu legado? Quem seriam seus herdeiros? O que resta como prova de que você honrou o privilégio da vida que teve? Quais os desperdícios e arrependimentos? O que seria motivo de orgulho? Quem descobriria aquele segredo que você guardou tão bem guardado?
E o mundo pausa, seus olhos se fecham e você sente o universo entrar pelos seus poros nos raios de sol, gotas de chuva, no vento, na fumaça dos carros e barulho das sirenes...no choro da criança e no latido do cachorro...e de repente tudo se separa e se torna um só...e de repente tudo é paz e agonia.

Kamilatavares.

sábado, 14 de dezembro de 2013

O fim!

Campina Grande, 8 de novembro de 2012

Hoje eu me cansei.
Na verdade o cansaço bateu não foi de hoje...mas eu tentava esconder, disfarçar, maquiar com sorrisos e aquelas velhas histórias tão divertidas pra quem não me conhece.
Eu vinha tentando manter você vivo aqui dentro, aquela parte de você tão boa que me fez ficar...mas a missão foi ficando difícil a cada dia, a cada raiva, cada mentira, cada desculpa esfarrapada, cada vez que eu me senti uma otária e tive que escutar e ver todo mundo apontando o meu papel de boba enquanto eu tentava dizer que valia a pena...mas não vale não!
Até quando você vai fazer isso? Quem é a próxima a te dar atenção e cuidados 24h por dia? Porque eu não fui a primeira...
Mas hoje eu decidi, depois de tantas tentativas, de fato acabar com isso. E juro que se eu pudesse deletaria tudo que nos ligasse e viveria no brilho eterno da minha mente sem lembranças, pedindo aos deuses pra não topar com você na rua e te conhecer mais uma vez, pro meu cérebro não entrar em pane!
Mas já que eu não posso...então vou me lembrar! Lembrar de cada mentira, cada palavra grosseira, cada olhar falso, cada atuação...vou me lembrar de todas as vezes que eu me senti indigna, que eu achei que não estava à altura, de cada hora que eu me senti deslocada, de cada  sapo que eu tive que engolir, de cada oportunidade que eu perdi...cada noite em claro...cada briga com os meus amigos que me viam cada vez menos.
Eu vou te visitar no domingo, pela última vez...vou escutar você dizer que me ama...e dizer 'eu também' pela última vez...e mais uma vez você vai me perguntar o que aconteceu, e porque eu ando tão calada; e de uma vez por todas eu vou dizer tudo o que eu tenho pra dizer, mais uma vez...mas desta vez você não vai me emprestar o seu casaco e me consolar como se a causa do meu choro não fosse você. Desta vez você não vai me deixar em casa e me tratar bem por uma semana até eu me acalmar e voltar a confiar em você outra vez esperando a próxima facada. Desta vez eu não vou aceitar aquela cerveja gelada como pedido de desculpas...
Você foi esperto, me fez achar que tudo o que eu fazia por você era, na verdade, bom pra mim! Olha só o menino perfeito esperando o seu café com torradas, e a honra de levar é minha. Você me fez achar que ser só sua era uma honra pra mim, enquanto me fazia de besta...dá pra sentir o cheiro de pena sabia?
Te dei tudo sem esperar que você me desse tudo em troca...é bonito não é?! E o que você fez com isso? Pois é...
Eu espero que o nervosismo não me consuma, muito menos as lágrimas, e que eu consiga pontuar todas as razões pelas quais eu vou te deixar...eu espero que você lembre de todas...eu te conheço o suficiente pra não ser burra de ir embora sem mais nem menos...eu sei todos os argumentos que você usa pra culpar os outros dos seus defeitos. Não quero ouvir você dizer que eu sou louca...quero que você se dê conta do que fez.
Esta carta serve em caso de apagão, de fraqueza...eu sei que vou chorar e abraçar você...te perdoar e dizer que eu passo ai na terça pra te levar aquela receita nova que eu aprendi...mas eu não posso! Não posso mais voltar atrás!


Kamilatavares.


Quando você vai revirar os documentos e encontra aqueeela velharia dramática.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Igor (Fragmento).

 Uma vez eu vi em um filme que a gente sabe que está dentro de um sonho quando não consegue lembrar como foi parar ali...quando não tem lembrança alguma de quando tudo começou. Pois bem, eu não me lembro!
 Não consigo lhe dizer o que foi sonho e o que foi realidade, não consigo me lembrar como fui parar ali, não consigo contar quantas vezes eu a conheci e nem quantas vezes eu a vi partir...simplesmente tudo se misturou em uma confusão de sentimentos, sonhos, delírios, ilusões e outras tantas coisas que eu também não conseguiria descrever. Contudo, minha história será contada e vocês saberão como eu acabei me enterrando dentro de mim e passeando pelas minhas entranhas até me consumir por completo nessa doença que se tornou parte do que eu sou. Me perdi no emaranhado de situações e na teia de estórias que lhes serão contadas...e ainda não consegui encontrar a saída.
 Era manhã...era tarde...era noite...era madrugada. Eu estava lá, ela estava linda. Nos conhecemos - outra vez.
 Perguntei o seu nome, e disse o meu mais uma vez.
 - Muito prazer, me chamo Igor.

Kamilatavares.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Delirium.

Eu não sei todas as respostas do mundo. Eu não tenho justificativas. Minhas atitudes extremas não precisam de uma gota d'água. Meu desequilíbrio não precisou de um trauma. Meu amor não requer sujeito. Minha dor não precisa ser afogada.
Ele criou o mundo que precisava pra manter nossa união aquecida com o Sol que descansava todas as tardes na nossa janela...ele regou os sonhos que alimentavam os domingos preguiçosos na varanda...ele construiu anos de música, prosa e verso sobre os meus vestidos. Os incensos e balões de Hélio brincavam na sala cheia de DVD's e os sapatos se misturavam debaixo da cama, junto do lençól que derrubamos e do enfeite do meu cabelo. As escovas de dente se abraçavam olhando a toalha dividida entre as roupas sujas no chão e o sabonete. Os copos sujos de vinho conversavam sobre a noite passada com o cinzeiro cheio de histórias e cigarros mortos com e sem marcas de batom. E a sobremesa esperava...e a tristeza ficava pro outro dia...e a realidade era remarcada pra semana que vem...e o perigo das ruas era mantido em segredo dentro da TV desligada.
Quis sair pra ver o mundo, me assustei.
Lá fora a coisa é outra...lá eu preciso sobreviver...lá eu tenho pesadelos e acordo sem abraços...mas é lá que eu vivo agora...e as buzinas e os semáforos e as ambulâncias e os documentos e o despertador e o prazo final...e a realidade.
Vou passar lá pra pegar algumas roupas...e o cheiro de lavanda que deixou o meu pescoço. Vou passar lá pela nostalgia...pelo piso de madeira que range quando eu ando na ponta do pé de madrugada...pela maçaneta que emperra...pela torneira com vazamento...pelo meu filme preferido que ficou empoeirado na estante...pela minha luminária verde...pela dose do mundo dele que eu quero na minha realidade mesmo depois de ter ido embora.
Pra dizer Adeus...


Deb.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Efêmero.

Ele tinha mania de puxar os cabelos atrás da orelha quando assistia filmes, ou quando ficava nervoso com alguma coisa, de modo que o seu cabelo liso sempre tinha um pedacinho mais bagunçado. Eu dava tapinhas em suas mãos pra ele parar de puxar os cabelos, e ele se encostava em mim pedindo cafuné. Eu levava ele ao cabeleireiro pra cortar a parte bagunçada do cabelo, que toda vez crescia e voltava a ficar bagunçado outra vez.

Eu tinha mania de dobrar os guardanapos em formas triangulares quando a gente saia pra jantar fora e eu não sabia o que dizer, sobre o que conversar ou quando eu ficava nervosa...na verdade ainda tenho essa mania mesmo não saindo mais pra jantar com ele. Ele dava tapinhas nas minhas mãos pra eu parar, amassava o guardanapo e jogava de volta pra mim enquanto ria e arranjava alguma distração pra me fazer parar.

Um dia fomos tomar café, meu dia havia sido péssimo e eu enrolei uma mecha do meu cabelo até ele ficar todo bagunçado. Ele pegou um guardanapo...dobrou em formas triangulares e me deu.

- Pra te acalmar.

Sorri pra ele.

Hoje eu não sei como estão os seus cabelos e ele não sabe quantos guardanapos eu dobrei...e me lembrei de todos os tapinhas nas mãos enquanto arrumava a minha bolsa e encontrei o guardanapo triangular manchado de café.

Hoje quase tudo evaporou...
Hoje os castelos caíram...
Hoje eu não sei mais.


Kamilatavares.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Time and pain.

Fechei os olhos...minha cabeça explode de meia em meia hora, entro em pequenos colapsos passageiros...e minhas costas doem. Pessoas perguntam se eu acabei de acordar, ou se eu tive um dia exaustivo...não fiz nada durante aquele dia inteiro e mesmo assim o cansaço me pesava.
Ele escapou da morte, mas ela está sendo encurralada...já não tem mais a mesma voz, já não acorda mais com a mesma disposição, já não dorme mais tão tranquilamente. Eu vi as suas rugas, o seu suspiro no fim da tarde de quem espera a hora de partir.
Somos tão velhos, somos tão jovens...
Eles fogem da morte...se escondem debaixo da cama, atrás da porta, trancados no quarto! E nós saímos todas as noites buscando o suicídio.
Um dia a hora chega, enquanto isso o ponteiro vai nos arrastando e eu acabei descobrindo que é por causa do barulho do relógio que a minha cabeça dói.


Kamilatavares.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O dia em que eu senti paz.



Para ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=aAXRKPGKXWs e http://www.youtube.com/watch?v=cdiY6kijYHE

No dia em que eu senti paz eu chorei, porque não sabia o que era aquilo bom dentro de mim, me fazendo lembrar que eu também tinha coisas boas depois daquilo tudo...
No dia em que eu senti paz os meus ouvidos doeram ao som de The Tourist, que nunca tinha feito sentido pra mim ate então, e naquela hora eu soube que ali se acalmavam todos os ruídos fortes do meu coração...
No dia em que eu senti paz fazia calor, mas o vento soprou nos meus cabelos curtos e eu sabia que algo de novo ia chegar, e no meio do choro eu sorri esperançosa...
No dia em que eu senti paz a grama estava verde, o céu estava azul e os tijolos do castelo estavam vermelhos e cheios de histórias que até hoje, por mais que eu tenha voltado lá quinhentas vezes, não consegui contar...
No dia em que eu senti paz eu estava sozinha, inerte, esperando Deus sabe o que...e hoje eu continuo assim...
No dia em que eu senti paz eu mudei, e foi a única mudança que eu quis guardar só pra mim, e senti o gosto do egoísmo de não querer dividir aquela paz com mais ninguém...
No dia em que eu senti paz eu repousei minhas mãos e silenciei, pois o meu exagero já não era mais conveniente naquele lugar...
No dia em que eu senti paz eu fechei os olhos e senti o universo inteiro transitando pelos meus poros junto com as gotículas de água que o vento trazia do lago e da pequena represa...
No dia em que eu senti paz soprei aos ventos o último trago da minha guerra interna, e o Sol se pôs atrás de mim...
No dia em que eu senti paz eu parei o tempo e andei por entre as estátuas dos meus amigos que se misturavam com as armaduras, espadas e esculturas. Demorei cerca de um mês naquela música e pude olhar nos olhos de cada um sem precisar me envergonhar disso...porque sim, eu tenho medo dos olhos das outras pessoas entrando nos meus...mas no dia em que eu senti paz, eu não senti medo...de nada.
No dia em que eu senti paz, a paz me sentiu também...e foi embora.


Kamilatavares.


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Weird Fishes - IGOR

Era a primeira semana de verão e os casacos deram lugar aos vestidos, saias e tardes na piscina, e ela que nunca foi muito litorânea, resolveu dar uma volta pela orla e aproveitar o fim da tarde, sua hora preferida do dia. Era dia de semana e a calçada da orla estava quase vazia, do jeito que ela gostava...porque dá pra andar rápido e ao mesmo tempo parar pra observar de uma perspectiva mais livre.
Os carros passavam na avenida cheios de pessoas voltando para casa, buzinas nos semáforos, engarrafamentos...ela odiava aquele trânsito, e por isso resolveu esperar até o anoitecer pra poder dirigir de volta pra casa; estranho ter que dirigir, não se lembrava quando tinha começado, mas sabia que não era a melhor das motoristas, só não lembrava quem havia ensinado ela a andar pela cidade...e por falar em cidade, ela começava a gostar cada vez mais dali, não sabia porque...na verdade ela não sabia de muitas coisas...era como se alguma parte da sua memória estivesse apagada, e ela fosse tentando se lembrar aos poucos enquanto andava pela orla sem rumo, procurando algo que não sabia o que era, e enquanto ocupava as duas mãos segurando o copo de suco, o seu chapéu voou.

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Era a primeira semana de verão e ele odiava a ideia de que o calor ia começar a invadir as noites e aquele último cigarro do dia não teria mais o abraço do vento frio que vinha lhe visitar todas as noites na sua varanda. Estava cansado, porém tranquilo. Depois de uns meses de adaptação ele resolveu que pacientemente esperaria por ela, mas não a procuraria mais...não iria forçar a barra e tentar adiantar o tempo e estragar tudo mais uma vez, enquanto isso buscava se reconstituir e recuperar o controle de si. A gagueira havia diminuído bastante depois que ele foi deixando o nervosismo de lado, a quantidade de cigarros fora reduzida pela metade e - acredite - as camisas no armário dele estavam todas guardadas em cores aleatórias, e os vinis estavam bagunçados e alguns até fora dos encartes.
Ele gostava de dirigir sozinho escutando aquele CD quase todos os dias no horário em que deveria buscar ela na faculdade...ele gostava de manter certos hábitos, mas naquela primeira semana de verão resolveu mudar a rota e andar pela orla, ver as pessoas passeando com seus cachorros, as crianças correndo, as bicicletas...
Desceu do carro e colocou os fones de ouvido, Gal.
Colocou os fones de ouvido e foi pra orla...andar.

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Chapéu, óculos escuros vestido solto, pés descalços, chinela e copo de suco nas mãos...andava e sorria, procurava mas não sabia o que.
Cabelo ao vento, óculos escuros, camiseta jogada no obro, bermuda xadrez, pés descalços, chinela nas mãos, fone no ouvido...andava e sorria, esperava a hora, mas não sabia quando chegaria.

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Existem momentos no universo em que alguns planetas se alinham, algumas estrelas brilham mais e algumas explosões acontecem, deixando tudo mais bonito; as luas saem pra dançar e os astrólogos sentem arrepios e escrevem coisas sobre os nossos signos. Eclipses acontecem, crianças nascem, pessoas se conhecem, o dia vira noite, e a vida dá certo e segue como um barco que foi presenteado com um sopro de sorte pra seguir viagem...e em um desses sopros o chapéu dela voou.

- Moça...moça...MOÇA!
- Oi? Desculpe eu não estava ouvindo
- O seu chapéu caiu.

Era ela...era ele. Os olhos dele saltaram de susto por não ter percebido ela passando ao seu lado...quase gaguejou, mas agora está mais controlado...os olhos dela brilharam e ela sorriu aliviada, quase perdera o seu chapéu preferido, olhou pra ele e sentiu aquela familiaridade forte feito abraço de mãe, não entendeu o porquê, mas não contestou tal felicidade tomando conta de si.

- Ai meu Deus...MUITO OBRIGADA, eu sou meio estabanada e quase perdi o meu chapéu preferido, obrigada mesmo.
- É um belo chapéu, não deixe ele voar por aí.
- Obrigada, de verdade! São os ventos novos que andam meio rebeldes
- É verdade - concordou com um sorriso - me desculpe...qual é o seu nome?
- Ah, Bianca, muito prazer! - disse estendendo a mão ao estranho - E o seu?
- Igor!






terça-feira, 17 de setembro de 2013

IGOR. (Fragmento aleatório)

Ele chegou exatamente um minuto antes da hora em que a consulta estava marcada; 3:14 da tarde naquele minuto que durou meia hora, porque o médico atrasou. Era sua primeira vez em um consultório psicológico...o departamento da universidade meio que obrigou ele a ir, temendo que a situação piorasse e alguma medida drástica tivesse que ser tomada.
Enquanto esperava organizou as revistas da mesa de centro e separou por cores uns legos que estavam no canto da sala de espera, provavelmente para entreter as crianças; a secretária observava curiosa enquanto atendia telefones e anotava recados, apesar de estar acostumada com certas situações, nunca vira nada tão exagerado.

- Igor Tavares?
- Sou eu!
- O senhor é o próximo, pode entrar...o doutor está lhe esperando.
- Ok.

Igor entra e observa a sala progurando algum rastro de desorganização que seja, se senta, e antes que comece o seu ritual de limpar as mãos com álcool em gel, é interrompido pela voz calma do doutor.

- Boa tarde, Igor.
- Boa tarde!
- Suponho que essa seja sua primeira vez...o que te trouxe aqui?
- O reitor!
- Hmm, posso ver o porquê - disse observando o cuidado que Igor tinha com as mãos.
- O que eu tenho que tomar?
- Agora? ... Agora a única coisa que você precisa tomar é coragem pra conversar comigo. Sem diálogo não vamos chegar a lugar algum.
- Ou a gente pode pular pra parte em que você diz logo o que eu tenho, me dá alguma coisa pra tomar e poupa o meu tempo de falar sobre problemas que você nem se importa e escuta só pra ganhar dinheiro.
- Mas não é você quem está pagando, e outra...eu não sou psiquiatra, não posso te receitar nada...minha função é ouvir você!
- E se eu não quiser falar?
- Coloco no meu relatório a conclusão das horas de silêncio.
- hmm
- E então?!
- É que eu ando meio...digamos que meio nervoso. Eu tenho TOC, acho que o senhor já percebeu isso...nunca foi novidade pra mim, sempre lidei com isso de uma forma que não prejudicasse ninguém...mas veja bem, eu sou professor e...digamos que eu ando tendo uns problemas em interagir com as pessoas.
- Desde quando esses problemas começaram?
- Na verdade eu sempre os tive, mas sabia me controlar...piorou de um ano pra cá!
- E o que aconteceu de um ano pra cá?
- Aconteceu que...que...
- Oi? Igor...Igor...acorde!!! Você tá bem? - Disse o doutor tentando reanimar Igor.
- Hã? oi...eu...eu...
- Calma, beba um pouco de água...você desmaiou do nada, o que houve?
- Eu não consigo falar...desculpe - Disse aos prantos.
- Tudo bem, a gente pode continuar depois.
- Você não entende...eles querem que eu pare de procurar por ela, eu não posso, EU NÃO POSSO! Minha vida era perfeita, meus problemas eram controláveis, eu me sentia bem...eu não consigo mais viver assim!
- Assim como? Se acalme, por favor!
- Foda-se, vou fazer tudo do meu jeito.
- Se acalme, por favor! O senhor não está em condições de se exaltar e muito menos de tomar decisões!
- Muito obrigada, doutor, mas eu não preciso mais do senhor! Coloque o que quiser no seu relatório, eu não me importo...vou embora!


                                                  ***

- Doutor, algum problema? O paciente saiu daqui correndo aos prantos, o senhor está bem?
- Estou bem sim, obrigada...vou só beber uma água pra me acalmar e pode mandar o próximo entrar.
- O que houve com ele?
- Algo que eu não sei responder...muito menos resolver.
- O que será que vão fazer com ele?
- A pergunta é: O que ELE vai fazer consigo mesmo? Esse é o medo...


                                                  ***




quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Mas.

Eu durmo - mas não gosto de acordar;
Eu como - mas não gosto de engordar; 
Eu bebo - mas não gosto de me embriagar;
Eu perdoo - mas de vez em quando penso em me vingar/
Eu amo - mas não gosto da dor de amar;
Eu me calo - mas quero gritar;
Eu gosto do frio - mas a chuva me faz gripar;
Eu choro - mas prefiro negar;
Eu leio - mas prefiro cantar;
Eu vivo - mas sei que um dia a morte vem me buscar;
Eu saio - mas prefiro me trancar;
Eu digo que sou realista - mas na realidade eu prefiro é sonhar!

Kamilatavares.


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Fake Plastic Trees


Hoje fez Sol, aproveitei pra lavar roupa. Quando o frio se instala por aqui no inverno e acaba prolongando a estadia por mais uns dias é inevitável ver suas roupas todas mofarem...mas hoje fez Sol, e daqui da janela eu vejo a roupa estendida no varal. Eu gosto de passar pelo quintal e sentir o cheiro da roupa limpa secando...
Um dia eu vou morar só, em outra cidade...ou até na mesma cidade, ou quem sabe com outra pessoa; e quando esse dia chegar e começar a chover eu vou sentir falta da voz da minha mãe me mandando correr pra tirar a roupa do varal antes que molhe tudo...vou sentir falta de muitas coisas. A mamãe há tempos já foi dormir...um sono pesado pelo visto, ainda não ouvi ela abrindo a porta pra ir na cozinha beber água. Gosto quando ela dorme assim...pesado, despreocupada. Veja bem, hoje é sexta e eu estou em casa, se eu tivesse saído ela provavelmente estaria acordada se preocupando comigo, imaginando aonde eu estaria uma hora dessas...mas eu não saio mais...isso eu devo ao Igor, apesar de tudo ele foi quem mais me ajudou a mudar...pra melhor. Não fosse pelos tempos em que eu troquei a mesa do bar pelas madrugadas conversando com ele, acho que agora eu provavelmente estaria na infinita dose de Vodka ou na lata de cerveja de número um milhão, tossindo meu último cigarro e com frio, escutando uma música qualquer e falando com pessoas que eu na verdade nunca converso mais que um "IAEEEE BELEZA? TOU BEM SIIIM BRÓDER E VOCÊ? POIS BÓ BEBER..." e só.
Dizem que hoje eu ando mais triste...mais solitária...mas parando pra pensar eu sempre fui, só que eu fingia. Mentia pra mim mesma...tão feio isso. Hoje não mais, hoje fez Sol. Se eu estou triste e só não tenho motivo pra sair e fingir um bom humor na procura de alguma coisa que eu não vou encontrar...isso o Igor nunca me disse, mas em silêncio foi outra coisa que ele me ensinou. Em contrapartida eu disse que ele era viciado em tristeza e acho até que peguei pesado com ele...mas se o fiz é porque quero que ele seja feliz. E sei que ele me entende, mesmo eu não pedindo.
A gente se afastou - eu e o Igor - e dói, mas a gente acaba se afastando de quem não deveria mesmo sem querer...tipo o meu irmão, eu me afastei dele também...ou ele se afastou de mim...ou nós nos afastamos, não sei. A gente nunca conversou muito sobre coisa séria...nisso a gente sempre se compreendeu em silêncio, e hoje eu sinto falta de dizer em voz alta como eu me importo com ele...só pra ele se lembrar, sabe?! Eu sei que ele anda triste e solitário também na cidade lá onde ele mora...talvez a gente se entendesse. Minha mãe cobra isso de mim, comunicação familiar! Ela acha que o meu silêncio é a confirmação de que eu não me importo e prefiro não saber de nada, a gente nunca se entendeu muito...mas eu acabo me informando pelo que eu escuto atrás da porta, e tenho guardado aqui um amor imenso por ela, que vez ou outra eu consigo demonstrar de alguma forma.
Eu ia na psicóloga...não vou mais.
Eu ia no bar toda sexta...não vou mais.
Assisto um filme por dia, com uma bacia de pipoca e um copo de suco...ou de Milk Shake (o que foi o caso hoje). Terminado o filme e o Milk Shake, coloquei a seleção que eu fiz do Radiohead pra tocar, abri a janela e fumei um cigarro...com todo cuidado pra ninguém acordar e descobrir os meus maus hábitos, joguei o cigarro fora, abri a porta, coloquei o copo sujo na pia, fui ao banheiro escovar os dentes e lavar as mãos (eu lavo muito as mãos) e voltei pro quarto escuro pra olhar as roupas estendidas no varal dançando suas sombras na luz da lua.
Minhas mãos congelaram...mas não ligo...não canso de olhar a janela. Eu gosto da minha janela sabe?! Tem umas coisas coladas nela, adesivos da minha banda, flyers de shows, um mini poster dos Ramones, um desenho meu que o irmão de uma amiga minha fez e um Woody que eu ganhei de presente de aniversário do baterista da minha banda. De noite eu abro a janela e consigo ver um pedaço de céu...durante o dia eu deixo ela fechada porque não gosto do Sol me acordando.
A janela do Igor é maior que a minha, mas não tem revestimento nem cortinas...percebi isso quando o Sol me acordou naquele dia...eu deveria ter odiado aquela janela...mas sinto falta dela...sinto falta de muita coisa, inclusive de um sono tranquilo.
Mas hoje fez Sol e eu aproveitei pra lavar a minha roupa suja e mofada, então talvez amanhã o dia seja mais limpo.


Bianca Aragão?  Kamila tavares? Pandora?